Artigos

A crise no Brasil e a perspectiva cristã

Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém; então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda. (II Ts 2.7,8)

Caro amigo! Dileta amiga! A crise no Brasil traz a tona todo tipo de manifestação. O preço exorbitante dos combustíveis, somado ao desemprego, aos baixos índices de popularidade do presidente, tudo isso faz com que as pessoas se arvorem no direito de se posicionar contra o governo. Alias o governo se tornou um semideus para a maioria da população brasileira, isto porque se espera que o governo seja responsável por prover saúde, educação, segurança pública e assistência social. Esta entidade magnifica que tudo provê, se alcançasse seu intento, toda renda da pessoa seria dedicada somente a aquisição de casa própria e coisas triviais. Tudo o mais seria suprido pelo governo. E, mesmo a casa própria, teria de ser provida por financiamentos de longo prazo a juros irrisórios. Ou seja, criou-se a sensação que o governo é a única fonte de provisão do indivíduo e, se ele se mostra incapaz de dar estes resultados por meio de suas políticas públicas, o que resta é a crítica, a revolta, o motim, a greve, a paralização.

Em meio a todo este cenário parece não haver distinção de atitude entre o cristão e o não cristão. Se a carestia atinge a todos, então só resta ao cristão nesta perspectiva engrossar o coro daqueles que murmuram contra a incapacidade do governo em entregar resultados de políticas públicas. Neste sentido o cristão engrossa o fluxo da manada e deixa de fazer a pergunta que lhe é mais importante: – como as escrituras, em especial o Novo Testamento, se posicionam diante da crise que assola o Brasil?

Quando Jesus veio na plenitude dos tempos, Israel era uma nação sob o domínio do império romano. A principal razão de Jesus não ter sido aceito como o Messias esperado pelo povo era porque esperavam dele um libertador político. Logo depois de multiplicar os pães, por exemplo, Jesus viu a multidão vir atrás dele com a intenção de o proclamar rei, obrigando-o a se retirar, buscando um lugar para estar só (Jo 6.15). Mais tarde Jesus colocou o dedo na ferida, dizendo: – “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” (Jo 6.26).

Hoje Jesus não se encontra fisicamente entre nós, já morreu, ressuscitou e está assentado a destra de Deus, o Pai. Mas permanece o profundo desejo entre muitos dos cristãos de entronizar um rei, um governante, um presidente, que seja cristão por entender que somente mediante este homem seria possível ter políticas públicas que lhes dê saúde, educação, segurança pública e assistência social, apenas para citar estas coisas, em síntese, que lhe forneça pão para viver. Não há nenhuma diferença entre a intenção destes cristãos com aquela manifesta pelo povo judeu logo após Jesus multiplicar os pães.

Jesus morreu aos 33 anos. Levando em conta que a era cristã começou a ser contada à partir do nascimento de Jesus, isto significa que Jesus viveu 33 anos sob o opressivo império romano. Depois vieram os discípulos após ele, sendo o último deles, João, que escreveu o Apocalipse próximo ao fim do primeiro século. Assim, temos todo o Novo Testamento transcorrido em um período de 100 anos sem nenhuma manifestação por parte dos discípulos de Jesus orientando a igreja a derrubar o governo opressivo romano e estabelecer um governo cristão.

Por outro lado, o fato de nenhuma instrução haver no Novo Testamento para mudar a lógica governamental, há uma cosmovisão bíblica sobre a natureza dos governos humanos que se contrapõe ao reino de Deus. E só seremos capazes de perceber esta dimensão se a nossa preocupação deixar de ser o pão da subsistência para realmente buscarmos as prioridades do reino de Deus. Jesus trata disso no sermão do Monte, em especial o capítulo 6, quando contrapõe Deus com Mamom ou as Riquezas, dizendo que não devemos viver com base no que comemos, bebemos ou vestimos, mas sim em buscar em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça para que tudo o mais nos seja acrescentado.

Quando a igreja primitiva começou a expandir o evangelho, a opressão governamental se direcionou especificamente contra a igreja. É conhecida a história dos cristãos lançados na cova dos leões nos circos romanos. Houve um momento crítico que a igreja reunida orou. Esta oração em meio a opressão governamental tem um lugar impar entre todas as orações porque ela cita especificamente o Salmo 2. E por que este salmo é tão importante no contexto desta oração? Porque o Salmo 2, além de ser um dos salmos eminentemente profético das escrituras, trata basicamente com o governo humano.

Basicamente a estrutura deste salmo é a seguinte: a) os povos se enfurecem contra Deus – verso 1; b) os governos conspiram contra Deus – versos 2 e 3; c) Deus zomba de todos eles – versos 4 e 5; d) Deus entronizou Seu Filho como Rei – versos 6 a 9; e) Deus adverte os governos – 10 a 12. Este salmo retrata os dias atuais com base na seguinte perspectiva, retratada diante de nossos olhos. Em síntese toda vez que o povo vai a rua fazer uma reivindicação ao governo, o resultado final desta reivindicação é a quebra de alguma lei divina, fazendo com que o anticristo fique mais perto de ser entronizado. Entenda isso: toda vez que um cristão participa de um movimento reivindicatório nas ruas, ele está contribuindo para a chegada do anticristo; toda vez que um cristão engrossa o coro daqueles que reclamam das políticas publicas do governo, ele está viabilizando a vinda do anticristo.

Se você entendeu meu argumento deve estar me criticando, dizendo que não podemos fechar os olhos aos 12 milhões de desempregados, temos de reivindicar, reclamar, fazer engrossar nossa voz nas ruas, derrubar o governo corrupto e por ai vai. Agora pense no seguinte: nós tivemos dois governos exemplares no mundo, o primeiro absolutamente teocrático, por mão de Moisés e o seguindo eminentemente político sob a liderança do homem mais sábio que já existiu neste mundo, Salomão. Vamos considerar estes dois governos e o resultado alcançados por eles. E, observe, eram governos sob a regência de homens de Deus, se fosse hoje, seriam cristãos exemplares.

Moisés liderou o povo por 40 anos debaixo da mais extraordinária demonstração do poder de Deus. Nunca faltou água, nem comida. A roupa jamais se deteriorou. Uma nuvem de dia, uma coluna de fogo a noite sinalizava de forma visível a direção que o povo devia seguir. Os inimigos eram abatidos. E qual foi o final da história? Toda aquela geração morta no deserto por causa de sua incredulidade. Foram incapazes de cumprir seu maior desígnio, que era de entrar na terra prometida, a Nova Canaã.

Que dizermos de Salomão. Seu reino foi pacífico. A grandiosidade de tudo quanto realizou se tornou proverbial. Salomão foi responsável pela edificação do templo de Deus, todo ele feito em ouro, prata, pedras preciosas e madeira de lei. Para nós, mesmo com todo o movimento de dinheiro que corre no mundo, nos é inimaginável uma edificação desta natureza. E qual foi o final da história? Morto Salomão, seu filho Reoboão aumentou os impostos mais um pouco e dividiu o reino de Israel, dez tribos para o Norte e duas ao Sul. Israel nunca mais foi uma nação unida.

E nós, os cristãos, o que esperávamos? Não é a Nova Jerusalém, descida dos céus e ataviada como uma esposa ao esposo? Não é a ressurreição e o arrebatamento, quando partiremos para estar para sempre com o Senhor? Sim, todas estas coisas, você vai me dizer, mas é preciso viver, trabalhar, comer, se vestir. Sim, verdade, precisamos de todas estas coisas. Mas qual a receita do Novo Testamento para alcançar estas coisas? A intercessão.

 Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito. (I Tm 2.1,2)

As armas do cristão são completamente distintas deste mundo. Estes, por não terem Deus precisam manifestar-se em movimento de massa para pressionar o governo, já os cristãos não, eles só precisam dobrar o seus joelhos para clamar ao Senhor. E por que a intercessão é a única ação necessária? Leia por você mesmo:

Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina. (Pv 21.1)

Somente Deus tem a condição de mudar a disposição do coração do governante. Temos ou não o governo que nos dê uma vida tranquila tão somente se o Senhor entender que existe intercessão suficiente para atender o pedido do povo de Deus, a igreja. Caso contrário quanto mais esbravejarmos nas ruas, mais rápido haveremos de trazer o anticristo para governar este mundo. E por que digo isso? Por que o ministério da iniquidade já está agindo, isto desde sempre, principalmente desde a morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Procure entender uma coisa, nós tratamos de realidades espirituais, não de notícias de jornais. Está escrito que os povos deste mundo andam “segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2). Quando um cristão vai na rua, ele está engrossando o clamor do curso deste mundo, ele está se deixando guiar pelo príncipe da potestade do ar, ele está em companhia dos filhos da desobediência. Agora que você entendeu que não há escapatória, que ir para as ruas protestar contra o governo traz o anticristo mais rápido, leia como foi a oração da igreja primitiva quando se viu impedida de levar o evangelho:

Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram; agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus. (At 4.24-30)

A igreja primitiva podia ter orado por ter dias manso e tranquilo, podia ter orado para derrubar o governo déspota. Não, ela não fez isso. Antes deixou as questões de governo sob as mãos e providência divina e pediu tão somente para anunciar com coragem a palavra de Deus, orando ainda para que o Senhor manifestasse  Seu grandioso poder para restaurar vidas. O resultado não poderia ser outro:

Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus. (At 4.31)

Entenda isso, enquanto nossa intenção é provocar um abalo sísmico em Brasília para mudar a direção do governo, estamos trazendo o anticristo mais rápido, agora quando nossa intenção for ver o reino de Deus sendo implantado na terra, então veremos a palavra de Deus sendo anunciada, inclusive para aqueles que nos traz revolta e desalento. Que sejamos capaz de ver os governos sob a perspectiva cristã, não de nossos interesses secularistas.

Comente este texto, compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

Leave a Comment