A chave do coração

07 – Compreendendo a reversão fruto-semente

“Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações.” (Jr 17:10)

“E tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai, e serve-o com coração perfeito e espírito voluntário; porque o Senhor esquadrinha todos os corações, e penetra todos os desígnios e pensamentos. Se o buscares, será achado de ti; porém, se o deixares, rejeitar-te-á para sempre.” (I Cr 28:9)

Sabendo que a tribulação é o meio pelo qual o Senhor se utiliza para provar nossos corações, ela, por si mesmo, não nos induz a modificar nosso comportamento, nem rever nossas motivações. É preciso que nos apliquemos voluntariamente no aproveitamento destes momentos para que o Senhor aja em nossos corações. O Senhor demonstra esta verdade ao inquirir:

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.” (Ap 3:20)

É da natureza divina agir em resposta ao nosso desejo, expresso pelo salmista nos seguintes termos: “Como o cervo anseia pelas correntes das águas, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus!” (Sl 42:1). Mesmo porque chegará o dia em que diante do nome de Jesus se dobrará todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra e, neste dia, toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fl 2:10,11). Até este dia o Senhor busca os que voluntariamente se colocam diante Dele para ser transformado como pela imagem do Espírito do Senhor (II Co 3:18). O chamamento de João, o Batista, inclusive, era no sentido de preparar para o Senhor um povo apercebido e prudente (Lc 1:17).

Um dos critérios para considerar como respondemos prontamente ao esquadrinhamento do Senhor diz respeito ao modo como nos portamos diante da palavra de Deus. Certa feita o Senhor Jesus estava com seus discípulos quando lhes ensinou acerca do uso das riquezas injustas. Ouviam-no, ao mesmo tempo, os fariseus. Num dado momento o Senhor concluiu a aplicação de Sua parábola, quando os fariseus tiveram uma reação surpreendente, alinhada com a condição dos corações deles:

“Nenhum servo pode servir dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar ao outro, o há de odiar a um e amar ao outro, o há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Os fariseus, que eram gananciosos, ouviam todas essas coisas e zombavam dele.” (Lc 16:13,14)

Numa outra vez o Senhor falava com os judeus e seus discípulos ouviam-no juntamente. Ele dizia acerca do pão que desceu do céu, referenciando-o como sendo este pão. Falava da importância de seus discípulos se alimentarem dele, comendo de sua carne e bebendo de seu sangue. Os que ouviram consideraram o discurso duríssimo, se escandalizando Dele. “Por causa disso muitos dos seus discípulos voltaram para trás e não andaram mais com ele” (Jo 6:66). Então o Senhor voltou-se para os Seus discípulos tendo o seguinte diálogo:

“Perguntou então Jesus aos doze:

Quereis vós também retirar-vos?

Respondeu-lhe Simão Pedro:

Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós já temos crido e bem sabemos que tu és o Santo de Deus.” (Jo 6:67-69)

Os que voluntariamente se apresentam diante do Senhor, permanecem com Ele, mesmo que sejam firmemente disciplinados, já os que não valorizam o que Deus tem a fazer por eles, ou zombam das coisas de Deus ou simplesmente se retiram, considerando muito duro o discurso. Nós precisamos ter determinação para sermos moldados pelo Senhor, isto porque as tribulações, que são a forma de Deus, são golpes duríssimos sobre nossa vontade, nos fazendo retroceder ao tratamento divino, perdendo a oportunidade de forjar nosso caráter.

Pedro aprendeu este princípio quando, após uma pesca frustrada ouviu o Senhor lhe dizer: “Faze-te ao largo e lançai as vossas redes para a pesca” (Lc 5:4b). Com base no que ouviu do Senhor ele disse: “Mestre, trabalhamos a noite toda, e nada apanhamos; mas, sobre tua palavra, lançarei as redes” (Lc 5:5b). Esta palavra dada pelo Senhor precisa ser escondida em nosso coração para não pecarmos contra o Deus (Sl 119:11), para não nos desviarmos de Seus mandamentos (Sl 119:10), usando o Senhor a aflição como oportunidade para que coloquemos em prática esta mesma palavra (Sl 119:71). Antes disso nós andávamos errados (Sl 119:67), mas depois que fomos vivificados nesta bendita palavra (Sl 119:149), fomos santificados por ela (Jo 17:17). Assim, é na palavra de Deus que devemos firmar nossa vontade, guiar nossa conduta e forjar nossa motivação.

A grande questão que se nos apresenta é como nos apropriar da palavra de Deus e como nos deixar moldar por ela. Nós precisamos compreender que o fruto que produzimos não pode estar dissociado com a fé que professamos; de um modo ou de outro o que está no coração será expresso na recorrência de nosso comportamento, isto porque “do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34). Não podemos nos enganar a respeito deste assunto de vital importância, pois está escrito:

“Não vos enganeis; Deus não se deixa escarnecer; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque quem semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna.” (Gl 6:7,8)

Há um princípio muito importante no que diz respeito a semeadura e a ceifa. Quando lançamos a semente podemos ter pouca consciência acerca do fruto inerente a ela; obviamente se plantarmos semente de caju vamos colher fruto de caju, agora se lançarmos uma grande variedade de semente, sem considerar o que cada uma delas representa, só saberemos a natureza da semente que lançamos depois do fruto colhido. Foi por este princípio que Paulo discerniu a natureza do comportamento da igreja de Coríntios. Disse Paulo: “E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo” (I Co 3:1). Esta conclusão foi em razão da evidência da natureza do fruto que esta igreja estava a produzir:

“porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não sois porventura carnais, e não estais andando segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; não sois apenas homens?” (I Co 3:3,4)

Paulo deduziu que o deus funcional da igreja de Corinto era a obra da carne, tendo como agentes operacionais a inveja e as contendas. Neste caso a inveja e as contendas podem ser identificadas como sementeiras lançadas no seio da comunidade, cujo fruto evidenciado está no partidarismo identificado pelos que ressaltavam a profundidade do ensino de Paulo ou dos que admiravam a eloqüência de Apolo, um grupo se antagonizando e se indispondo com o outro. O que precisamos entender é que nem sempre é possível identificar a obra da carne por meio da sementeira lançada, mas pode ser discernida pelo fruto apresentado, deduzindo a obra da carne pela reversão do processo.

O sábio rei Salomão usou do mesmo princípio da reversão do processo fruto-semente para discernir a situação do povo diante de Deus. Observe a seguinte oração feita ao Senhor:

“Se eu cerrar o céu de modo que não haja chuva, ou se ordenar aos gafanhotos que consumam a terra, ou se enviar a peste entre o meu povo; e se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se desviar dos seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra.” (II Cr 7:13,14)

Neste caso a falta de chuva em Israel era evidência que o povo de Deus havia se desviado por maus caminhos. Neste caso o deus funcional era o pecado, os agentes operacionais os gafanhotos e as pestes e o fruto a escassez de alimento. Uma ressalva precisa ser feito. O compromisso de Deus com Israel era para com sua terra, assim, enquanto Israel estivesse alinhado com Deus haveria paz nos seus termos, em tendo Israel se rebelado contra o Senhor, a terra sofria as conseqüências, como foi o caso dos três anos sem chuva por conta da oração de Elias. Agora o compromisso de Deus com a igreja é para com as realidades celestes, razão porque a seca em uma dada região do planeta não diz respeito a condição da igreja diante do Senhor, mas ao fato da terra ter sido entregue à maldição por conta da queda do homem.

Este mesmo princípio da reversão do processo fruto-semente fora usado em outra oração do rei Salomão:

  • deus funcional: pecado; agente operacional: mentira; fruto: injustiça

“Se alguém pecar contra o seu próximo, e lhe for exigido que jure, e ele vier jurar perante o teu altar, nesta casa, ouve então do céu, age, e julga os teus servos: paga ao culpado, fazendo recair sobre a sua cabeça o seu proceder, e justifica ao reto, retribuindo-lhe segundo a sua retidão.” (II Cr 6:22,23)

  • deus funcional: pecado; agente operacional: derrota; fruto: cativeiro

“Se o teu povo Israel for derrotado diante do inimigo, por ter pecado contra ti; e eles se converterem, e confessarem o teu nome, e orarem e fizerem súplicas diante de ti nesta casa, ouve então do céu, e perdoa os pecados do teu povo Israel, e torna a levá-los para a terra que lhes deste a eles e a seus pais.” (II Cr 6:24,25)

  • deus funcional: pecado; agente operacional: mau caminho; fruto; seca

“Se o céu se fechar e não houver chuva, por terem pecado contra ti; se orarem, voltados para este lugar, e confessarem o teu nome, e se converterem dos seus pecados, quando tu os afligires, ouve então do céu, e perdoa o pecado dos teus servos, e do teu povo Israel, ensinando-lhes o bom caminho em que devem andar; envia chuva sobre a tua terra, que deste ao teu povo em herança.” (II Cr 6:26,27)

  • deus funcional: pecado: agentes operacionais: mau caminho; fruto: fome ou peste; guerra; praga ou doença

“Se houver na terra fome ou peste, se houver crestamento ou ferrugem, gafanhotos ou lagarta; se os seus inimigos os cercarem nas suas cidades; seja qual for a praga ou doença que houver; toda oração e toda súplica que qualquer homem ou todo o teu povo Israel fizer, conhecendo cada um a sua praga e a sua dor, e estendendo as suas mãos para esta casa, ouve então do céu, lugar da tua habitação, e perdoa, e dá a cada um conforme todos os seus caminhos, segundo vires o seu coração (pois tu, só tu conheces o coração dos filhos dos homens)” (II Cr 6:28-30)

O princípio da reversão fruto-semente em Israel tinha uma relação direta com o relacionamento do povo com a terra, agora para aplicar o mesmo princípio com a igreja, precisamos partir da obra da carne para o fruto da semeadura que cada uma dela proporciona.

Quando o Senhor ensinava seus discípulos acerca das riquezas injustas, os fariseus rejeitavam o Senhor, zombando de Sua palavra. Isto porque no coração deles estava entronizado o deus funcional da ganância, uma ambição desmedida para adquirir riquezas (Lc 16:14). Assim como os servos do Senhor louvam a Deus, quem serve a um deus funcional lhe presta o deboche pertinente ao seu deus, neste caso, desdenhavam a palavra do Senhor. Por conseguinte, quem se deixa prostituir tende a viver desregradamente; quem idolatra se entrega a paixões cegas ou ao fanatismo; quem cultiva inimizades sente repulsa ou antipatias por pessoas que não comungam com seus idéias; quem é iracudo tende a vingar-se de toda e qualquer afronta; quem é invejoso se desgosta facilmente com as coisas; quem se embriaga se deixa perturbar por qualquer contrariedade. São estas dissimulações que o deus funcional cobra por todo aquele que lhe presta culto, são comportamentos semelhantes a este que se permite conhecer a qualidade do fruto que realmente estamos produzindo (Mt 7:16).

Leave a Comment