Reflexões

As implicações em reparar nossa vocação

Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; (I Co 1.26)

Paulo nos conclama a reparar em nossa vocação. É importante ter em mente que a palavra “reparar”, em grego transliterada por “blépō”, tem como significado observar atentamente, ser possuído por uma visão, ter o poder de perceber pelo uso dos olhos, ter percepção dos resultados espirituais no mundo físico, atentar para as realidades espirituais e imateriais para, por meio delas, tomar medidas necessárias em sua existência, conhecer por experiência, ver com os olhos da mente (biblehub.com e studylight.org). Quero destacar a expressão: “ser possuído por uma visão”. Permita-me fazer um comparativo. Certa feita Jesus curara um homem e lhe perguntou: – Vês alguma coisa? Ao que o cego em processo de cura respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando. (Mc 8.23,24). Este homem mirou o vulto à sua frente e, sem discernir ao certo o que era, processou sua memória recorrendo as imagens de outrora. Concluíra então que aqueles borrões pareciam com árvores andando.

Outra cena equivalente a esta se passou com Barnabé. Ele fora chamado para ir a Antioquia avaliar o crescimento da igreja. Vamos embarcar nesta viagem. Estamos caminhando à pé pelas ruas empoeiradas desta grande cidade, capital da Síria, a terceira maior do império Romano, segundo Flávio Josefo, historiador da antiguidade. Cruzamos por um dos maiores templos romanos; passamos por inúmeras casas de banhos e, finalmente, chegamos em um dado lugar onde a igreja estava reunida. Passamos pela porta e, o que vemos? Se você estivesse entrando em qualquer templo da atualidade, nestes locais de culto que podem comportar de 200 a 4.000 pessoas, com o que iria se deparar ao cruzar a porta? Diria como o cego em processo de cura: – vejo homens como árvores louvando a Deus? Ou então: – vejo pessoas adorando a Deus. Barnabé, ao se deparar com aquele povo, exclamou – vejo a graça de Deus se manifestando (At 11.23). Barnabé era possuído por uma visão, incapaz de ver por olhos naturais, antes enxergava a realidade com os olhos da mente. Paulo, mais tarde, sendo impactado pelo modo como Barnabé percebia a igreja, incorporou este modo de ver em suas orações:

iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; (Ef 1.18,19)

A oração de Paulo é para que aprendamos a vermos a igreja com os olhos do coração. Geralmente, quando a consideramos, muitos de nós tendem a fazer severas críticas para com a igreja. No topo da lista criticam os políticos cristãos corruptos e os pastores mercadejantes da fé; os membros adúlteros e dizimistas infiéis; os geradores de escândalos e os propagadores de fofocas; e por ai vai. A lista é longa. Então, quem assim a considera acaba por tentar promover movimentos para expurgar este tipo de gente, dividindo ainda mais o corpo de Cristo, pensando consigo que o fazem por motivos justos. E, os que assistem de camarote fazem longas digressões sobre os malefícios que os de mal testemunho trazem a igreja do Senhor. Ainda que todos estes libelos sejam verdadeiros, há um sério problema subjacente que precisa ser considerado.

Tendo este quadro em mente, tão comum em nosso meio, vamos trazer outro conjunto de visões para que possamos compreender quão trágico é este tipo de diagnóstico. Pergunto-lhe: – O que Jesus faz hoje no céu? Eis a resposta: – Jesus vive para sempre para interceder por nós (Hb 7.25). Por nós quem? – A igreja, corpo de Cristo, no qual Ele próprio é o Cabeça. Agora, o que faz Satanás hoje no céu? Eis a resposta: – Ele acusa os irmãos dia e noite (Ap 12.10). Então temos dois atores no céu em plena atividade, Jesus Cristo, o Grande Sumo Sacerdote, intercedendo por nós e Satanás, o Diabo, nosso terrível adversário, nos acusando diuturnamente. Tendo este quadro em vista devemos nos perguntar agora qual é nossa posição na terra. De que lado estamos? Da intercessão ou da acusação? Como olhamos para a igreja? Considerando-a como a plena manifestação da graça de Deus ou cheia de defeitos, máculas, pecados, iniquidades e coisas semelhantes? Dependendo do modo como tem sido nossa avaliação, podemos considerar se estamos ou não reparando nossa vocação. O apóstolo Paulo, na introdução de sua carta dá algumas pistas aos coríntios de como esta vocação precisa ser considerada:

à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: (I Co 1.2)

Primeiro Paulo coloca em foco que estamos diante da igreja de Deus que cultua em dada localidade. Se é de Deus, então temos de considera-la a luz da palavra de Deus. Leia isto:

Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. (Rm 14.4)

Creio que todos nós jamais aceitaríamos um irmão alcoolizado. Se ele for vencido pelo vinho (Pv 20.1) e estiver vendo coisas esquisitas ou falando perversidades (Pv 23.33), por certo, tal irmão seria digno de condenação, quem sabe até de exclusão do seio da igreja, porquanto ninguém suportaria um mal testemunho. Vamos ler como alguém assim foi tratado e quais as consequências:

Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha. Bebendo do vinho, embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos. Então, Sem e Jafé tomaram uma capa, puseram-na sobre os próprios ombros de ambos e, andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem. (Gn 9.20-23)

Noé embriagou-se ao ponto de ficar desnudo em seu leito. Seu filho Cão viu a cena e a todos contou, profanando a nudez de seu pai. Outra foi a atitude de Sem e Jafé. Aproximaram-se andando de costas e cobriram a nudez de seu pai. Aplicando ou estamos como Cão, propalando em alto e bom som, a todos, indistintamente, os males que adentram e apoderam os irmãos e irmãs na igreja, incorrendo no risco de ser tão amaldiçoados como Cão o foi, ou então vamos agir como Sem e Jafé a luz do ensino do apóstolo Pedro:

Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados. (I Pd 4.8)

Quando estamos conscientes que a igreja pertence a Deus, então haveremos de ponderar nossas falas e, se algo houver a ser tratado, o faremos com base na exortação do apóstolo Paulo:

Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. (Gl 6.1)

Então haveremos de compreender a sequência da visão que Paulo transmitiu aos coríntios: – somos santificados e chamados para sermos santos e, para que isto seja possível, devemos ser conhecidos como o povo que invoca o nome do Senhor (I Co 1.2), porquanto “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13).

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