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A busca incessante do conhecimento

“Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento. E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.” (Ec 4:16-18)

A trajetória do homem na terra pode ser sintetizada na busca incessante do conhecimento que divide a humanidade em duas castas: entre os entendidos e os ignorantes. Uma descrição deste quadro se encontra na seguinte passagem acerca da estadia de Israel no Egito:

“Nesse tempo nasceu Moisés, e era mui formoso, e foi criado três meses em casa de seu pai. Sendo ele enjeitado, a filha de Faraó o recolheu e o criou como seu próprio filho. Assim Moisés foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios, e era poderoso em palavras e obras.” (At 7:20-22)

Na década de 70, quando as empresas implementaram a política de reengenharia com demissão em massa de seus funcionários, percebeu-se que com estes foi-se também o capital intelectual acumulado destas empresas. Desde então tem se dado ênfase a gestão do conhecimento como o grande capital que as corporações possuem, como exemplo a Microsoft cujo valor de mercado é sobejamente superior aos seus bens físicos.

Em razão do crescimento exponencial do conhecimento, cada indivíduo precisa se esmerar em capacitar-se, seja pelo ensino convencional, seja pela especialização, sejam por cursos nas mais diferentes áreas. O fato é que o conhecimento adquirido nunca é suficiente e todo aquele que para no tempo pode ficar de tal modo defasado que não mais encontra lugar no mercado de trabalho. No campo, por exemplo, os tratores e colheitadeiras vem com computador de bordo e equipamentos GPS, exigindo grande conhecimento técnico para operar tais máquinas.

Segundo Piaget, a construção do conhecimento é “resultado de uma interação, na qual o sujeito é sempre um elemento ativo, que procura ativamente compreender o mundo que o cerca, e que busca resolver as interrogações que esse mundo provoca.” (www.centrorefeducacional.com.br).

E é na compreensão de como se processa o conhecimento que se percebe a verdadeira problemática que ele pode criar. Conhecer é saber com certeza, de forma fundamentada, exigindo daquele que o busca reconstruir sua percepção da realidade, interagindo com ela. O que leva ao entendimento que tem existido, na verdade, pseudo-conhecimento, visto que na tentativa de absorver tudo o que está disponível, se aprende com superficialidade. Isto porque:

“um conhecimento que não se sustenta diante da investigação racional não é de fato um conhecimento. É apenas algo que se parece com o conhecimento sem de fato o ser. É um pseudo-conhecimento.” (Burdzinski, Júlio César, O valor da ignorância, http://geocities.yahoo.com.br/paulo_w_designer/filosofia.htm).

Um outros aspecto a considerar é o valor que o conhecimento cientifico passou a ter no mundo atual, como se lê:

“A sublimação da ciência, fato que marca o século XX, acarreta a consolidação de todo o discurso ideológico contido na expressão “sociedade científica”, resultando na elevação do conhecimento científico à categoria de força motriz da vida social na contemporaneidade. Esta elevação mostra-se, acima de tudo, através da restrição do significado do termo “conhecimento” ao de “conhecimento científico” (a “epistéme” dos gregos), anulando-se a noção de “conhecimento empírico” ou, fazendo-se uso da terminologia kantiana, “conhecimento a posteriori”. Desta forma, o termo “conhecimento” já concentra em si o cientificismo que, neste século, rege o funcionamento da sociedade.” (Gomes Junior, Saul Cabral. Filisteus do Conhecimento: uma classe em proliferação, www.nead.unama.br)

De modo que a busca incessante pelo conhecimento pode ocasionar o pseudo-conhecimento, bem como supervalorizar o conhecimento científico acima do conhecimento empírico, estético ou literário. Mais ainda, o conhecimento por si pode levar o indivíduo a sobrepor a si mesmo sobre os demais, quando passa a entender que conhecer é a forma mais elevada de vida. Neste caso a gnose ganha o status de religião, assim definida:

“A gnose é um conhecimento que brota do coração de forma misteriosa e intuitiva. É a busca do conhecimento, não o conhecimento intelectual, mas aquele conhecimento que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua Essência Eterna e maravilhosa.” (www.gnosisonline.org).

A gnose, neste caso, nada mais é que um retorno a árvore do conhecimento do bem e do mal, quando a serpente propôs ao primeiro casal saber tanto quanto Deus:

“Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” (Gn 3:4,5)

O que se observa é que há necessidade de discernir o conhecimento de toda carga de valores e ideologias que está nele contido. Pelo conhecimento é possível desde construir uma sociedade baseada unicamente no cientificismo como também entronizar o ego ao ponto de fazê-lo um com o divino, tendo nele a fonte da sabedoria. O que se faz ponderar sobre qual o modo seguro de buscar este conhecimento. Certa vez Jesus disse: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8:32). E, o verdadeiro conhecimento reside em conhecer a Deus, pois lê-se:

“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste.” (Jo 17:3)

Para conhecer Deus é fundamental manter-se humilde diante do saber, pois Sócrates já dizia: “sei que nada sei” como sendo a condição básica para adquirir o conhecimento. Na verdade, para conhecer Deus é preciso, antes de tudo, ter o temor a Deus, que é o princípio da sabedoria. E este conhecimento só é possível mediante revelação:

“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.” (Mt 11:27-30)

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