Comentários em aos Hebreus

Certos ministérios só podem ser exercidos por quem é chamado por Deus

Porque todo sumo sacerdote, sendo tomado dentre os homens, é constituído nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens, para oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados, e é capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele mesmo está rodeado de fraquezas. E, por esta razão, deve oferecer sacrifícios pelos pecados, tanto do povo como de si mesmo. Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão. (Hb 5.1-4)

Caro amigo! Dileta amiga! Nosso tema é o sumo sacerdócio e seu ministério. Já temos ressaltado que o sumo sacerdote é um homem escolhido por Deus segundo critérios divinos para se colocar a favor dos homens diante de Deus. Fizemos referência ao exercício de sua função sacerdotal, seja oferecendo dons, seja sacrificando cordeiros por seus pecados e pelos das autoridades e do povo, seja queimando incenso diante do Senhor no Santo dos santos, sempre com o objetivo de alcançar o favor do Senhor. Destacamos também que este sumo sacerdote era também homem de carne e sangue, portanto sujeito a morte, como todos os homens o são. E é este último aspecto que o autor aos Hebreus coloca em evidência no texto em epígrafe.

Para compreendermos esta passagem bíblica, iniciemos pelo coração deste texto, a honra que Deus dá a quem exerce o sumo sacerdócio. Isto porque nas coisas concernente ao mundo natural temos a tendência de colocar em foco o nosso direito de escolha. Ressaltamos a importância de escolhermos a profissão que mais atende nossos interesses, o conjugue que desperta nosso amor, a residência que agrada nosso bem estar, o estilo de vida que nos traz realizações. Quando em cada uma destas grandes vertentes da vida temos a convicção que é fruto de nossas escolhas, nos damos por bem sucedidos. Implícito em todas as escolhas está o exercício de nosso livre arbítrio.

Para colocar o livre arbítrio no seu devido foco devemos nos lembrar, como já foi demonstrado, que na essência da constituição humana está sua índole ao serviço. Isto porque sendo colocado neste planeta com a ordem de exercer domínio o homem precisa se colocar na condição de servo de Deus, visto estar cumprindo uma ordem ao exercer o governo sobre este mundo, devendo, portanto, tal como um mordomo, prestar contas ao Seu Criador. Esta obrigação não foi concedida como uma imposição, visto que o homem criado tinha a prerrogativa de recusar-se a colocar neste serviço. O primeiro homem rebelou-se contra a soberania divina trazendo o flagelo da morte para este mundo. Desde então o livre arbítrio ficou inteiramente comprometido com o pecado, sendo geralmente guiado pelas paixões ou concupiscências que governam os sentidos do homem natural. Tiago trata desta questão ao escrever:

Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. (Tg 1.13-15)

Com a queda o livre arbítrio ficou submetido a este processo de tentação que resulta na concepção do pecado e, por consequência, na morte em suas diferentes variantes. O autor aos Hebreus faz referência a este tipo de atitude ao mencionar a incredulidade do povo de Israel durante sua jornada no deserto, após sair do Egito. Esta foi a avaliação divina do comportamento deles naquele período:

Por isso, me indignei contra essa geração e disse: Estes sempre erram no coração; eles também não conheceram os meus caminhos. (Hb 3.10)

Se é fato que nosso livre arbítrio foi maculado pela queda, agora ele é restaurado pela regeneração que há em Cristo Jesus. Mas só seremos capazes de exercê-lo no âmbito espiritual se conhecermos os caminhos do Senhor, caso contrário vamos nos comportar conforme os ditames de nossas paixões naturais, como fizeram os israelitas no deserto. Precisamos compreender, em que pese o fato de sermos regenerados, nosso ser não é imunizado contra as paixões que assolam nossa carne. Dai a importância de termos um sumo sacerdote diante de Deus, pois ele é alguém capacitado em condoer-se de nossas fraquezas, porquanto, no caso do Antigo Testamento, o próprio sumo sacerdote era tentado nas mesmas coisas que os israelitas eram.

Assim, se o livre arbítrio é uma característica inata no ser humano, nas realidades espirituais ele não é fator preponderante senão quando se coloca em sujeição as ordenanças divinas. É importante fazer esta o observação porque na atualidade se vê o agravamento de uma tendência que existe deste que a igreja foi constituída. É muito comum hoje em dia uma pessoa se autoproclamar evangelista, pastor ou mestre para exercer o ministério cristão. Sob a correta compreensão que todo cristão é, em si mesmo um sacerdote diante de Deus, estes líderes assumem para si a incumbência de se proclamarem chamados para um ministério específico. Por conta da concepção que para o exercício da obra de Deus basta a boa intenção de alguém, igrejas e ministérios são criados a profusão, com as mais diferentes variantes, corpo de doutrina e práticas espirituais.

Precisamos compreender que no reino espiritual não existe este tipo de liberdade, ninguém pode constituir-se ministro sem que Deus o tenha chamado especificamente para exercer dado ministério. Por isso o autor aos Hebreus chama atenção para um fato singular, no Antigo Testamento, no ministério sacerdotal, ninguém podia chamar para si a honra de exercer uma função sacerdotal sem ter sido diretamente comissionado por Deus para este fim. O apóstolo Paulo faz menção deste princípio como aplicável também no seio da igreja conforme podemos ler:

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres (Ef 4.11)

Observe a ênfase do apóstolo Paulo na escolha destes ministros. Em primeiro lugar a pessoa não se autoproclamou, antes foi chamada por Deus para exercer um dom específico dentre os cinco citados: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Por fim, dentre todos na igreja, somente alguns são chamados para este ofício, portanto sob esta ótica estes cinco ministérios são restritos aos chamados por Deus. Contrariando este princípio é comum se observar em algumas igrejas que, em sendo o pastor casado, sua esposa automaticamente é ungida como pastora para exercer conjuntamente com ele o ministério, contudo o chamamento é individual e não extensivo por afinidade.

Aqui cabe uma observação. Com base neste verso muitos advogam que a igreja contemporânea só exerce sua plenitude se tiver em seu seio estes cinco tipos de ministros. Ocorre que Paulo cita no capítulo 4 estes cinco ministérios, contudo no capítulo 2 Paulo escreveu que a igreja cresce no fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Senhor Jesus a pedra angular. Como por definição do Novo Testamento os apóstolos escolhidos só eram contados entre aqueles que testemunharam a ressurreição de Jesus Cristo, o ministério apostólico só foi exercido no primeiro século, como também o ministério profético. Assim os únicos ministérios que vigoram na atualidade a luz do Novo Testamento é o de evangelista, pastor e mestre. O próprio Senhor faz um questionamento desta natureza quando diz:

Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis. Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único? (Jo 5.43,44)

Aqui Jesus declara que o exercício de Seu ministério terreno foi feito por autoridade delegada de Deus, contudo entre os homens é comum uns concederem glórias a outros sem, contudo, buscar o cerne da vontade Deus, portanto, sem buscar a glória que vem do Deus único. Em outro lugar disse Jesus:

Quem fala por si mesmo está procurando a sua própria glória; mas o que procura a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e nele não há injustiça. (Jo 7.18)

Jesus, neste texto, faz uma observação que se torna em uma pergunta retórica para cada um de nós: o que de fato estamos buscando diante de Deus? Queremos que o Senhor resolva cada um de nossos problemas ou desejamos ser a imagem e semelhança do Filho de Deus? A pergunta se faz necessária porque o autor aos Hebreus já demonstrara que a incredulidade dos israelitas no deserto decorria do fato deles buscarem tão somente satisfazerem suas necessidades terrenas, sem contudo buscar os propósitos divinos para com eles. Enquanto que a intenção do Senhor era de fazê-los tomar posse de uma terra que manava leite e mel, eles só estavam interessados em manter o mesmo estilo de vida que tinham no Egito, isto é, uma vivência governada pelas paixões terrenas. Tanto é que, em Moisés ficando mais tempo do que o esperado na presença de Deus para receber a lei de Deus, os israelitas logo se voltaram a um bezerro de ouro para retratar como sendo o Deus que os libertara do Egito e, diante deste falso deus, liberando todas suas paixões secretas como podemos ler:

No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se. Então, disse o SENHOR a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado; fez para si um bezerro fundido, e o adorou, e lhe sacrificou, e diz: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito. (Ex 32.6-8)

Aqui podemos notar a principal diferença entre quem é chamado por Deus para o exercício do ministério e quem não é. Enquanto que o primeiro eleva o espírito para estar na presença de Deus, o outro se deixa influenciar pelas paixões deste mundo, sem se importar com a glória de Deus.

Comente este texto, isto me ajudará desenvolver outros aspectos do texto que não me foram percebidos. Compartilhe com seus amigos e amigas. Vejo você no próximo texto.

2 Comentários
  • Antônio Medeiros
    julho 22, 2018Responder

    Muito bom. Poderia escrever sobre a pedra angular. Qual o sentido deste “angular” ?

    • Cezar Andrade Marques de Azevedo
      julho 22, 2018Responder

      Louvado seja Deus por seu comentário. Estarei escrevendo um artigo sobre a pedra angular.

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