Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 10.11-13

Jo 10.11

"Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas." (Jo 10.11). A suma do que temos dito diz respeito a qualificação de Jesus. Para Ele ser o bom pastor teve de tomar as dores de suas ovelhas. Jesus dizia com frequência que precisava sofrer, morrer na cruz, para ser glorificado. Quando lemos o sermão do Monte nos admiramos com as palavras de Jesus, no entanto temos a tendência de ignorar aquela parte de parecermos perseguições. No entanto Paulo retoma esta verdade quando nos motiva dizendo: "fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus." (At 14.22). Na avaliação de muitos ministérios hoje em dia o verdadeiro cristão é aquele retratado como profissionalmente bem sucedido. Se tornou quase um crime passar por tribulações e dificuldades, no entanto é neste aspecto que nos identificamos com o Senhor. Paulo proclamou esta identificação ao escrever: "Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados." (Jo 8.17). Muitos descartam o sofrimento como senda cristã porque o homem naturalmente rejeita o caminho da cruz. São como a multidão que, sendo alimentada por Jesus com a multiplicação dos pães, saiu em busca de Jesus para não ter mais de trabalhar para viver. Precisamos entender que no plano da individualidade muitos prosperam, seja por sua competência, seja por conjunção de fatores favoráveis, seja por ser esta a vontade de Deus para este crente. No entanto esta não é regra para todo o povo. A regra do reino de Deus é prosseguir com lutas e dificuldades. O que conta não é quanto patrimônio adquirimos nesta vida, mas quanto de experiência tivemos com o bom Pastor, não importa o sofrimento que experimentamos.

Jo 10.12

"O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa." (Jo 10.12). Mercenário é alguém que trabalha por dinheiro, sem verdadeiro compromisso com a causa que defende. Para este tanto faz o lado que está, desde que seja bem pago. Em Israel a tribo de Levi tinha sido separada das demais tribos para exercer a função sacerdotal. Como esta era uma obrigação imposta a todo e qualquer levita, muitos deles cumpriam este ministério por obrigação, para ter o direito ao salário pelo serviço prestado. Por esta condição peculiar da tribo levítica, sua tarefa facilmente poderia tornar-se um fardo, ocupação assumida tão somente pelo pagamento dela derivada. Jesus expõe o mercenário primeiro porque o exercício do pastorado pode ser objeto de interesse financeiro. A pessoa, sem nenhum chamado pode achar por vem assumir o pastorado pelo salário que recebe. Ele pode ser um bom pregador, visitar algumas de suas ovelhas, mas não terá o coração no que faz. A tendência será ensinar aquilo que favorece sua permanência diante da igreja, não a verdade como ela é. A outra razão para Jesus expor o mercenário é porque este não tem compromisso com Deus. Ele não é pastor, não foi chamado para esta obra, não foi preparado por Deus para o ministério. As ovelhas não lhe pertencem, antes é alimentado por sórdida ganância, dominando o rebanho, lhe impondo cega obediência (I Pd 5.2,3). Os lobos são todos aqueles que querem tirar proveito do povo de Deus. Por exemplo: hoje a igreja se tornou uma entidade econômica passível de ter produtos e serviços. Aqui uma diferença: é possível ter a igreja como mercado desde que seja pelos mesmos moldes de qualquer mercado. Agora quando a venda é direcionada direto no templo, então a mercadoria não está chegando pelas vias do mercado, mas pelo constrangimento da venda direta na porta da igreja.

Jo 10.13

"O mercenário foge, porque é mercenário e não tem cuidado com as ovelhas." (Jo 10.13). O mercenário, ao fugir, abandona as ovelhas. Isto foi dito no verso anterior, pois ao fugir o mercenário deixou as ovelhas sob o ataque dos lobos. Mas neste verso, se considerarmos a junção destas duas sentenças, a impressão que temos é outra: o mercenário foge, de fato, mas não sai de perto de suas ovelhas. O mercenário é como o cego espiritual, ele atrai as ovelhas para si tão somente para levá-las ao precipício (Mt 15.14). Alguém pode perguntar – Como assim? Digamos que alguém queira adotar um comportamento contrário a palavra de Deus. Este questiona o pastor. Entre perder o membro e mostrar a verdade este pastor pode diplomaticamente dizer ser o comportamento uma questão de escolha pessoal, não encontrando nada na Bíblia que o condene. Assim a pessoa permanece no comportamento pecaminoso, referendado por seu pastor, levando outros a agirem igual. Com o passar do tempo esta igreja se descaracteriza, se tornando sem sal e sem luz para seu entorno. A igreja logo se torna, não o corpo de Cristo, mas uma associação de pessoas com um propósito: manter o pastor que lhes alimenta conforme as suas concupiscências, seus desejos intensos. O pastor está diante da igreja, não percebeu, mas o lobo já limpou o aprisco. Nesta igreja vidas não são transformadas na imagem de Cristo. Está igreja, para aumentar sua influência na sociedade, não mais o faz pela pregação, nem pela oração ou jejum, mas por influência econômica e política. Daí a eleger agentes para ocupar cargos políticos é um pulo. Do ponto de vista do mundo está é uma igreja poderosa, olhando dos céus, Cristo ficou do lado de fora batendo as portas. Neste caso de quem fugiu o pastor? Do próprio Deus, pois não suportou as pequenas e sucessivas disciplinas a que foi submetido. Ele deixou Deus de lado e se tornou dependente de si, de sua eloquência, de sua astúcia.

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