Reflexões

A profundidade do conhecimento proveniente das escrituras

E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear. (Mt 13.3)

Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se. (Mt 13.24,25)

E ele respondeu: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são os anjos. (Mt 13.37-39)

Caro amigo, você me fez uma pergunta muito interessante: – Será que a Bíblia foi escrita para pessoas comuns ou para os separados por Deus para a Sua Obra? Creio que algumas passagens de duas parábolas em Mt 13 pode nos ajudar a refletir sobre esta questão. Destaco aqui a parábola do Semeador e a do Joio e do Trigo.

Neste texto gosto muito da expressão: “o campo é o mundo”. De fato é de amplo conhecimento que Jesus veio, morreu, ressuscitou e, antes de ascender aos céus, deu expressa ordem a seus discípulos para pregarem o evangelho para toda criatura em todo o mundo (Mc 16.15). Portanto podemos de imediato dizer que a palavra de Deus é dirigida a toda humanidade indistintamente, quer salvos, quer perdidos.

Permita-me primeiro apresentar dois conceitos inerentes ao termo “mundo”: como criação física e como objeto da graça de Deus. Nós encontramos estas duas acepções no mesmo texto. Leia você mesmo: “O Verbo estava no mundo [criação física], o mundo [criação física] foi feito por intermédio dele, mas o mundo [objeto da graça de Deus] não o conheceu” (Jo 1.10).

O mundo ainda pode ser visto como um sistema político, econômico e social (At 17.6), e também como o sistema maligno permeado da mais absoluta incredulidade para com Deus. Mas o mundo pode também ser visto como sendo o próprio universo. Nesta acepção Pedro comenta que Jesus foi “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo” (I Pd 1.20). Portanto, se o mundo inclui todo o universo, a palavra de Deus foi escrita para todos os seres, indistintamente, visíveis e invisíveis.

Você pode me perguntar o porquê do termo “Mundo” ser tão importante a luz das escrituras. Nós temos a tendência de considerar a história restrita em nossa época. Os que são mais dotados de saber reconhecem a história desde a antiguidade, tendo uma visão cronológica mais ampla, que se estende por, pelo menos, seis mil anos. Se ampliarmos o espectro da visão, haveremos de retroceder até o Big Bang, isto dá por volta de 13,5 bilhões de anos atrás. Este é o período a que Pedro se refere quando diz que Jesus foi conhecido antes da fundação do mundo. Leia como Paulo percebe toda esta amplitude:

pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. (Cl 1.16,17)

Observe no texto a amplitude da criação que precisam reportar ao Senhor Jesus, estão inclusa nelas tanto as coisas visíveis quanto as invisíveis. Agora, não importa a quantidade de seres que há, se voltarmos a parábola, só encontramos dois agentes que respondem por todos os seres. Ou é o Filho do homem quem semeia, ou é o Diabo. Toda a humanidade está encapsulada em um deles.

Se eu disser: – eu prego o evangelho! Não é verdade em sua inteireza, pois eu prego porque o Espírito do Senhor dentro de mim sustenta esta pregação, ou seja, eu prego pelo poder de Deus. Se um ímpio qualquer disse: – eu defendo o aborto indiscriminadamente! Não é este ímpio quem o faz, ele o faz pelo poder do Diabo. Tanto é verdade o que estou dizendo que Paulo asseverou esta verdade ao contrastar quem nós somos e quem éramos antes de Cristo. Leia:

Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; (Ef 2.1,2)

Paulo está afirmando que só existem duas fontes de energia vital neste mundo: ou esta energia procede da luz, portanto de Cristo Jesus, ou vem das trevas, tramada pelo príncipe da potestade do ar, quem também é conhecido como sendo, “o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo” (Ap 12.9). Assim, o campo é o mundo, que tem a amplitude do universo, que recua no tempo até o Big Bang, o princípio de todas as coisas e prossegue até a eternidade futura. Os protagonistas são o Filho do Homem e o Diabo, sendo que este prossegue até um pouco antes de iniciar a eternidade, quando será preso e lançado no lago de fogo e enxofre (Ap 20.10).

Tendo toda esta dimensão em mente, no tempo e no espaço, percebemos que a Bíblia é escrita para todos os seres vivos, de todas as épocas. E, neste caso, estamos incluindo não só a humanidade, como também a todo o universo. Alguém pode estranhar que, em sendo a Bíblia escrita em linguagem humana, possa alcançar seres animados, inanimados, visíveis e invisíveis, contudo é esta a amplitude dada pelo salmista: “Louvai-o, sol e lua; louvai-o, todas as estrelas luzentes” (Sl 148.3).

Se nós, usando nossas palavras, damos ordem aos nossos animais de criação, pedindo que eles se comportem, porque não podemos ordenar que adorem a Deus? Alguém pode se perguntar: -como este animal entendera esta linguagem? Bem, este não é um problema que nos pertence. O salmista apenas exortou o sol a louvar ao Senhor, como isso dará cabo, não sabemos.

Mas quero trazer outro texto que declara estarem os seres animados e inanimados, visíveis e invisíveis, respondendo a este chamamento divino proveniente da palavra de Deus. Leia por você mesmo:

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. (Rm 8.20-22)

Quero chamar sua atenção para esta realidade. Paulo afirma que a criação geme de angústia. Ele está fazendo menção de sentimentos próprio dos humanos. Não sei como pode ser este gemer, mas se há um terremoto, penso que se assemelha muito a isso; se vemos um vulcão em erupção, também é uma forma de gemido; se ouvimos o volver do vento, não deixa de ser um gemido. O mais importante é saber que todos estes gemidos acontecem porque a criação intuí que os filhos de Deus serão libertos para a glória de Deus. Paulo aqui faz menção do arrebatamento e da ressurreição dos mortos, dos corpos glorificados que haveremos de receber.

Sabe amigo, nós não temos como dimensionar a amplitude de tudo quanto há nas escrituras, pois Deus está, por meio dela, falando a todos os homens, de todas as eras, em todas as condições. Penso que certas coisas que foram escritas atenderam um púbico alvo muito específico e hoje nos parece palavras estranhas, por outro lado temos compreensão de verdades que os antigos jamais pensaram ser possível conhecer.

Tudo isso faz com que nos aproximemos da Bíblia em adoração e em humildade, pois não podemos ter a pretensão de sabermos tudo que procede das escrituras. Jesus, fazendo menção a este estado de espírito que deve fazer nortear a nossa leitura das escrituras, fez esta extraordinária oração: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11.25).

Ser pequenino, nesta amplitude, pode significar aqueles que chegam ao conhecimento de Deus por meio de um único versículo ou então por aquele que conhece a Bíblia de Gênesis ao Apocalipse, contudo na dimensão do seu período histórico, ou ainda daquele que conhece a história na perspectiva que vem desde a fundação do mundo. Não importa qual seja esta amplitude de conhecimento, ainda será nada diante de tudo que a Bíblia revela a cada um daqueles que viveram em todas as épocas.

Leave a Comment