Reflexões

A escolha entre vida e vida

Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé. (Ha 2.4)

Neste mundo há tantas formas de vida quantos são os indivíduos no planeta. Cada um tem sua própria forma de prover sua subsistência, buscam o significado que julgam satisfazer seus ideais, desenvolvem laços pessoais, constituem famílias, buscam a felicidade. Outros adotam a atitude de deixar a vida passar, imerso em suas rotinas metódicas. Há aqueles que imergem no mundo caótico das drogas, atrás de alívio para a dor torturante de suas almas. Têm os que nem vão adiante, sendo ceifado pelo infortúnio, seja ele de natureza que for. A este respeito Jesus ouviu acerca de uma terrível matança e, a esta história, acrescentou um fatídico desastre, aproveitando a oportunidade para instruir o povo:

Ele, porém, lhes disse: Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido estas coisas? Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis. (Lc 13.2-5)

O que Jesus demonstrou por estes eventos é que não importa o estilo de vida que escolhemos, todos eles terminam com um mesmo epitáfio: “aqui jaz…”, pois todos, indistintamente, simplesmente morrem. E, se isto ocorrer sem responder a mais importante de todas as perguntas, então não importa como a morte se dá, seja proveniente de que estilo de vida seja, todos haverão igualmente de perecer, isto é, de morrer para ressuscitar, serem julgados e morrerem de novo, esta a segunda morte, a sentença eterna advinda do juízo final (Ap 20.14,15). E a pergunta é: – onde haveremos de passar a eternidade?

O profeta contrastara dois indivíduos, representantes de toda a humanidade, um, soberbo, não dá valor algum a sua alma, pois ela não é reta para si. O outro, antevendo que “aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27), se apega em sua fé para escapar da ira vindoura (Mt 3.7). O próprio Senhor Jesus, realçando a importância de considerar entre estes dois indivíduos, fez uma pergunta inquiridora:

Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? (Mt 16.26)

Antes de fazer este questionamento, o Senhor explicara o verdadeiro sentido da vida, que pode ser melhor compreendido na língua grega. Jesus dissera: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 16.25). Vida, neste versículo é transliterado no grego como “psuche”, com o significado de princípio animal, respiração, vida almática e terrena. Esta é a vida que termina com a morte, depois dela vem o juízo, então, por estar sem Cristo, vem a segunda morte, a morte eterna. E é neste ponto que está toda a problemática da existência. De que adianta escolher qualquer estilo de vida que seja, empreendedora ou serviçal, seja produtiva ou ociosa, seja plena de felicidade ou amargurada, nada disso vale se a fé não for o norte que guia a vida. Dai a completa distinção da vida a ser alçada pela fé, percebida no Novo Testamento, em citação ao profeta Habacuque:

visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. (Rm 1.17)

Viver, agora, a luz da fé, é transliterado em grego como “zoe”, que significa estar entre os vivos, apreciar a vida real, verdadeira e digna de nome, vida sem fim no reino de Deus, poder vital que exerce em si mesmo, em sua alma, dando-lhe pleno vigor. Este é o tipo de vida proporcionada pela fé, a vida que procede de Deus. Esta é a vida dada ao justo, aquele que foi justificado por meio de sua fé no sacrifício vicário de Jesus Cristo. E a conhecemos à partir do evangelho, que é a mensagem de boas novas, por meio da qual descobrimos que o glorioso Deus deu o seu próprio Filho unigênito em amor ao mundo para que todo aquele que nele creia não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). E aqui se faz a diferença entre o soberbo e o justo, porquanto o Senhor orou em gratidão a Deus dizendo:

Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. (Mt 11.25,26)

Para compreender o evangelho precisamos nos tornar pequenos, como uma criança. Isto exige que a soberba caia por terra, que a alma se renda diante da majestade divina, mesmo que ela se revele na loucura da cruz. Ainda que alguém venha a ler estas palavras imerso em incredulidade, escarnecendo dentro de si os santos caminhos do Senhor, ainda assim este deveria fazer uma oração singela: – revela-te a mim Senhor, a despeito de minha incredulidade, porquanto nada que eu possa ganhar neste mundo poderia ter maior valor que o peso de minha alma em tua balança. A estes o Senhor mesmo dá testemunho de quão receptivo os céus se tornam: “Eu vos afirmo que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10).

Então, como expectador da vida e protagonista dela, podemos contemplar todos os desastres naturais, todas as tragédias humanas, todas as misérias seculares e, ainda assim, respirar fundo, elevar os olhos acima do engano da realidade que se os apresenta e, diante da possibilidade do infortúnio chegar logo, decidir-se pela salvação de sua alma e, quem sabe, por sua decisão, de toda a sua casa.

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