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A escolha do justo no mundo ímpio

Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé. (Ha 2.4)

É crescente a preocupação dos cristãos em razão da expansão exponencial da iniquidade. Não há mais um lugar geográfico que se possa dizer seguro. Pequenas comunidades, com 20.000 habitantes, testemunham caixas eletrônicos explodidos após mais um assalto cinematográfico. Cidadãos são alvos de balas perdidas na volta para casa após um dia de exausto trabalho honesto. Mulheres são vítimas das mais tenebrosas formas de violência. Crianças são alvos de pedófilos desumanizados. Policiais são contados semanalmente em estatísticas fúnebres. Governantes são objetos de operações policiais por deixar-se corromper na aplicação das políticas públicas. Terroristas se transformam em morteiros mortais dizimando inocentes transeuntes. Nações movimentam seus exércitos para confrontos de dimensões nucleares. Todo este cenário pode ser sintetizado em uma única expressão bíblica: “o mundo inteiro jaz no Maligno” (I Jo 5.19).

É diante deste contexto caótico que o justo precisa externar sua fé. E sua primeira escolha deve ser para qual direção voltará seus olhos. Se a sua fonte de verdade for as matérias jornalísticas, então sua única percepção é que o mundo está indo de mal a pior e sua segurança física, emocional, financeira, espiritual e patrimonial está em sério risco. Neste caso o medo se torna seu conselheiro, a ansiedade o seu futuro, a depressão o seu presente, e a amargura o seu passado. Em que pese o fato do cristão ter consigo que Deus governa o universo, sua expressão de fé é para um futuro distante, porquanto no aqui e agora este cristão parece estar entregue a sua própria sorte, exigindo toda sua capacidade em lidar com o imponderável.

Quem assim enxerga o mundo então não lhe resta outra escolha senão declarar a ele uma guerra santa. Primeiro fazendo o maior número possível de representes políticos, ainda que grande parte destes acabem por naufragar no mar de corrupção. Outra atitude é de levantar bandeiras morais, estigmatizando certos segmentos sociais por não se sujeitarem as leis divinas. Por fim voltam suas críticas contra aquelas denominações que acreditam em nada contribuem para manter a fé evangélica em pura diante dos homens. Não foi diferente com o que aconteceu na idade média, quando as cruzadas procuravam dominar os povos pagãos com a força das armas, forjando uma evangelização onde aceitar a Cristo era render-se diante da força das armas.

E qual é o problema desta forma de enxergar o mundo? Basta por um pouco considerar que toda esta estratégia seja bem sucedida. Neste caso os representantes políticos não só hão de editar leis justas, como farão com que as políticas públicas cumpram seu papel social. Os segmentos sociais contrários haveriam de repensar seu estilo de vida, buscando imitar os cristãos no seu comportamento, como faziam os hipócritas em usa sociedade predominantemente moral. Por fim as denominações seriam reconhecidas por sua conduta absolutamente cristã, digna de ser enaltecida nas matérias jornalísticas. O final disto tudo poderia ser sintetizado como a implantação do governo milenar de Jesus Cristo sem que este mesmo tenha voltado. Como fazia então o justo que vive de sua fé diante deste quadro caótico? Consideremos Enoque, o homem que andou com Deus e o Senhor o tomou para si (Gn 5.24). Leiamos:

Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele. (Jd 1.14,15)

Enoque viveu no tempo em que antecedeu o dilúvio. O quadro daqueles dias não era diferente destes que vivemos. Enoque não pregou declarando que o mundo haveria de melhorar caso o povo se voltasse a Deus, antes fez menção da volta do Senhor Jesus Cristo com o objetivo último de exercer juízo contra todo tipo de ímpio e iniquidade. Observe quão diferente é este tipo de atitude contra aquela que tenta melhorar este mundo. Enoque nos mostra que não somos chamados a implantar o milênio sem Cristo, ainda que a igreja seja sal da terra e luz do mundo. Antes o papel que nos cabe é declarar com todas as letras que Jesus está voltando para julgar este mundo caído, trazendo consigo sua igreja ressurreta e arrebatada. Quem ministra como Enoque não está buscando assegurar segurança para seus dias, antes conservando diante de si uma visão profética da realidade, consciente do que Jesus dissera: “Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima” (Lc 21.28).

Cabe a cada um de nós nos perguntar se estamos realmente querendo o reino dos céus na terra ou implantar o milênio sem Cristo. Alguém pode dizer: mas se igreja é sal, nosso papel é impedir o apodrecimento moral dos moradores da terra. Por certo é verdade a medida que damos nós o exemplo desta verdade, dispostos a pagar este testemunho com o nosso próprio sangue, mesmo porque está escrito: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue” (Hb 12.4). Com isso queremos dizer que devemos sim, declarar a verdade em nossa vida como testemunho diante do Senhor, isto em amor. E não fazemos isto impondo nosso estilo de vida aos outros, mas declarando a eles em amor porque viemos como vivemos, por nossa fé. Só assim quem nos ouve terá como fazer sua própria escolha entre viver pela fé como nós ou prosseguir tentando ou melhorar ou piorar o mundo que vive conforme os ditames de sua própria consciência.

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