Comentários em aos Hebreus

A conexão entre o poder perscrutador da palavra e o descanso de Deus

Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência. Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas. (Hb 4.10-13)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é o poder perscrutador da palavra de Deus e sua conexão com o descanso de Deus. Para que possamos prosseguir em nossas considerações, precisamos retornar ao convite de Jesus, evidenciando a ênfase dada por Ele acerca de nossa alma. Jesus convida a todos os cansados e oprimidos para encontrar alívio nEle. Quem aceita este convite com disposição para aprender de Cristo, encontra descanso para a sua alma, portanto é no nível da alma que temos dificuldade de nos manter descansados.

A nossa alma é prodigiosa em enredar-se por compromissos espúrios, ilegítimos e estranhos à vontade de Deus. O sábio Salomão, fazendo menção desta tendência maléfica, escreveu: “Laço é para o homem o dizer precipitadamente: É santo! E só refletir depois de fazer o voto” (Pv 20.25). A este respeito o próprio Senhor Jesus dissera em dado lugar: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36). O que estamos a evidenciar é que a alma tende a fazer compromisso com pessoas à sua volta, sem considerar em momento algum qual seria a vontade de Deus para aquela questão. O resultado é que “e tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14.23) e precisa ser tratado por Deus. Aliás, o apostolo Paulo faz esta observação em um contexto em que instrui a igreja a nunca colocar tropeço na vida de alguém por conta do tipo de alimento que ele adota para si. Nesta instrução Paulo observa que não podemos colocar jamais tropeço a um irmão que possa vir enfraquece-lo, é quando ele adverte que em questões não essenciais ao evangelho, devemos guardar nossa fé para nós mesmo e não usar nosso entendimento da palavra para acusar outra pessoa. É neste contexto que Paulo ensina que tudo que não procede de fé é pecado.

Creio que você deve estar se perguntando o que tem a ver as palavras que proferimos com o descanso de Deus. A questão toda reside no modo como as circunstâncias da vida processam em nossa alma. Nós fomos criados a imagem e semelhança de Deus, por conta disso o Senhor imprimiu, mesmo no homem natural, a Sua lei, a Sua impressão digital. Esta lei está imersa em nosso subconsciente. Sabemos que é assim porque Paulo, falando dos gentios, que não conhecem a lei de Deus, os dez mandamentos, mesmo assim estes “mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se” (Rm 2.15). Creio que todos nós conhecemos este reclame da alma, porquanto toda vez que fazemos algo que julgamos errado, nossa mente entra em um processo incessante buscando encontrar meios de equacionar aquela situação. Dependendo do nível de complexidade, o individuo pode passar toda sua vida se condenando por um único evento ocorrido em seu passado. É por situações como esta que Jesus declarou que a alma não consegue descanso senão vier a Cristo para aprender dEle.

Para compreendemos nossa alma pode se enredar por situações complicadíssimas, acarretando pesadas consequências, vamos considerar um evento ocorrido nos dias de Davi. Este rei de Israel era um homem segundo o coração de Deus. Houve um tempo em que seu reino passou por uma seca de três anos. Estamos aqui diante de um problema recorrente que cabia uma investigação pormenorizada na presença de Deus. Consultando o Senhor, Davi descobrira que a casa de Saul havia promovido uma política de extermínio da casa dos gibeonitas, que moravam nas terras da família de Saul. Os gibeonitas tinham uma aliança com Israel, feita nos dias de Josué, que impedia qualquer Israelita matar um gibeonitas. Esta aliança fora feita mais de quatrocentos anos antes, sendo honrada por Deus, ainda que Josué a fizera sem consultar ao Senhor.

Davi então consultou os gibeonitas que tipo de reparação deveria ser feita, ao que lhe foi exigido o enforcamento de sete homens da casa de Saul. Dentre estes sete Davi escolheu dois filhos de Rispa. Os gibeonitas promoveram o enforcamento destes homens, deixando-os entregues ao relento para serem devorados pelos pássaros e animais do campo. Rispa se postou diante dos mortos, só se retirando quando Davi decidiu por dar a eles um enterro digno. Nesta oportunidade Davi se lembrou também de fazer o mesmo por Saul e Jonatas, porquanto depois de serem mortos Davi não tivera a preocupação de dar a eles também um enterro digno. Quando tudo se equacionou Deus se tornou favorável para com a terra de Israel.

Este fato relatado ocorrido nos dias de Davi demonstra que toda palavra empenhada traz consequências, ainda que elas estejam no plano meramente humano, sem nenhuma relevância aparente para o exercício da fé em Cristo Jesus. Contudo, por mais insignificante seja os vínculos que vão se formando em nível de alma, estes vínculos não passam despercebidos da consciência humana. Se formos analisar com profundidade haveremos de ver a correlação existente entre estes vínculos com os temores inconscientes, as raízes de amarguras, as angústias inexplicáveis, os pensamentos recorrentes acusativos e, mesmo, nos casos mais graves, o abatimento da depressão. Todos estes elementos, em menor ou maior nível, deixam a alma desassossegada, impedindo o indivíduo ter paz consigo mesmo, com seus semelhantes e, mesmo, com Deus. Israel, quando do Êxodo no deserto, por não conseguir esquecer-se de algumas poucas coisas que lhes traziam prazer no Egito, nutriam a incredulidade para com Deus. Leia por você mesmo os reclames de Israel:

disseram-lhes os filhos de Israel: Quem nos dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR, na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne e comíamos pão a fartar! Pois nos trouxestes a este deserto, para matardes de fome toda esta multidão. (Ex 16.3)

A provação do deserto fazia com que Israel murmurasse. A mente deles não tinha descanso, ficava dia e noite ruminando o que poderia ter sido se permanecesse no Egito, desprezando a obra redentora de Deus. O autor aos Hebreus usa deste fato para nos exortar a não cair no mesmo exemplo de desobediência, isto é, trazer nossa alma para ser tratada por Deus a fim de usufruirmos do descanso divino. Muitas vezes a situação é tão complexa quanto a dos gibeonitas, porquanto Davi teve de considerar não somente o que Saul fizera, como também toda a história daquele povo em relação a Israel para compreender que atitude tomar. E, mesmo tendo agido, ainda assim foi obrigado a repensar tudo novamente por causa de Rispa, que ficou a guardar os corpos dos enforcados da aproximação de aves e feras do campo.

É por causa da complexidade que há no trato da alma para que ela encontre o descanso de Deus que o autor aos Hebreus explica o poder operante da palavra de Deus. A primeira coisa para a qual chamo sua atenção diz respeito as instruções finais do texto em epígrafe. O autor coloca que todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos de Deus, observando que tudo quanto fazemos haveremos de prestar conta diante de Deus. É neste ponto que entra o importante papel de nossa consciência, porquanto ela é acionada sempre que um dado parâmetro divino é quebrado, demonstrando que estamos incorrendo em erro em algum grau. Paulo tinha uma profunda preocupação para com sua consciência ao ponto de declarar:

Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco. (II Co 1.12)

Observe que Paulo invocava o testemunho de sua consciência para assegurar a santidade e sinceridade por meio das quais andava diante de Deus. Para que possamos ter uma consciência tratada, precisamos aprender como a palavra de Deus opera em nosso interior, como ela nos perscruta, nos disciplina e nos guia pelo caminho do Senhor. Em primeiro lugar a palavra de Deus é viva e eficaz. É muito importante salientar este aspecto porque temos a tendência de lermos as escrituras para impor nela nossa forma de pensar, quando na verdade é a palavra de Deus que deve moldar nosso entendimento.

A palavra de Deus é apta a dividir a alma do espírito humano. É nesta divisão que se insere o discernimento da consciência, porquanto a consciência é a parte do espírito humano que temos governabilidade, interfaceando o espírito humano da alma. Isto é, a consciência é a fronteira entre o espírito humano e alma e tem o papel de captar a luz de Deus em nosso espírito humano e transferir esta mesma luz para que nossa alma possa andar segundo a vontade de Deus. Assim, distinguir a alma do espírito implica em discernir o que provém de nós mesmo, o que procede de Deus; o que exige que façamos reparação, que tipo de aliança espúrias precisamos romper, que forma de pensamentos, atitudes e comportamentos devemos reconsiderar.

A palavra de Deus é apta a dividir juntas de medula. Se considerarmos que as juntas suportam toda a estrutura do corpo humano e que por meio da medula opera o sistema nervoso, discernir um do outro significa não permitir que os ditames das necessidades do corpo nos obriguem a agir fora da vontade de Deus. Por fim a palavra de Deus discerne os pensamentos das intenções do coração. Como temos a necessidade de conduzir todos nossos pensamentos cativos a Cristo, não podemos permitir que eles fluem indiscriminadamente. Somos responsáveis pelo que pensamos. As intenções são ainda mais complicadas de serem discernidas porque representam aqueles instantes dentro dos pensamentos que decidimos por este ou aquele caminho. Um dos papeis do arrependimento é exatamente discernir estas intenções em arrependimento para que possamos nos deixar guiar pela liderança do Espírito Santo sobre nós

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