A chave do coração

06 – Compreendendo como nosso caráter é moldado

“Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações.” (Jr 17:10)

O Dr. David salienta que as Escrituras não distingue motivação do comportamento, considerando ambos uma só expressão de quem está no comando do coração (1). Segundo o Dr. David o primeiro e segundo grandes mandamentos ressaltados pelo Senhor se dirige a ambos os aspectos do coração. Quando o Senhor nos exorta a amar a Deus sobre todas as coisas, está a esquadrinhar nossa motivação e quando nos exorta a amar nosso próximo como a nós mesmo, sonda nosso comportamento (Mt 22:37-40). Isto porque a graça, continua o Dr. David, não somente transforma nosso coração, como também doma nossa língua e disciplina nossas mãos.

A tribulação é um dos principais instrumentos de Deus para provar nosso coração. Podemos entender este processo por meio da experiência vivida por Davi. Um dia seu pai o enviou para ter notícias de seus irmãos. Naquele dia Israel estava sendo desafiado pelo gigante Golias. Davi se apresentou para o enfrentar, matou-o e, desde então teve um lugar de destaque no reinado de Saul. Vindo a ser seu general, tudo lhe ia bem até suas vitórias ofuscar ao rei Saul, desde então Saul o perseguiu para matá-lo duramente. Depois de incontáveis fugas, um dia Davi resolveu tomar satisfação do Rei. Ele gritou a Saul e lhe questionou porque se deixava influenciar por seus homens para lhe fazer mal. Ademais, naquele dia Davi evidenciou a Saul que não lhe queria fazer mal, posto ter tido a oportunidade de matá-lo e não o fez. Então Davi colocou Deus como árbitro entre ele e o Rei Saul, clamando pela justiça divina, enfatizando que ele próprio, de sua parte, jamais levantaria sua mão contra o ungido de Deus (I Sm 24:8-15).

Numa outra oportunidade Davi teve o rei Saul novamente em suas mãos. Abisai, inclusive, pediu para dar cabo na vida do rei, tal a facilidade que a oportunidade lhe concedia (I Sm 26:8,9); seria o fim de toda sua tribulação. Davi permaneceu firme no seu propósito de não dar cabo àquela perseguição. Estando num local distante, devidamente protegido, Davi gritou novamente a Saul, questionando a razão de toda aquela perseguição. Então Davi disse algo memorável, que demonstra o quanto devemos aprender a confiar em Deus em todas as circunstâncias:

“Ouve pois agora, ó rei, meu senhor, as palavras de teu servo:

Se é o Senhor quem te incita contra mim, receba ele uma oferta; se, porém, são os filhos dos homens, malditos sejam perante o Senhor, pois eles me expulsaram hoje para que eu não tenha parte na herança do Senhor, dizendo:

Vai, serve a outros deuses.

Agora, pois, não caia o meu sangue em terra fora da presença do Senhor; pois saiu o rei de Israel em busca duma pulga, como quem persegue uma perdiz nos montes.” (I Sm 26:19,20)

Davi reconheceu que a perseguição movida pelo rei Saul poderia ser por incitação de seus inimigos ou por ordem divina. Se fosse da parte de Deus, então Davi estava disposto aceitar como uma oferta de sacrifício, se fosse por causa de seus inimigos, então que o Senhor Deus tratasse com eles, isto porque a vingança pertence a Deus (Rm 12:19). Davi, sabiamente, não acusou o rei, agindo assim criava a condição do rei voltar atrás em sua própria ordem, estratégia esta que criava uma saída honrosa para o rei. Neste caso Davi tinha absoluta convicção que nada fizera para provocar aquela perseguição.

Na verdade, diante de uma tribulação temos três alternativas: ou o Senhor está provando a nossa fé, portanto devemos permanecer firmes; ou nossos inimigos se levantaram contra nós, devemos confiar em Deus; ou nós cometemos algum erro ou pecado, então devemos nos corrigir ou nos converter. Em todas as alternativas devemos ter em mente que, diante de uma tribulação, nós de fato estamos nas mãos do Senhor, o tempo é todo Dele.

Se Davi tivesse se levantado em sua defesa, estaria procurando salvar sua vida, neste caso sua opção seria escapar à perseguição por seus próprios estratagemas. Este é um princípio que nunca devemos usar porque o Senhor Jesus nos ensinou o seguinte princípio:

“E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á.” (Mt 10:38,39)

Este princípio é apresentado de um outro modo no pelo Senhor:

“Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado.” (Mt 23:12)

A escolha de Davi de não se exaltar, de não defender seus próprios interesses, de não dar um basta àquela perseguição de modo algum encurtou sua jornada. Saul tinha consciência que Davi o substituiria como rei de Israel (I Sm 24:20), contudo continuou com a perseguição até vir a morrer tragicamente. Depois da morte de Saul, ainda assim Davi não ousou ser rei sobre Israel, vindo a ser entronizado como rei da tribo de Judá, permanecendo nesta condição por sete anos (I Sm 2:4). Só quando todo o povo de Israel o conclamou a ser rei de toda a nação que Davi ocupou esta posição (II Sm 5:3).

Davi tinha consciência que o tempo da prova pertencia ao Senhor, não lhe cabendo abreviar ou prolongar. O certo é que a perseguição contribuiu para forjar o caráter do rei Davi. Houve um tempo que ele teve de se esconder na caverna de Adulão. Naquele lugar se “ajuntaram-se a ele todos os que se achavam em aperto, todos os endividados, e todos os amargurados de espírito; e ele se fez chefe deles; havia com ele cerca de quatrocentos homens” (I Sm 22:2). Algum tempo depois, ainda quando perseguido, após uma duríssima batalha, chegara o momento de repartir os despojos. Havia entre seus homens pessoas malvadas e perversas, com a intenção de não repartir os despojos senão entre os soldados. Davi interviu com a seguinte declaração:

“Não fareis assim, irmãos meus, com o que nos deu o Senhor, que nos guardou e entregou nas nossas mãos a tropa que vinha contra nós. E quem vos daria ouvidos nisso? pois qual é a parte dos que desceram à batalha, tal será também a parte dos que ficaram com a bagagem; receberão partes.” (I Sm 30:23,24)

E esta se tornou a lei dos despojos em Israel. Este princípio aprendido por Davi foi depois ensinado pelo apostolo Paulo com o seguinte teor:

“pois nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. De modo que em nós opera a morte, mas em vós a vida.” (II Co 4:11,12)

Esta é a prova do caráter do homem de Deus submetido a qualquer perseguição que seja, converter os sofrimentos que passou em benção para a vida daquele que está do seu lado. Assim como Davi, o apóstolo Paulo tinha a plena convicção que as tribulações pelas quais ele passava, uma vez aprendido a lição que ela tinha a lhe dar, servia para a edificação dos irmãos que se achegavam a ele, nos termos de Paulo, a morte se processava nele, para seu irmão receber palavras de vida. Escreveu Paulo:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.

Porque, como as aflições de Cristo transbordam para conosco, assim também por meio de Cristo transborda a nossa consolação. Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação é a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; e a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação.” (II Co 1:3-7)

A tribulação nos ajuda a termos o coração quebrantado, nos permite experimentar as consolações do Senhor, nos dá oportunidade de ajudar os nossos irmãos que passam pelas mesmas tribulações. Nós não somos chamados para mudar a realidade, mas para sermos moldado em meio as experiências de vida que temos. Aprendemos sempre quando deixamos Deus extrair de nosso coração a mansidão e a bondade, não a murmuração e a irritação. Que o Senhor nos permita crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

(1) Powlison, David A. Conceitos Bíblicos Básicos Sobre a Motivação Humana in Aconselhamento Bíblico, Coletânea. Atibaia. Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999.

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