Comentários em aos Hebreus

Aprendendo a andar com Deus

Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado. Porque nos temos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos. (Hb 3.12-14)

Caro amigo! Dileta amiga! Somos chamados a andar com Deus do mesmo modo como fez Enoque antes do dilúvio. Este foi o sétimo descendente depois de Adão. Duas vezes é mencionado que acerca deste fato, mas um texto me chama muito atenção. Permita-me compartilhar com você:

Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. (Gn 5.22)

Quero salientar com este verso que ter família, mesmo numerosa, não é nenhum impedimento para alguém andar com Deus, muito menos a sua longevidade, pelo contrário, quando mais próximo estiver do Senhor, maior será seu desejo de conhecê-Lo. Talvez você me pergunte: – como se dá este caminhar com o Senhor? Para exemplificar quero trazer à memória a atitude de Neemias diante do rei ao expor seu plano de restauração de Jerusalém. Neemias tomou conhecimento da desolação de Jerusalém em consequência do cativeiro babilônico. Desconsolado buscou a Deus em oração e jejum para que ele próprio pudesse fazer parte da restauração desta cidade, mesmo sendo copeiro do rei da Pérsia, por volta do ano 443 a.C.. Um dia esta oportunidade chegou quando o rei inquiriu acerca de sua tristeza. Neemias, antes de expor seu plano orou rapidamente ao Deus dos céus, então falou com o rei. Ele não só pediu para ser enviado a Jerusalém com o propósito de reedificar a cidade, como também pleiteou recursos financeiros necessários para este grande empreendimento, ao que foi atendido pelo rei.

Se observarmos o comportamento de Neemias, ele tinha clara percepção que Deus haveria de interagir em suas circunstâncias, movendo pessoas e recursos em direção ao propósito que tinha em mente. Sua rápida oração a Deus no instante em que falava com o rei demonstrou que Neemias tinha convicção que o Deus dos céus ouvia seu pleito e haveria de agir de imediato. E com base em que Neemias tinha esta convicção? Leia por você mesmo:

Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina. (Pv 21.1)

Nós podemos estender este verso a todos os homens revestidos de autoridade, mesmo a qualquer ser humano. Em última instância quem determina o firmar os passos é o próprio Deus. Quando confiamos em Sua bendita providência, sabemos que as circunstâncias hão de concorrer em conjunto com os propósitos divinos para com nossas vidas. Andar com Deus é estar consciente desta dimensão. Por outro lado, andar com Deus implica também em permitir o Senhor trabalhar com todas as instâncias de nosso ser, seja espiritual, emocional, intelectual e, mesmo, física.

Em relação ao íntimo do nosso ser, uma das áreas que nos trazem maior incomodo diz respeito ao nosso emocional. Somos continuamente assaltados por angústias, tristezas, decepções e coisas semelhantes, que abatem nosso ânimo, paralisam nossas atitudes, exaurem nossas forças. Em que pese o fato das emoções ganharem evidência em nossa percepção sensorial, via de regra, elas são reflexos dos pensamentos que nos assaltam. Neste aspecto o apóstolo Paulo nos instrui que não podemos deixar nossos pensamentos correr a esmo, antes é preciso conduzir cada um deles cativos em obediência a Cristo. Esta instrução é tão preciosa que cabe-nos ler em sua íntegra:

Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão. (II Co 10.3-6)

Não percamos a conexão: nossas emoções são determinadas por nossos pensamentos que precisam ser levados cativos em obediência a Cristo. Ou seja, é necessário que lideremos o tipo de pensamentos que devemos manter em nossa mente. Por fim, os pensamentos são decorrentes de nossas crenças mais profundas. É neste ponto que entra a insistência das exortações de Paulo em continuamente renovarmos nossa mente ou, em outros termos, o espírito de nosso entendimento (Ef 4.23). E, quando colocamos em prática esta disciplina espiritual colocamos em curso o mistério da transformação do nosso ser mediante o poder de Deus para nos fazer conformar com a imagem de Cristo. Paulo trata deste aspecto na seguinte passagem bíblica:

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (II Co 3.18)

Quando nós temos por referencial a palavra de Deus, buscando conhecer de forma racional, com maior profundidade, os benefícios trazidos a nós decorrente da cruz de Cristo, então a glória de Deus se torna como um espelho que molda nosso homem interior. Andar com Deus é nos permitir passar por estes processos de intercessão, renovação e transformação interior. Lembre-se que Neemias orou rapidamente a Deus antes de dirigir suas palavras ao rei, este mesmo procedimento deve guiar todas as condicionantes de nossas circunstâncias. Exemplificando, digamos que estejamos passando por um período de angústia sem conseguir compreender suas razões, muito menos debelar seus efeitos. Como proceder em situação como esta? O salmista, em circunstâncias de tristeza de alma, fez a seguinte oração ao Senhor:

“Volta-te para mim e tem compaixão, porque estou sozinho e aflito. Alivia-me as tribulações do coração; tira-me das minhas angústias.” (Sl 25.16,17).

Note como o salmista tinha consciência da dificuldade de interromper os sentimentos de aflição que assaltavam seu ser. Se tomarmos consciência que as aflições podem ser decorrentes de padrões de pensamentos, fruto de crenças interiores, haveremos de perceber a dificuldade em tomarmos por nós mesmo uma decisão que interrompa aflições como estas. Então o salmista, conhecedor das complexidades de seu íntimo, recorre a Deus. Outro salmista demonstra a confiança que tem em fazer este tipo de pedido ao Senhor: “Na minha angústia, clamo ao SENHOR, e ele me ouve” (Sl 120.1). Portanto andar com Deus é confiar nas Suas intervenções em meio aos relacionamentos que temos, como também colocar o íntimo do nosso ser diante dele para que o Senhor possa atuar nos transformando na imagem de Cristo.

É por ter este tipo de fé no agir de Deus que o autor aos Hebreus nos exorta que não podemos ter entre nós pessoas que negam este mover de Deus, porquanto isso poderá solapar nossa confiança em Deus, movendo nossos olhos de Cristo para nós mesmos. Aqui chamo sua atenção para um detalhe importe: nós julgamos nosso relacionamento com Deus pelas coisas que fazemos. Assim, se estamos indo à igreja com certa regularidade, se lemos a palavra de tempo em tempo, se fazemos algumas orações ao Senhor, julgamos satisfatória nossa fé. Contudo andar com Deus é mais profundo que isso, diz respeito ao modo como nos relacionamos com ele em nível de nosso espírito humano, nossa mente e nosso coração. Entenda, o Espírito de Deus habita em nosso espírito humano com o propósito de revelar Cristo em nós. Para que possamos captar esta revelação nossa mente precisa estar disposta a meditar na palavra de Deus para que ela se torne o nosso referencial existencial. Com base neste referencial somos confrontados não só em relação as nossas interações exteriores, com pessoas, procedimentos ou propósitos, como também com nossas emoções, pensamentos e crenças.

E como todo este relacionamento está acontecendo em nosso íntimo, é muito fácil passar muito tempo sem que invoquemos esta presença divina em nós. Dai o autor aos Hebreus de contínuo declarar que todo este processo se dá “se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança” (Hb 3.6). Entenda, não estamos falando de procedimentos externos de estar ou não em dado lugar, mas de uma disposição interna de buscar ou não a presença de Deus de contínuo em todas as áreas de nossa existência. E é neste aspecto que surge a orientação diária de nos exortarmos diariamente uns aos outros não sermos endurecidos pelo engano do pecado.

O engando do pecado referenciado pelo salmista não diz respeito primariamente aos pecados em si, em coisas como aquelas que são listadas nas obras da carne, portanto não estamos falando, por exemplo, de prostituição, impureza, lascívia e coisas que se seguem a lista de Gl 5.19 a 21. Antes estamos falando de algo que antecede a este tipo de obra. Talvez você me pergunte: – se não se trata de obras de carne, o que pode vir antes disso? Permita-me trazer um texto para que possamos entender este ponto:

Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas. (Jr 2.13)

É muito importante compreendemos a perspectiva do profeta porque é com base neste entendimento que andamos com Deus. Só existem dois tipos de pecados na Bíblia: o primeiro é indispensável para que qualquer outro pecado seja cometido diz respeito ao afastarmos de Deus. Note que é esta a exortação do autor aos Hebreus, que ninguém nos afaste do Deus vivo. Todos os outros pecados são uma só coisa: cisternas rotas que não retêm água. Ou seja, para se cometer por exemplo, a obra da carne da mentira, antes foi necessário que esta pessoa tenha se afastado do Deus da verdade. Dai o autor aos Hebreus terminar sua exortação em uma condicional, só haveremos de andar com Deus se tão somente “guardarmos firme, até ao fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos” (Hb 3.12-14). E, como esta confiança diz respeito a nos tornarmos na imagem de Cristo, é preciso cultivar de contínuo o relacionamento íntimo com o Senhor e contínua conversa com Ele para que o próprio Senhor nos ajude e nos conduza neste processo de transformação mediante o poder de Deus.

Comente este texto, isto me ajudará desenvolver outros aspectos do texto que não me foram percebidos. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

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