A chave do coração

03 – Compreendendo porque o mal vem de Deus

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho perverso, e guia-me pelo caminho eterno.” (Sl 139:23,24)

“Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações.” (Jr 17:10)

“Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? assim também as coisas de Deus, ninguém as compreendeu, senão o Espírito de Deus.” (I Co 2:11)

Nós somos responsáveis por nossas atitudes, portanto temos que considerar como se processa nossa motivação. Se uma atitude é persistente, então nossa motivação segue um determinado padrão que precisa ser discernido. Assim nós precisamos responder a seguinte pergunta:

Por que eu fiz ou faço isso?

Dr. David apresenta uma série de resposta a esta questão, dizendo que certas pessoas agem por influência dos signos por acreditar em horóscopo; por predisposição genética por culpar seus pais; por conta dos hormônios por não controlar seus impulsos; por pressão das pessoas por submeter-se às convenções sociais; por impulso por influenciar-se pela recompensa; por causa da criação por transferir responsabilidades aos outros; por causa do sentimento de inferioridade por medir-se com outras pessoas segundo sua escala de valores; por causa da compulsão por crer ter brechas em suas personalidades; por causa do temperamento por acreditar que não há como mudar seu caráter (1).

Paulo, por sua vez, simplificou este diagnóstico. Sua regra é muito simples: sempre que fazemos algo que não gostaríamos de ter feito, o agente motivador de nossa conduta foi o pecado (Rm 7:17). Neste caso, o pecado é o deus funcional e seus agentes operacionais são conhecidos como obras da carne. É identificada como sendo obra da carne toda atitude comportamental cuja ação não é condizente com a condição de filho de Deus. Assim, se respondemos com ira quando devíamos ser brandos, se agredimos quando devíamos perdoar, se temos ciúmes quando devíamos ser generoso, estamos agindo na carne, portanto o pecado está no comando.

É muito importante identificar nossa motivação, porque somente em sabendo o que realmente está impulsionando nosso comportamento seremos capazes de modificar nossa atitude. Quem deveria motivar nossa atitude é o Espírito Santo, resultando em fruto alinhado com Sua bendita pessoa, assim se somos provocados, permanecemos mansos; se alguém nos ofende, perdoamos; se alguém deseja possuir o que temos por inveja, respondemos com generosidade e, manifestando este fruto, damos testemunho de estarmos cheios do Espírito Santo. De modo geral, quando Deus está no controle de nosso coração, nós confiamos em Sua provisão porque nosso coração está pacificado.

O certo é que uma vida espiritual autêntica não se evidencia da noite para o dia, antes é resultante do processo de santificação promovido pelo Espírito Santo quando nós nos deixamos tratar por Deus. Por esta razão, mesmo tendo andado três anos com seus discípulos, o Senhor teve de orientá-los acerca das condições do coração deles:

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (Jo 14:1)

O coração fica turbado quando está agitado, inquieto ou desassossegado, neste caso está, na verdade, dominado pelo deus funcional da ansiedade, deixou efetivamente de crer em Deus. A ansiedade pode ser tanto uma sensação de receio e de apreensão sem causa evidente como também resultante da presunção de situação de perigo. Uma vez instalada a ansiedade, o sistema nervoso central é excessivamente excitado agregando fenômenos somáticos como taquicardia, cefaléia, tensão muscular, etc.

Certa medida de ansiedade não é um mal em si mesmo, assim como acontece com o veneno de cobra, apta a criar o próprio antídoto contra as cobras. Neste caso, quando o sintoma da ansiedade surge é porque chegou o momento de nos aplicarmos a oração:

“Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” (Fl 4:6,7)

Todavia, quando a ansiedade é persistente, então nós temos um deus funcional comandando nosso coração. Nós podemos identificá-lo por conta dos pensamentos recorrentes, aqueles que nos incomodam dia e noite, sempre exigindo por uma resposta. Geralmente estes pensamentos tiveram origem nos sucessivos golpes existenciais de que fomos vítimas. Estes golpes existenciais não têm hora para acontecer, não somente isso, como também eles fazem parte do tratamento que Deus nos concede. Paulo declarou que nós podemos ser golpeados a qualquer instante do dia, quando escreveu:

“pois nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus …” (II Co 4:11a)

Há uma música no cantor cristão com a seguinte estrofe, expressando esta verdade: “Bem de manhã, embora o céu sereno, pareça um dia calmo anunciar, vigia e ora oh coração pequeno, um temporal pode abrigar” (CC 162). Foi o que aconteceu com Jó. Ele acordou esperando um dia calmo, uma tromba d`água caiu sobre ele. Num mesmo dia camelos, bois e jumentas foram roubados e os empregados mortos; raios mataram tanto as ovelhas quanto os pastores que as apascentavam; por fim seus filhos morreram, todos naquele mesmo dia.

Todos estes acontecimentos poderiam ter sido um golpe mortal sobre o estado de ânimo de Jó e desencadear todo o processo da ansiosidade. Um turbilhão de pensamentos poderia ter sido acionado naquele instante, isto porque a principal característica do estado ansioso é uma aceleração do pensamento, um movimento impulsivo buscando imediato controle mental da situação, visando produzir uma sensação de repouso e conforto (2). A mente se excita como se estivesse elaborando um plano de escape, uma maneira de se livrar do perigo do modo mais rápido possível. A conseqüência desta disposição mental é trazer ainda mais confusão para a mente, aumentando a sensação de perigo e ressaltando nossa incapacidade de encontrar um escape, num circulo vicioso crescente, aumentando ainda mais o estado de ansiedade (2).

Jó não deixou estes pensamentos recorrentes tomarem conta de sua mente, não deixou que o deus funcional da ansiedade assumisse o controle, antes Jó imediatamente adorou a Deus. Disse Jó:

“Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21)

Naquele instante ele não procurou desculpas nem racionalizações para o que estava acontecendo, antes assumiu como um fato irremediável, aceitou a plenitude da perda e adorou a Deus. Jó entendeu que o mesmo Deus que deu todo o bem que usufruíra até aquele dia, podia ter-lhe tirado, portanto confiou em Deus.

Não é assim que agimos, antes toda e qualquer contrariedade que nos abate cria uma sucessão de pensamentos que trabalham incessantemente buscando uma explicação, um escape, uma saída. Nós adotamos esta atitude porque elevamos ao mais alto grau às conseqüências nefastas dos golpes que recebemos: se erramos no trabalho, presumimos que podemos vir a ser despedidos; se ficamos enfermos, nos vemos internados em algum hospital; se não atendemos bem nosso hóspede tememos perder o privilégio de sua companhia, portanto todo e qualquer prejuízo sempre traz uma sentença de morte em nossa mente.

Nossa dificuldade reside na concepção que temos de Deus. Nós nos habituamos a crer que todo bem vem do Senhor. Inclusive Tiago ensina esta verdade de modo bem incisivo:

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” (Tg 1:17)

Se todo bem vem de Deus, por conseguinte nossa mente logo conclui que o mal não procede do Senhor. Todavia Deus nos revela que também o mal vem da parte de Deus, conforme revelou o Senhor pela boca do profeta Isaias:

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas.” (Is 45:7)

Assim como o bem, o mal também foi criado por Deus, portanto está sob a soberania divina. Se assim não fosse, Deus não teria como impedir o mal ou cercear o alcance de seu poder. No entanto Deus traz sobre o indivíduo tanto o mal quanto o bem. Podemos verificar esta verdade no que Deus disse ao profeta Jeremias:

“Pois assim diz o Senhor:

Como eu trouxe sobre este povo todo este grande mal, assim eu trarei sobre eles todo o bem que lhes tenho prometido.” (Jr 32:42)

Daniel reconheceu o mal como algo vindo de Deus em sua oração intercessória por Israel, ao clamar a Deus que levasse o povo de volta a terra prometida, após o cativeiro da Babilônia:

“Como está escrito na lei de Moisés, todo este mal nos sobreveio; apesar disso, não temos implorado o favor do Senhor nosso Deus, para nos convertermos das nossas iniqüidades, e para alcançarmos discernimento na tua verdade. Por isso, o Senhor vigiou sobre o mal, e o trouxe sobre nós; pois justo é o Senhor, nosso Deus, em todas as obras que faz; e nós não temos obedecido à sua voz.” (Dn 9:13,14)

Na história de Jó vemos Deus autorizando Satanás para tirar tudo quando Jó tinha, limitando num primeiro momento a todas as coisas que ele possuía (Jó 1:12) e, num segundo momento, permitindo-lhe tocar em sua saúde, contudo preservando sua vida (Jó 2:6). Alias, os anjos cuja compulsão é destruir, Deus os prendeu em prisões eternas porque é soberano (Jd 6), soltando destes apenas quatro anjos que foram preparados para aquela hora e dia e mês e ano, a fim de matarem a terça parte dos homens (Ap 9:15). Todos estes eventos demonstram Deus no mais absoluto controle do mal.

Nossa mentalidade não aceita o mal porque ele não condiz, de modo algum, com o caráter de Deus, mesmo porque o salmista afirmou que o “Senhor é bom; a sua benignidade dura para sempre, e a sua fidelidade de geração em geração” (Sl 100:5). Se Deus é bom, o mal é inaceitável, portanto não pode de modo algum vir de Deus. Foi exatamente esta sabedoria do mundo que Deus tornou em loucura (I Co 1:20), ou seja, Deus optou por não negar o mal, antes decidiu por ingerir todo o malefício que o mal poderia Lhe causar. Deus fez isso entregando Seu próprio Filho para ser morto por crucificação por mão dos ímpios (At 2:23).

Deus permitiu que os homens matassem o Autor da vida (At 3:15), permitiu que contra o Senhor Jesus se levantasse todo o povo de Israel, juntamente com Herodes e Pôncio Pilatos para fazer tudo quanto antes já fora predeterminado (At 4:27,28). Assim Isaías descreveu este momento:

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a boca; como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha que é muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a boca.

Pela opressão e pelo juízo foi arrebatado; e quem dentre os da sua geração considerou que ele fora cortado da terra dos viventes, ferido por causa da transgressão do meu povo?

E deram-lhe a sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte, embora nunca tivesse cometido injustiça, nem houvesse engano na sua boca.” (Is 53:4-9)

Note que do Senhor Jesus é dito que ele foi ferido de Deus, que nele Deus fez cair todas as nossas iniqüidades, concluindo o profeta com as seguintes palavras: “Todavia, foi da vontade do Senhor esmagá-lo, fazendo-o enfermar” (Is 53:10). Só que a ação de Deus não findou na morte, antes ao terceiro dia ressuscitou Seu Filho (At 10:40). Desde então a morte se tornou um adversário vencido (I Co 15:55). Se o diabo pode ir até a morte, o Senhor cruza pela morte, portanto pelo mal e vai um passo adiante, pelo poder do Espírito Santo, trazendo a ressurreição.

Nós somos chamados a conhecer o poder de Sua ressurreição, caminho este que passa inevitavelmente pelo sofrimento, conformando-nos com a morte de Cristo (Fl3:10). É por esta razão que podemos receber tanto o mal quanto a morte como vindo da parte de Deus, pois temos a confiança no Senhor acerca de tudo quanto Ele tem para nós, isto porque “se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8:17), portanto “as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm 8:18).

Nós podemos adorar a Deus, não importa a perda que sofremos, os golpes que abatem sobre nós. Nós podemos confiar absolutamente em Deus, porque nós “sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

(1) Powlison, David A. Conceitos Bíblicos Básicos Sobre a Motivação Humana in Aconselhamento Bíblico, Coletânea. Atibaia. Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999.
(2) http://www.ansiedade.com.br/ansiedade/

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