A chave do coração

02 – Compreendendo o curso de nossos pensamentos

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho perverso, e guia-me pelo caminho eterno.” (Sl 139:23,24)

“Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações.” (Jr 17:10)

“Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? assim também as coisas de Deus, ninguém as compreendeu, senão o Espírito de Deus.” (I Co 2:11)

Deus faz raio-x de nosso coração, o Senhor nos chama pelo nome (Jo 10:3) e nos conhece (Jo 10:14). Nós, portanto, somos plenamente conhecidos por Deus e devemos nos conhecer como Ele nos conhece (I Co 13:12) de modo que devemos ter “o testemunho da nossa consciência, de que em santidade e sinceridade de Deus, não em sabedoria carnal, mas na graça de Deus”, vivemos no mundo” (II Co 1:12). Nós devemos nos recomendamos à consciência de todos os homens diante de Deus (II Co 4:2), isto porque a Deus já somos manifestos e conhecidos (II Co 5:11). Assim nosso amor deve ser puro, nossa consciência isenta de culpa e nossa fé não pode ser fingida (I Tm 1:5).

A questão é como nós podemos fazer o raio-x de nosso coração baseado no que Deus conhece de nós, como nós podemos entender as coisas que estão dentro de nosso coração com base no espírito humano que foi criado por Deus no ato de nosso novo nascimento, visto ser este espírito que conhece as coisas do homem. Uma coisa é certa, nós somos responsáveis por nossas atitudes. Isto porque Paulo ensinou que temos a prerrogativa de apresentar nosso corpo como instrumento do pecado ou da justiça, portanto nós podemos nos apresentar a Deus para tornar-nos testemunhas vivas de Sua graça bendita (Rm 6:13). Sabendo desta prerrogativa que temos, Paulo nos conclama a que apresentemos nossos corpos a Deus como  um sacrifício vivo, santo e agradável ao Senhor (Rm 12:1).

Nós também temos a prerrogativa de disciplinar nossos pensamentos. Nós precisamos levar cativo todo e qualquer pensamento a obediência de Cristo (II Co 10:5). Isto porque os pensamentos facilmente formulam raciocínios, gerando teorias, sendo estas transformados em “teologias” que justificam nossas atitudes, teologias estas conhecidas como fortalezas mentais, um outro nome para designar o endurecimento do coração pelo engano do pecado. Foi para evitar que nossos pensamentos caíssem neste tipo de armadilha que Paulo nos ensinou a revisar continuamente tudo que alimenta nossos pensamentos com a seguinte instrução:

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” (Fl 4:8)

Nós, enquanto cristãos, devemos fazer um raio-x não somente em nossas atitudes, mas também acerca de nossos pensamentos. Tudo precisa ser devidamente sondado diante da palavra de Deus para vermos se não estamos seguindo um caminho mau, cujo fim último é nos fazer perder a comunhão com Deus, entronizando em nosso coração deuses funcionais.

O Dr David A Powlison descreve estes “deuses funcionais” como sendo aquele “que ocupam posição de autoridade no coração humano – o que ou quem na verdade controla ações, pensamentos, emoções, atitudes, memórias e expectativas” (1). Estes deuses funcionais, na verdade, nos impõe uma atitude que é diametralmente oposta à vontade de Deus, nos termos de Paulo, os que estão na carne, ou seja, sob o comando destes deuses funcionais, não podem de modo algum agradar a Deus (Rm 8:8)

Jesus, ao questionar sobre quem de fato está no centro de nosso coração, se Deus ou as riquezas (Mt 6:24), evidenciou um destes deuses funcionais, identificando-o como ansiedade. Certa medida de ansiedade não é um mal em si mesmo, assim como acontece com o veneno de cobra, apta a criar o próprio antídoto contra as cobras. Ninguém pode viver sem a ansiedade, neste caso teríamos que sair do mundo, contudo quando o sintoma da ansiedade surge, é porque chegou o momento de nos aplicarmos a oração:

“Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” (Fl 4:6,7)

Agora quando a ansiedade persiste em permanecer, então ela se constitui num deus funcional que precisa ser destronado de nosso coração. Por ansiedade devemos entender como sendo a “sensação de receio e de apreensão, sem causa evidente, e a que se agregam fenômenos somáticos como taquicardia, sudorese, etc” (Aurélio). A ansiedade, parente próximo do medo, pode ser entendido também como “uma sensação ou sentimento decorrente da excessiva excitação do Sistema Nervoso Central conseqüente a interpretação de uma situação de perigo” (2).

Estudos demonstram que a ansiedade tem características físicas e psicológicas porque afetam tanto nossa psique, quanto também nosso organismo com a manifestação de alguns sintomas, tais como taquicardia, cefaléia, tensão muscular, etc. Diferente do medo, a ansiedade não apresenta causas definidas, antes é uma conseqüência da perda crescente do conforto e da segurança existencial (2). Por esta razão a presença da ansiedade pode se constituir num indicador seguro que este deus funcional está exercendo comando em nosso coração, pois deixamos de reconhecer Deus como fonte de toda nossa provisão. O interessante é que:

“a principal característica psíquica do estado ansioso é uma excitação, uma aceleração do pensamento, como se estivéssemos elaborando, planejando uma maneira de nos livrar do perigo e da maneira mais rápida possível. Este movimento mental, na maioria das vezes acaba causando uma certa confusão mental, uma ineficiência da ação, um aumento da sensação de perigo e de incapacidade de se livrar do perigo o que configura um círculo vicioso, pois esta sensação só faz aumentar ainda mais o estado ansioso.” (2).

O autor continua:

“Este movimento impulsivo de a mente se acelerar, de precisar ter tudo sob controle, para poder usufruir a sensação de repouso e conforto faz com que ela se excite e se o problema não tiver uma solução mental imediata como o que acontece na maioria dos casos teremos a chamada ansiedade patológica, que tende a se cronificar e piorar com os anos.” (2)

O que nós podemos perceber é que a grande batalha espiritual que temos se trava em nossa mente. Não é sem razão ser este o campo principal de guerra porque ao nascermos de novo Deus dotou nossa mente com a mente de Cristo (I Co 2:16). Sabendo que o diabo anda em derredor de nós buscando tragar alguém (I Pd 5:8), é em nossa mente que ele tem injetado seus dardos inflamados e malignos (Ef 6:11). Portanto nós precisamos aprender a lidar com nossos pensamentos e resoluções que nosso coração tem produzindo, caso contrário estaremos permitindo que pensamentos recorrentes destruam nossa alma, corrompam nossa consciência e fragilizem nossa fé.

(1) Powlison, David A. Conceitos Bíblicos Básicos Sobre a Motivação Humana in Aconselhamento Bíblico, Coletânea. Atibaia. Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999.
(2) http://www.ansiedade.com.br/ansiedade/

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