A chave do coração

05 – Compreendendo como se posicionar diante da tribulação

“Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio na Ásia, pois que fomos sobremaneira oprimidos acima das nossas forças, de modo tal que até da vida desesperamos; portanto já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos; o qual nos livrou de tão horrível morte, e livrará; em quem esperamos que também ainda nos livrará …” (II Co 1:8-10a)

Nós todos temos o profundo desejo de controlar tudo que nos diz respeito. Este desejo não é novo, antes é a essência da proposta da serpente, ela disse com todas as letras: “e sereis como Deus” (Gn 3:5b). Apesar de insistentemente declararmos que confiamos em Deus, todavia teimamos em exercer controle sobre todas as variáveis que afetam nossa existência. Se estivermos fazendo alguma coisa e somos interrompidos, consideramos este estorvo como uma importunação, algo que não devia acontecer, portanto que deve ser rejeitado. Geralmente manifestamos nosso desagravo com um olhar enraivecido visando afastar a causa de nosso incomodo. Num gesto tão simples como este nós demonstramos o desejo que temos de ser Deus sobre as variáveis que afetam nossa vida.

O Senhor Jesus passou por uma situação similar, agindo diametralmente oposto a esta atitude. Jairo praticamente implorou para que o Senhor fosse até sua casa, pois sua filinha estava nas últimas. No meio do caminho Jesus foi interrompido por uma mulher enferma. Ele parou, atendeu esta mulher e, quando continuou sua caminhada, veio a notícia que a filha de Jairo havia morrido. O Senhor poderia ter sentido culpado por ter se deixado interromper, contudo Ele consolou Jairo, dando-lhe esperança que nada de mal havia ocorrido, foi até a casa de Jairo e ressuscitou a menina (Mc 5:22-43). A interrupção para o Senhor era parte dos desígnios divinos para com sua existência.

A tribulação é uma forma de interrupção por ser uma contrariedade a impedir o curso normal de nossa existência. Nossa primeira tendência em relação a ela é buscar sua suspensão, sendo este o desejo que caracteriza nosso profundo anseio de estar no controle de todas as variáveis que são afetos à nossa vida. Paulo, contudo, ensinou com base em sua própria experiência com Deus que o objetivo último da tribulação é mover o centro de nossa confiança de nós mesmo para Deus, fazendo a ressalva que é o Deus que ressuscita os mortos, ou seja, Aquele cujo poder é capaz de converter a situação aflitiva que nos encontramos em algo que promova a Sua glória. Paulo, falando dos momentos difíceis pelos quais passou, os descreveu:

“são ministros de Cristo? falo como fora de mim, eu ainda mais; em trabalhos muito mais; em prisões muito mais; em açoites sem medida; em perigo de morte muitas vezes; dos judeus cinco vezes recebi quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez.” (II Co 11:23-27)

Qualquer um destes momentos já seria suficiente para nos desesperarmos, pois todos eles indicam variáveis fora do controle. Paulo, contudo, via em cada uma destas oportunidades, momentos preciosos para conhecer a Deus e a força do Seu poder. Todas estas situações caracterizam momentos nos quais uma sentença de morte estava sobre ele, contudo Paulo sabia que esta era a exata oportunidade para manifestar o poder da ressurreição, evento necessariamente subseqüente à. Em outras palavras, quando o homem entra dentro do campo da impossibilidade, Deus começa a agir para a glória do nome Dele.

Um outro aspecto relevante de cada uma das tribulações pelas quais Paulo passou está na insistência dos termos que ele repetiu. Ele realça estes aspectos com as palavras “muito mais”, “muito mais”, “sem medida”, “muitas vezes”, “cinco vezes”, “três vezes”, “uma vez”, “três vezes”, “uma noite e um dia”, “muitas vezes, “muitas vezes”, “muitas vezes”. As expressões foram todas repetidas para mostrar sua recorrência, pois os pregadores da moderna mentalidade cristã têm procurado evidenciar que tribulação só se passa uma vez e fica o suficiente para pedir a intervenção divina, depois é só correr para o abraço, só dar testemunho de vitória. Paulo podia repetir o termo “muitas vezes” uma infinidade de vezes, mesmo porque são assim as coisas neste mundo, tudo passageiro, fluído, cíclico, porque no mundo tudo passa (I Jo 2:17a), tudo é efêmero, passageiro, transitório, de curta duração. A riqueza dura pouco, também a pobreza; a saúde dura pouco, também a enfermidade, todavia seja a riqueza ou a saúde, tudo se consuma na morte, visto que saindo deste mundo nada levamos consigo, nem a riqueza, nem a saúde, tudo se perde nesta vida.

A ênfase do Novo Testamento é no sentido de trabalharmos pelo que permanece para a vida eterna (Jo 6:26), razão porque não devemos atentar para as coisas que se vêem, mas sim para as que não se vêem; “porque as que se vêem são temporais, enquanto as que se não vêem são eternas” (II Co 4:18b). Nós devemos pensar e buscar as coisas que são de cima, que procedem do céu (Cl 3:1), mesmo porque nós aguardamos um novo céu e uma nova terra, onde o mar não mais existirá e onde haverá uma cidade descida do céu, tendo Deus habitando no centro dela, juntamente conosco (Ap 21:1,2).

O que está sempre diante de nossos olhos são as tribulações pelas quais passamos. Elas se evidenciam por cada uma de suas condicionantes, sentimos o seu peso pelas palavras que nos foram proferidas, pelas perdas que sofremos, pelos dissabores que passamos, pelas encruzilhadas que nos encontramos, pelos desastres que somos vítimas; pelos erros que cometemos, pelos mal que causamos, pelas ofensas que praticamos, pelas dores que sentimos, pelas mágoas que carregamos. Tudo isso é muito palpável, perceptível, visível; até marcas podemos visualizar, sejam elas fora de nós ou em nosso próprio corpo, contudo marcas do coração são tão fortes quanto os sinais patentes em nosso corpo. É por estarmos tão envolvidos com este mundo visível que estamos cegos para as realidades invisíveis, posto que as variáveis perceptíveis são aquelas que pensamos poder controlar, enquanto a crença no invisível exige o exercício da fé e confiança irrestrita em Deus.

Podemos representar o modo como o mundo visível nos afeta da seguinte forma: quando vamos a um restaurante no horário de almoço, temos a plena convicção que seremos servidos da refeição que escolhemos, mesmo porque se espera que neste restaurante tenha um contingente de serviçais preparando o alimento. Se a refeição não for servida do nosso gosto, reclamamos, muitas vezes com grande fúria. Agora, se Deus nos enviar a casa de uma viúva porque dela depende nosso alimento e, lá chegando, viermos saber que ela só tem um punhado de farinha o suficiente para uma pobre refeição e dissermos a ela que pode nos servir porque nunca faltará farinha em sua vasilha exige fé, exige crer numa provisão que está além de nossos olhos, longe do nosso campo visual, fora de nossa capacidade em suprir esta necessidade. Elias, que não se fiava no visível agiu em fé e disse a viúva:

“… Não temas; vai, faze como disseste; porém, faze disso primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois o farás para ti e para teu filho. Pois assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da vasilha não se acabará, e o azeite da botija não faltará, até o dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra” (I Rs 17:13b,14)

Alguém afirmou que não podemos fazer o impossível sem crermos no invisível. Nós somos chamados em cada experiência diária a confiar em Deus. Muitas vezes a pressão da tribulação irá crescer até além do limite de nossas forças apenas para nos proporcionar a oportunidade de experimentarmos o poder de Deus. Nós precisamos desenvolver uma nova mentalidade, totalmente baseada na palavra de Deus para fazermos frente às tribulações pelas quais passamos. Que o Senhor nos dê a fé para o exercício desta verdade.

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