Comentários em aos Hebreus

A conexão do descanso de Deus com o coração em transformação

E novamente, no mesmo lugar: Não entrarão no meu descanso. Visto, portanto, que resta entrarem alguns nele e que, por causa da desobediência, não entraram aqueles aos quais anteriormente foram anunciadas as boas-novas, de novo, determina certo dia, Hoje, falando por Davi, muito tempo depois, segundo antes fora declarado: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração. (Hb 4.5-7)

Caro amigo! Dileta amiga! Temos por tema o ouvir a voz de Deus com o coração. E, para ressaltar a importância de estarmos pronto para ouvirmos, o autor aos Hebreus cita o Salmo 95.11, de onde se extrai o texto: “Não entrarão no meu descanso”. É neste Salmo que o evento dado em Massá e Meribá está intimamente conectado com o vagar de Israel por quarenta anos no deserto. Este foi o tempo que levou para os israelitas desobedientes terem seus corpos consumidos naquelas areias tórridas por não conhecerem o caminho do Senhor. Vamos primeiro entender o propósito do Salmo 95.

Este Salmo faz um convite ao louvor a Deus, por reconhecer a soberania divina sobre todo o universo. O adorador deve colocar-se ajoelhado diante do Senhor, prostrando-se diante do Senhor e Criador de todas as coisas. Ele deve se colocar como uma ovelha sob os cuidados divino, consciente que todas as circunstâncias de sua vida estão debaixo das mãos do Senhor. Uma das características marcante das ovelhas é sua capacidade de ouvir a voz do seu pastor e, nestas condições, o salmista exorta ao adorador a não endurecer o seu coração quando ouvir a voz de Deus, como ocorreu em Massá e Meribá (Sl 95.7,8, comparado com Ex 17). Contudo, para compreendermos esta exortação, precisamos recuar um pouco mais na história, mais precisamente no capítulo 15 de Êxodo.

Israel chegara em Mara e encontrara águas amargas. Reclamando, o Senhor ordenou lançar o madeiro sobre as águas, vindo a se tornar doce. Diante deste evento, que para Israel fora uma prova, o Senhor deu-lhes diversos estatutos e uma ordenança. São estas as ordenanças reconhecidas pelo autor aos Hebreus como sendo as boas novas anunciadas a Israel. Entenda a razão desta afirmação – Israel havia sido liberto do Egito, estando a caminho de Canaã, terra que manava leite e mel, tendo uma parada antes no monte Sinai para receber os dez mandamentos. Esta instrução dada em Mara fora uma oferta de graça, porquanto eles estavam no primeiro ano de viagem, não tendo recebido ainda a lei, isto é, os dez mandamentos. Vamos conhecer o teor desta ordenança:

e disse: Se ouvires atento a voz do SENHOR, teu Deus, e fizeres o que é reto diante dos seus olhos, e deres ouvido aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, nenhuma enfermidade virá sobre ti, das que enviei sobre os egípcios; pois eu sou o SENHOR, que te sara. (Ex 15.26)

Nesta ordenança encontramos a perspectiva da ovelha atenta à voz do seu pastor. O Senhor ordena Israel a ouvir atentamente a voz do Senhor Deus, obedecendo seus mandamentos e guardando seus estatutos. Como resultado desta atitude Israel não sofreria nenhuma das enfermidades existentes no Egito. A referência ao Egito demonstra que Deus estava instruindo Israel no mesmo plano de existência de antes, isto é, Israel saiu do Egito liberto, contudo permanecia no mesmo ambiente inóspito do qual faziam parte os egípcios. Jesus, ao fazer Sua oração sacerdotal reconhece esta mesma perspectiva existencial na seguinte petição: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). Antes o Senhor havia dito: “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo” (Jo 17.11), portanto, uma vez alcançada a salvação que há em Cristo Jesus, precisamos continuar lidando com o mundo que nos cerca e nos posicionando enquanto cristãos. João aprofunda esta perspectiva nos seguintes termos:

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente. (I Jo 2.15-17)

É muito importante compreendermos quem somos em relação ao mundo que nos cerca, porquanto a provisão de Deus para andarmos com Ele implica neste reconhecimento. Enquanto permanecemos nesta perspectiva temporal haverá uma profunda guerra entre as forças das trevas e nós, que estamos na luz. O objetivo destas forças malignas é nos fazer prisioneiro do sistema maligno em três esferas, que foram as mesmas que tentaram a mulher no jardim do Éden e que atuaram contra Jesus na tentação do monte.

A primeira esfera está relacionada à nossa carne. Creio que você há de lembrar-se que a primeira tentação de Jesus foi no sentido de transformar pedra em pão, isto para demonstrar que o apelo contra nossa carne diz respeito ao atendimento de todas nossas necessidades sensoriais sem estar subordinada à vontade de Deus. Temos de fazer a distinção que carne não é o mesmo que corpo, nosso corpo é santo, a carne não o é; nosso corpo é templo do Espírito Santo, a carne diz respeito a índole humana de agir por sua própria vontade, sem submeter-se à palavra de Deus. Jesus não podia comer do pão porque Deus ainda não sinalizara a Ele que Seu jejum havia se encerrado. Antecipar-se ao tempo de Deus era agir por Sua própria vontade. Este agir sem supervisão divina é chamada de concupiscência, isto é intensos desejos da carne.

A segunda esfera de atuação diz respeito àquilo que nossos olhos captam. Enquanto que os desejos intensos da carne são decorrentes de necessidades provenientes do corpo que se transformam em desobediência à voz de Deus, o que é captado do olho vem de fora de si. Neste aspecto todo material de leitura, toda propaganda midiática, todo produção em termos de filmes, documentários, noticiários, e coisas semelhantes se tornam farto material para induzir o indivíduo a agir contra os propósitos santos do Senhor. Um exemplo que pode ser mencionado diz respeito ao antigo tabu da virgindade. Em especial no Brasil, durante a década de 60 e 70, todo material produzido sobre sexo vinha sob esta égide, dizendo que a virgindade era uma coisa ultrapassada, um verdadeiro tabu da sociedade que devia ser colocado por terra. Quando esta ideologia se tornou prevalecente, o termo tornou-se desnecessário e, com isso, encontrar quem se preserve virgem para o casamento se tornou exceção da regra, alguém que é execrado pelos seus pares.

A terceira esfera de atuação trata da soberba da vida. Podemos dizer que neste estágio há uma simbiose entre os intensos desejos da carne e as demandas forjadas pelos olhos que se traduzem em um estilo de vida contrário à vontade de Deus, por isso João denomina como soberba da vida. Entra nesta esfera a luta pelo poder, pela supremacia de um individuo sobre o outro, pela atitude preconceituosa e todas as formas discriminatórias entre os seres humanos. O que o autor aos Hebreus está fazendo ao mencionar Massá e Meribá é declarar que o cristão precisa ter uma atitude proativa no sentido de buscar a vontade de Deus com efeitos práticos em seu plano existencial para não se deixar contaminar por este mundo. Paulo vai fazer menção a este poder inerente do evangelho ao escrever aos Gálatas a seguinte instrução:

o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, (Gl 1.4)

Observe que uma das resultantes do sacrifício do Senhor Jesus na cruz foi de nos arrancar pela raiz das influências deste mundo, seja no âmbito da carne, dos olhos e da vida da alma. É por isso que o Senhor se apresenta como o Bom Pastor, fazendo menção que Suas ovelhas haveriam de ter vida [eterna] e vida abundante, ou seja, vida de Deus que se desenvolve no âmbito desta era, no plano desta existência, no nosso dia a dia, em meios as circunstâncias em que vivemos. Assim o Senhor conclama Suas ovelhas a se deixarem conduzir-se pela voz do Senhor em cada experiência existencial para ser desarraigados deste mundo e o nome deste processo no Novo Testamento se chama “transformação”, isto é, ser moldado na imagem de Cristo por se deixar contemplar no espelho da glória do Senhor (II Co 3.18).

A pergunta que se faz é: – Como podemos percorrer esta senda de transformação? Jesus, em se apresentando como Bom Pastor, conclama as Suas ovelhas entrarem pela porta, que é o próprio Senhor. E de que porta o Senhor faz referência? Como encontrar esta porta? Deixemos o salmista nos dar uma importante pista:

Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. (Sl 24.7)

Vamos tentar entender o mistério desta porta e deste portal à partir da perspectiva do tabernáculo de israel. Sabemos que o tabernáculo era um cercado no deserto, com um pátio interno e, no meio, duas tentas conjugadas. A primeira era o santíssimo lugar, a segunda o Santo dos santos. Na primeira havia o pão da proposição, o candelabro e o altar de incenso, na segunda a arca da aliança. Enquanto que a primeira diz respeito àquilo que nutrimos no Senhor, a segunda tenda expressa aquilo que o Senhor realiza em nós. A conjunção destes dois elementos aplicado ao Novo Testamento diz respeito a renovação de nosso sentido e consequente transformação de nosso interior. Paulo nos dá a receita em Rm 12.1,2. Vamos ler:

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Rm 12.1,2)

Observe bem o final do texto, quando Paulo nos conclama a experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Em síntese ele está em consonância com o autor aos Hebreus que nos convoca a não endurecermos nosso coração, antes ficar atento a voz do Senhor para que, por meio dela, tenhamos nossa mente renovada e, por consequência, o Senhor possa realizar Sua obra em nosso interior de moldar Cristo em nós, fazendo com que sejamos transformados pelo poder de Deus nesta mesma imagem.

Comente este texto, isto me ajudará desenvolver outros aspectos do texto que não me foram percebidos. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

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