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A extensão do perdão e as indulgências

Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. (Mt 4.17)

Neste ano comemoramos 500 anos da reforma protestante tendo como marco o dia 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero publicou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em protesto contra as indulgências e outros pontos das doutrinas da Igreja Católica.

Lendo as teses de Lutero, a primeira palavra significativa com a qual nos deparamos em sua argumentação é “penitência”. Este termo significa “pena imposta para expiação do erro cometido por alguém”, também, “qualquer ato de sacrifício para expiação dos próprios pecados”, ou ainda “absolvição concedida por sacerdote confessor a todo aquele que se confessa arrependido” (Houaiss). O termo penitência, estranho ao contexto evangélico, deriva da tradução da palavra grega “metanoeó” em Mt 4.17 na Bíblia Católica. Nas versões evangélicas encontramos este termo traduzido por “arrependimento”. Esta palavra grega também traz o sentido de mudança de ideia, de mentalidade, especialmente aplicado no contexto bíblico para significar uma mudança de atitude do homem interior por aceitar para si a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

A luz do entendimento do termo penitência, Lutero afirmava que a verdadeira interpretação de Mt 4.17 é o ensino pelo qual Jesus nos exorta a manter um estilo de vida de contrição. Por outro lado a Igreja Católica tinha e ainda o tem por doutrina que a penitência é o ato sacramental da confissão e reparação do dano devidamente ministrado por um sacerdote autorizado.

Observe que esta doutrina enfatiza dois aspectos da penitência, a confissão e a reparação. Segundo este entendimento Deus perdoa os pecados após sua confissão, libertando-o da pena eterna, contudo cabe ao homem tratar dos efeitos destes mesmos pecados para livrar-se de suas penas temporais. Um exemplo deste tipo de aplicação se encontra no site http://cleofas.com.br/indulgencias-o-que-sao/, onde se lê:

“Aquele que blasfemasse o nome de Deus, da Virgem Maria, ou dos santos, ficava na porta da igreja, sem poder entrar, sete domingos durante a missa paroquial, e, no último domingo ficava no mesmo lugar sem capa e descalço; e nas sete sextas-feiras precedentes jejuava a pão e água, sem poder neste período entrar na igreja. Aquele que rogasse uma praga aos pais, devia jejuar quarenta dias a pão e água…”

Em razão da necessidade de se angariar fundos para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, Em 1517 o Papa Leão X passou a oferecer indulgências para os que dessem esmolas para esta obra, o que gerou um agressivo marketing de venda promovido por Johann Tetzel, frade dominicano e pregador. Assim, os atos de penitências se converteram em um rico comércio de venda de indulgências[1].

Para Lutero o ato de contrição era, por si mesmo, completo e cabal, produzindo internamente o perdão e, externamente, toda obra de mortificação da carne, dai suas 95 teses afixadas. Entendamos o contexto. A pena e, decorrente dela, a culpa, procede de uma consciência sabedora de ter quebrado alguma lei divina. A luz da palavra de Deus a penalidade para o pecado procede de um só veredito, o qual lemos:

mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Gn 2.17)

Deste veredito surge a única conclusão passível de entendimento:

porque o salário do pecado é a morte … (Rm 6.23)

Se a penalidade última de qualquer pecado é a própria morte e, como todo ser humano está fadado a morrer, por conseguinte entende-se que toda a humanidade é pecadora diante de Deus. Foi esta a conclusão do apóstolo Paulo:

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (Rm 5.12)

Assim, o único modo possível pelo qual o homem pode ser perdoado e, por conseguinte, ter vida eterna, é se uma vítima inocente morrer em seu lugar, pagando com este sacrifício, o delito por seu crime. É neste papel que Jesus Cristo se apresenta como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Isaías retrata a extensão deste sacrifício:

Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. (Is 53.4,5)

Observe que a obra de Cristo na cruz foi cabal, porquanto recebeu sobre si nosso castigo, nos perdoando de nossos pecados e nos remindo de nossa natureza pecaminosa e, por consequência, livrando-nos da culpa decorrente destes mesmos atos pecaminosos praticados por nós, porquanto por suas pisaduras fomos sarados.

Alguém pode se perguntar: – é certo que recebemos o perdão da parte de Deus, mas não temos que reparar as consequências de nossos pecados? No entendimento de Lutero o ato de arrependimento traz consigo a remissão da pena e da culpa, porquanto a contrição gerada por este mesmo arrependimento faz o pecador compreender a extensão de seus atos e busca-lo repará-los, ainda que muitas vezes isto pode estar além de suas possibilidades. Contudo o fato de demonstrar em seu arrependimento o desejo da reparação é, por si só, uma evidência de sua consciência do grau de seu arrependimento. Vamos dar um exemplo para entender um e outro:

Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais. Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. (Lc 19.8,9)

Zaqueu subira em uma árvore para ver Jesus passando. Este chefe dos publicanos coletava impostos para o Império Romano e por certo ficara rico por espoliar com fraude os tributários. Ouvindo de Jesus se convidar para pousar em sua residência, preparou-lhe um fausto banquete. Em meio a refeição declarou-se arrependido de seus atos corruptos, propondo, inclusive reparar o dano causando, restituindo quatro vezes mais aqueles que foram defraudados. Observe que o seu arrependimento envolveu tanto a consciência da pena quanto da culpa. Jesus, tendo ouvido estas palavras declarou que naquele mesmo instante a salvação chegara naquela residência, porquanto Zaqueu também era filho de Abraão. Praticamente seria o mesmo que dizer

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; (Jo 1.12)

Observe também que Jesus declarou Zaqueu salvo antes mesmos que ele realizasse a obra que intuíra em fazer, qual seja, reparar o dano. E por quê? Pensemos um pouco na dificuldade que Zaqueu teria para realizar este procedimento. Primeiro teria de ter o registro de todos aqueles que defraudara, segundo, saber o montante devido a cada um, terceiro, localizar estes mesmos indivíduos para reparar o dano, quarto, converter seu patrimônio em dinheiro para prover os devidos pagamentos. Talvez pudesse fazer a maior parte da reparação, mas por certo seria praticamente impossível realizar toda ela. Se sua salvação dependesse desta obra, seguramente Zaqueu jamais conseguiria obter o perdão por seus pecados com sua devida reparação. Ocorre que Jesus pagou de modo cabal toda a pena, bem como a culpa por este pecado praticado por Zaqueu. Então a reparação advinda depois não mais seria uma obra de justificação, antes uma obra de amor decorrente da nova natureza que fora promovida no coração de Zaqueu tão logo ele fora perdoado, justificado, salvo e, se acontecido após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, poder-se-ia acrescentar ainda, regenerado pelo poder do sangue de Jesus Cristo derramado na cruz do calvário.

 

 


[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9rcio_de_indulg%C3%AAncias

 

 

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