A chave do coração

09 – Compreendendo como nos deixar ser ajudado

“Eu, o Senhor, esquadrinho a mente, eu provo o coração; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações.” (Jr 17:10)

“O que percebendo Jesus, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente.” (Mc 5:36)

Quando estamos diante do Senhor, Seus olhos estão sempre a perscrutar nosso coração, contudo jamais para nos condenar, antes visando afastar nossos temores, ansiosidade e incredulidade, nos ensinado a confiar em Deus. Jairo, o chefe da sinagoga estava com sua filha terrivelmente enferma, preste a morrer. Ele veio a Jesus, rogando com insistência para que fosse à sua casa com o propósito de curar sua filha. Jesus se pos a seguir com Jairo. No meio do caminho teve de atender uma mulher que sofria de hemorragia. Por conta deste atendimento o Senhor se demorou e veio a notícia a Jairo que a sua filha já falecera, nada mais restando a fazer.

Jesus podia ter feito, naquele instante, um raio-x do coração de Jairo, mas não foi deste recurso que se utilizou. Olhando atentamente as feições de Jairo, vendo o quanto ele se transtornara com a notícia, o Senhor percebeu que houvera uma mudança no coração daquele homem. Nós não podemos ver o coração de quem quer que seja, mas podemos discernir certos comportamentos recorrentes, cuja característica pode ensejar certo tipo de motivação, um dado estado de espírito, uma evidência que algo está profundamente errado. Este tipo de percepção pode ser utilizado tanto quanto ao nosso próprio comportamento, quanto ao de outro. Se houver disposição em amor para tratarmos com nosso semelhante, bem como abertura de sua parte para nos ouvir, podemos confrontar seu comportamento com a palavra de Deus para demonstrar o tipo de motivação que está operando no seu coração. Falando da motivação, o Dr. David afirma:

“Se as mentes devem ser renovadas e os corações transformados progressivamente, se o conhecimento de Deus deve crescer, se a mente dividida deve ser conduzida a uma devoção íntegra a Cristo, então você precisa discernir, com precisão, as questões da motivação” (1 – p 4).

A percepção do Senhor foi perfeita, identificou o medo tomando de assalto aquele coração aflito por causa das condições de sua filha. Nós muitas vezes teremos de tatear, de fazer perguntas investigadoras, de inquirir o comportamento, de ouvir as histórias, de considerar as circunstâncias existenciais para formar o quadro, para entender o comportamento, para discernir as motivações. O que se percebe quando este processo é desencadeado, é que as pessoas estão tão machucadas por confiar em alguém e ser decepcionadas que já não se expõe mais, fechando-se no seu próprio mundo interior. Foi este o lamento do salmista:

“Até o meu próprio amigo íntimo em quem eu tanto confiava, e que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar” (Sl 41:9).

É preciso estabelecer uma relação de confiança para que possamos tratar com nosso semelhante. Nós temos de exercer compaixão ao ouvir a história, isto é, conhecer o que se passou não para acusar, mas para compreender o presente e abrir caminho da esperança para o futuro. Só seremos realmente capazes de exercer esta compaixão se olharmos para a pessoa como Deus a enxerga. Primeiro precisamos entender que fomos feito à imagem e semelhança de Deus, portanto nosso valor é incalculável aos olhos do Senhor; compreender que fomos resgatados de nossa vã maneira de viver para uma nova e viva esperança; ter convicção de fé que o Espírito Santo opera no coração, à luz da palavra de Deus, no sentido de forjar tanto em nível de motivação (o querer), quanto no do comportamento (o realizar) em conformidade com os propósitos divinos. Assim, nos colocamos como cooperadores desta grandiosa obra divina, servindo-nos como instrumento de benção para todo aquele que sangra em seu coração.

A condição fundamental para que possamos ser transformados, mudando nossa motivação quanto nosso comportamento está na exposição da palavra de Deus. Nós precisamos entender uma coisa: fomos resgatados por Deus das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus (At 26:18). No tempo em que estivemos nas trevas passamos pelas mais variadas experiências que nos ensejou aprendizado, vindo de fontes tão diversas, sendo simplesmente impossível catalogá-las todas. Pedro sintetizou esta questão do seguinte modo:

“sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais” (I Pd 1:18)

Esta vã maneira de viver estabeleceu em nosso coração um certo padrão de resposta as questões existências, como por exemplo, a tendência de não aceitar ser humilhado por quem quer que seja, de não se aquietar diante de uma ofensa, de não ser preconceituoso diante de uma causa qualquer. Estes padrões de respostas acabam por comprometer nosso testemunho cristão porque não estão alinhados com a palavra de Deus. Não só isso, como também muitas vezes nem temos compreensão que estes padrões não são a expressão da vontade do Senhor para nossa vida. Como resultado ficamos tão submersos dentro de nossa própria concepção de vida que nem sabemos que há um outro modo de responder às questões existenciais.

O Senhor tratou de situações como esta quando, no sermão do monte, disse que nós ouvíamos dos antigos acerca da lei: “não matarás”, o Senhor, diante da concepção que as pessoas estavam tendo da lei, fez uma releitura declarando que a verdade era muito mais profunda que aquela apresentada pelos antigos, pela tradição, pelo aprendizado corrente, feito de boca a boca, em situações das mais inusitadas. O Senhor disse que só o chamar alguém de louco já o coloca como réu diante de Deus, portanto a essência da lei diz respeito a comunhão entre os indivíduos, devendo-nos reconciliar sempre que algo vir a romper este relacionamento (Mt 5:21-26).

O que nós precisamos entender é que o mundo forjou em nós um padrão, um paradigma que só será quebrado se formos confrontados com um outro padrão, vindo do céu, da parte de Deus, conforme exposto na palavra de Deus. Somente quando nos submetemos a esta bendita palavra é que deixamo-nos de conformarmos-nos com este mundo, sendo renovado na mente de nosso entendimento até sermos transformados pelo Espírito do Senhor (Rm 12:1,2). O salmista declarou:

“A exposição das tuas palavras dá luz; dá entendimento aos simples.” (Sl 119:130)

(1) Powlison, David A. Conceitos Bíblicos Básicos Sobre a Motivação Humana in Aconselhamento Bíblico, Coletânea. Atibaia. Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999.

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