Artigos

A generosidade da Igreja vinculada ao céu

E digo isto: Que o que semeia pouco pouco também ceifará; e o que semeia em abundância em abundância também ceifará. (II Co 9.6)

Uma das cenas clássicas do gibi do Tio Patinhas era a de seus olhos se transmudarem para uma caixa registradora sempre que via uma oportunidade de ter lucro. Assim tem sido muitos cristãos quando leem determinados textos bíblicos. A ansiedade por ser próspero é de tal ordem que a Bíblia se transforma em objeto de mineração para extrair textos que reforcem a ideia que Deus promete riquezas materiais ao homem. Dentre todos, no Novo Testamento, este é o mais conhecido e utilizado nos pleitos de ofertas nas igrejas. Os pastores da prosperidade se arvoram de autoridade ao declarar que o montante da oferta determina o retorno financeiro citando este texto: a dedução parece ser óbvia, quanto mais se dá, mais se recebe. Não só é obvia, como também expressa exatamente o que está escrito e tal seria a conclusão se a leitura da Bíblia for feita particionada, descontextualizada, suprimida de seu contexto.

Paulo de fato está a demonstrar a imensa bondade de Deus ao declarar que a semeadura resulta em colheita abundante. Isto é um vero, mesmo porque está escrito: “Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará” (Ec 11.4). A própria economia brasileira é uma prova evidente da força da agricultura, porquanto os sucessivos superávit da balança comercial nestes últimos anos foram alcançados graça a pujança da agricultura brasileira. Todavia a agricultura não é um fim em si mesmo, pelo contrário, ela representa um dos sustentáculo da vida humana, responsável por nossa alimentação diária. O agricultor, ao lançar a semente no solo, não pensa na construção de grandes celeiros para depositá-la, precavendo-se de carestia futura, antes seu desejo é que a produção circule, fazendo votos que possa alcançar bom preço por sua colheita, para pagamento de todas suas despesas e ainda ter algum lucro. Um agricultor disse que plantar é como jogar na loteria, um ano pode ser bem sucedido, outro não. Ele completou dizendo que uma colheita bem feita e por bom preço gera renda para dois anos, mas uma má colheita traz prejuízos por três anos. No fritar dos ovos, o agricultor passa por apuros financeiros constantes. Ainda assim seu grande prazer é lançar a semente no solo na esperança de grandes colheitas, quanto mais plantar, maior será seu retorno. Este princípio vale para a agricultura, também se aplica no reino do Espírito.

Há um provérbio que traz luz ao entendimento do texto da semeadura. Está escrito: “Ao que retém o trigo o povo o amaldiçoa, mas bênção haverá sobre a cabeça do vendedor” (Pv 11.26). Realmente a motivação primária do agricultor é levar comida a mesa da população, seria terrível se sua produção se voltasse inteiramente para seu próprio consumo. A fome se multiplicaria e muito cedo este agricultor seria amaldiçoado. O próprio Senhor contou uma parábola acerca do agricultor insensato. Vamos ler a parábola:

E propôs-lhes uma parábola, dizendo: a herdade de um homem rico tinha produzido com abundância. E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: derribarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; e direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? (Lc 12.16-20)

Observe que o foco deste homem era amealhar riqueza para si mesmo. Ele não estava preocupado com o seu próximo, para ele, quanto maior fosse sua posse, melhor. Este agricultor não tinha nenhuma preocupação para com o destino de sua alma. Ele não se importava com Deus, para ele melhor viver intensamente neste tempo presente do que se desgastar pela vida eterna, vida esta que, para ele, era uma mera ilusão. Quantos não são movidos hoje por estes anseios? Basta cada um avaliar sua semana: seis dias trabalhando, fim de tarde em rodas com amigos acompanhados por uma boa bebida, no domingo ou descansando com a família, ou praticando algum esporte, ou assistindo um bom programa ou simplesmente descansando. Em sua ótica, é preciso recarregar as baterias para voltar a trabalhar na segunda feira. Alguns ainda dispõe de ficar uma hora ou duas em alguma igreja, ouvem a mensagem, fazem rápidas reflexões sobre o que ouviu e voltam para casa pensando em como vencer as lidas da vida. Se considerarmos todo o escopo desta existência, seu fundamento diz respeito tão somente ao que é secular e ao que é material.

Há de se entender que se esta é a atitude típica do homem natural, também pode ser o estilo de vida de muitos cristãos, mesmo porque Paulo chegou a exortar este que acordasse, porquanto estaria dormindo entre os mortos (Ef 5.14), ou seja, vivendo como qualquer homem natural faria. A diferença é que aquele homem rico obteve uma grande colheita, no seu entendimento, fruto do seu próprio esforço, razão porque sua fortuna somente aumentava. O cristão, mais espirituoso, quer chegar no mesmo nível de riqueza comprometendo o próprio Deus neste negócio. Assim, quanto mais o pastor lhe ensina que deve ofertar para receber, mais ele dá do que tem para ficar rico. Muitos chegam a ser matemático nesta relação com o divino, se a promessa é cem vezes mais, então porque não aumentar ainda mais a oferta? Um carro não basta, é necessário dois, a residência tem de ser no bairro mais imponente, porquanto ali está o filho do Rei do universo. Ele precisa comer o melhor desta terra, usar roupas de marca, ter posição social respeitável, afinal, é o filho do Rei.

É interessante que os pastores da prosperidade reforçam este comportamento. Como o segredo para o aumento da riqueza é a oferta, então é preciso criar demanda, assim, se o templo é para 100 pessoas, constrói-se um de 500, depois1.500, então 5.000 e, os mais visionários logo chegam na casa das dezenas de milhares. Para incentivar a oferta declaram ao cristão dos benefícios de investir na casa do Senhor: seu conforto vai aumentar, o assento será estofado, o ambiente será climatizado, o som da melhor qualidade. Se for tudo levado na ponta do lápis, ofertar traz consigo o mesmo conceito do imposto: duro de pagar, mas tem o consolo que os benefícios se voltam para o cidadão em benfeitorias. É que, no caso do imposto, principalmente no Brasil, não se pode dizer isso, todavia na igreja é quase que líquido e certo: oferte que você mesmo será usuário de todos os benefícios de sua oferta. Assim, o cristão ganha nas duas pontas: oferta para a obra de Deus e, em sua casa, sua renda é aumentada, na igreja, ele próprio goza dos benefícios de sua própria oferta.

O problema é que é ocultado ao ofertante da obra de Deus o verdadeiro objetivo da semeadura conforme Paulo propusera. Se esta verdade de fato fosse conhecida, toda a mecânica da arrecadação de recursos e utilização do mesmo teria de ser revisto. Se a verdade fosse conhecida, os pastores não mais poderiam ostentar riqueza como demonstração de sua espiritualidade. É certo que muitos cristãos não estão interessando em conhecer a verdade e os pastores da prosperidade não querem de modo algum que ela seja ensinada, assim tudo fica por isso mesmo. Contudo há um grande número de cristãos que estão cansados deste negócio, só que vivem em conflito consigo mesmo, porque a leitura do texto da semeadura parece claramente fundamentar a teologia da prosperidade. Para sair deste circulo vicioso, basta ler alguns versos antes. Está escrito:

Mas não digo isso para que os outros tenham alívio, e vós, opressão; mas para igualdade; neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para que também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve de mais; e o que pouco, não teve de menos. (II Co 8.13-15)

Paulo, ao propor a lei da semeadura, não está ensinando sobre prosperidade, mas generosidade. Basicamente ele declara que, na igreja, há um grande contingente de irmãos literalmente passando por necessidades. Quando este ora a Deus, o Senhor levanta um irmão, fazendo com que sua colheita seja abundante, para que este, generosamente, divida com o irmão carente daquilo que generosamente Deus lhe concedeu. Observe que Paulo deixa claro o princípio da equidade ao declarar que quem muito colheu não lhe sobrou, quem pouco tinha, não lhe faltou. Este era o contexto da igreja primitiva, quando lemos:

“Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos” (At 4.34).

Este texto não dá a ninguém o direito de criar armazéns para si, como fez o homem rico. Não cabe nenhum estilo de vida que traga ostentação, antes toda colheita retorna para o seio da igreja em profundo ato de generosidade. Este cristão sabe que quanto mais dá, mais recebe da parte de Deus para continuar dando. Ele teria todo o direito de ser riquíssimo em posses materiais, mas seu coração generoso não lhe permite isso porque ele quer, na verdade, imitar seu Senhor, porquanto está escrito: “porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, enriquecêsseis” (II Co 8.9). Se os cristãos realmente praticassem a generosidade, então o mundo conseguira compreender o amor de Deus pela expressão do amor mútuo entre os irmãos.

pensador

    http://cezarazevedo.com.br/plano-de-salvacao-por-pergunta/

    http://cezarazevedo.com.br/estudo-para-novo-convertido-0110/

    http://cezarazevedo.com.br/estudo-para-batismo-0110/

    http://cezarazevedo.com.br/ministracao-para-libertacao-interior-e-perdao/

 

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Rm 6:23)

 

Leave a Comment