Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 10.10

Jo 10.10

"O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância." (Jo 10.10). Jesus traçou uma linha demarcatória entre o bom Pastor e o estranho, ladrão e salteador. Jesus é a referência para entender esta linha, pois um de seus objetivos foi o de redefinir o conceito de vida. No grego este conceito é distinguido por duas palavras diferentes: "psuché" e "zoe". Ambos os termos são traduzidos para o português como vida. "Psuché" diz respeito a vida da alma ou vida natural. Este é o tipo de vida concedida a todo ser humano, indistintamente. A vida natural tem o ciclo que lhe é próprio: nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. O drama deste tipo de vida é que depois da morte vem o juízo final e a sentença para a segunda morte (Hb 9.27, Ao 20.15). Por outro lado "zoe" é a vida dada por Deus ao crente no ato de sua conversão por receber Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Este indivíduo passa nesta confissão pelo novo nascimento. Neste caso ainda que esta pessoa morra ela será ressuscitada para a vida eterna. Em síntese ou a pessoa tem a vida que vem de Deus ou ainda permanece tão somente com sua vida natural. Se este for o caso esta pessoa já está condenada e, morrendo nesta condição, seu futuro é a morte eterna. É por causa deste trágico destino da humanidade que Jesus veio: "A vida estava nele [em Jesus, o Verbo que se fez carne] e a vida era a luz dos homens." (Jo 1.4). Portanto para compreender a diferença entre vida "psuché" e vida "zoe" precisamos ter Jesus como ponto de referência. E como notamos esta diferença? Do ponto de vista da vida em si não há como perceber esta diferença. E por que não? O mundo compara, por exemplo, a vida de Jesus com as dos grandes expoentes da humanidade. Neste sentido Jesus é citado juntamente com Mahatma Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, dentre outros. Jesus é visto como uma mente iluminada, portador de consciência cósmica, um ser que alcançou elevado nível de evolução.

Temos dito que se o ministério terreno de Jesus for o elemento de verificação da importância de Jesus, Ele poderá ser comparado a outros grandes nomes da história, como Mahatma Gandhi. No entanto o verdadeiro padrão de comparação não é com o seu ministério terreno, mas com sua morte. E com base em que podemos fazer esta afirmação? Certa feita Jesus perguntou aos discípulos quem ele era. Os discípulos responderam: "E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos profetas" (Mc 8.28). E o que aconteceu quando Jesus morreu? Todos seus discípulos fugiram assustados. Jesus previu este comportamento dos discípulos: "… Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas." (Mt 26.31). Esta dispersão é uma das grandes evidências que Jesus, visto tão somente por seu ministério terreno é elemento causador de frustrações. Tanto é que, ao Jesus aparecer ressurreta aos discípulos no caminho de Emaús, eles disseram de Jesus, como um lamento: "Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam." (Lc 24.21). Este lamento evidência que considerar Jesus tão somente por seu ministério terreno iguala Jesus aos grandes homens da história. Por que é tão importante evidenciar este aspecto da impressão acerca de Jesus? Porque o grande diferencial entre Jesus e o resto da humanidade é sua ressurreição. Jesus é considerado o primogênito dentre os mortos como está escrito: "Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia" (Cl 1.18).

Temos dito que o principal diferencial de Jesus Cristo, enquanto Filho do Homem, foi sua morte e ressurreição. Tendo Jesus por referência, todos que passaram por nossa vida e nos ensinaram alguma coisa que afetam nossa vida espiritual trazem grande chance consigo de serem ladrões e salteadores. Estes vêm para matar, roubar e destruir. Talvez você não esteja entendendo a natureza desta batalha porque não conseguiu ver as implicações da verdade adulterada. Vou dar um exemplo bem simples da dificuldade de desenvolver este tipo de consciência. Quando vamos a um posto de gasolina colocar álcool no carro, do lado da bomba tem um recipiente nos mostrando a qualidade do álcool. Se ele tiver certa coloração significa que não é puro, o abastecimento não deve ser realizado. Se ainda assim a pessoa abastece, com o passar do tempo o motor do seu carro sofre os efeitos de um produto de baixa qualidade. Para o leigo no assunto é complicado perceber a relação entre o alcool adulterado e os efeitos no motor. Muitas outras variáveis interfere no desempenho do carro. A tendência, neste caso, é não fazer caso algum do dispositivo que mostra a qualidade do alcool ao lado da bomba de combustível. Assim é para com a palavra de Deus. Ela é regra de fé e prática. Ela deveria regular todos nossos pensamentos, comportamentos e atitudes. No entanto a pessoa pensa consigo: – Todo mundo faz, porque eu não posso fazer igual? É por perceber a dificuldade que o crente tem de entender o contexto da batalha espiritual pelo coração do homem, Judas escreveu: "Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos." (Jd 1.3).

Percebendo Jesus como diferencial, todo aquele que passou por nossa vida precisa ter sua influência sobre nós avaliada. E por que? Porque temos de batalhar pela fé dada aos santos (Jd 1.3). Quem consegue perceber que há o crente está sendo paulatinamente enfraquecido em sua fé? Quem é capaz de perceber que a fé é um campo de batalha? Por exemplo: hoje, na Internet você pode ouvir pregação de toda natureza. Antes de ouvir uma pregação, você examina a origem doutrinária de quem está expondo a Bíblia? Você consegue discernir a doutrina da palavra de Deus em uma pregação? Você consegue ouvir uma música e captar seu fundamento bíblico? Ou você acha que ouvindo tudo, você é capaz de filtrar só o que é bom? Considere o seguinte: entre as denominações podemos citar quatro relevantes: os batistas, os metodistas, os assembleianos e os presbiterianos. Se voltar a origem delas verá que cada uma delas se formou por meio de intensos debates teológicos. Estas denominações lutaram pela fé teologicamente sustentada. Hoje muitas igrejas são formadas sem nenhum fundamento teológico, muitas vezes apenas por diferenças pessoais. Por conclusão a batalha pela fé tem sido paulatinamente deixada de lado. Leia o que Paulo comenta a respeito: "Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles." (At 20.29,30). Estes homens que Paulo fez menção estão rodando por aí. Se cada membro da igreja estivesse protegido pela teologia de sua denominação não estaria ouvindo qualquer coisa. Como muitos acham que podem se cuidar devem atentar para o aviso de Jesus: tem muito ladrão e salteador por aí querendo roubar nossa fé em Cristo Jesus para nos fazer confiar em nós mesmo.

O maior diferencial entre Jesus e o ladrão reside no fato de Jesus ter experimentado a morte e ressuscitado. Pouca gente percebe o reflexo do evento que marcou o início do ministério terreno de Jesus. A primeira coisa que Jesus fez foi se deixar batizar nas águas. João Batista, no primeiro momento, se recusou batizar Jesus por achar absolutamente desnecessário (Mt 3.14). E por que João Batista não quis batizar Jesus, mas ser batizado por ele? Porque Jesus nasceu santo e viveu como tal, absolutamente sem pecado. Por ser santo Jesus não podia morrer em hipótese alguma, pois a morte é o salário do pecado. No entanto Jesus morreu por três motivos: primeiro porque esta era a vontade de Deus, seu Pai celestial; depois porque Jesus mesmo se determinou entregar sua vida para morrer; por fim porque Jesus assumiu a condição de Cordeiro de Deus, levando sobre si todos os nossos pecados. O batismo nas águas foi um cerimonial identificador com nossa condição de perdido, mortos em delitos e pecados. Quando Jesus foi submerso neste ato Ele estava se colocando em nosso lugar na morte para, ao sair das águas, nos justificar diante de Deus. Isto significa dizer que todo o ministério terreno de Jesus foi feito sob a égide da morte. Jesus prosseguiu calado como um cordeiro sendo conduzido a morte. Sua voz não se ouviu nas praças. Então como pudemos ouvir, por exemplo, o sermão do monte? Porque, depois de batizado, Jesus se apresentou cheio do Espírito Santo (Lc 4.1) e exerceu seu ministério terreno debaixo da unção do Espírito Santo (Lc 4.17-21). Ao agir sob a unção do Espírito Santo Jesus se tornou modelo sobre como devemos andar na presença de Deus, por isso a exortação do apóstolo Paulo: "E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito" (Ef 5.18).

Compreendido o diferencial de Jesus, sua morte e ressurreição, a vida que Jesus veio trazer é completamente distinta desta vida natural que temos. Jesus veio trazer vida eterna, vida de Deus. Jesus, fazendo referência a esta qualidade de vida disse: "Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida." (Jo 5.24). Observe que Jesus ofereceu a dádiva da vida eterna a duas condicionantes: ouvi-lo e crer ser Jesus o enviado de Deus. Isto porque Jesus é o único autorizado por Deus a conceder a vida eterna. Este ato de ouvir implica em reconhecer Jesus como sendo o bom Pastor, aquele que as ovelhas conhecem a sua voz. Faça uma reflexão consigo mesmo: em que seus pensamentos estão conectados? Você passa grande parte de seu tempo repensando sua vida ou meditando na palavra de Deus? Jesus não veio oferecer só vida eterna, mas um novo estilo de vida, cheia de significância. A qualidade de vida divina que nos é ofertado se assenta, em primeiro lugar, na paz de espírito, depois na alegria, pois está assentada na perfeita justiça de Deus. Se você passa a maior parte de seu tempo se sentindo culpado por algo ocorrido no passado, você ainda não experimentou esta qualidade de vida. Se você se alimenta da ansiedade e preocupação, você ainda não sabe o que é vida de Deus. Se você é amargurado, insurgindo contra alguém pelo mal que está pessoa lhe fez, ainda não tem a vida de Deus. Isto porque antes de você experimentar a vida de Deus, eterna e abundante, você recebe perdão divino. Este perdão é fruto da justiça divina. Ou seja, Deus encapsulou tudo que tinha contra você e lançou contra Jesus. Quando Jesus morreu na cruz, era você morrendo com Ele. Jesus morreu levando a sua culpa para você ter paz de espírito.

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