Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 10.14,15

Jo 10.14

"Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim," (Jo 10.14). Depois de Jesus definir o contexto, apresentar o ladrão, os salteadores, o mercenário e o lobo, Jesus reafirma sua autoridade. Ele é o bom pastor e fora dele não há outro. Sua obrigação é conduzir suas ovelhas, e não outro tipo de rebanho. Ele conhece cada uma de suas ovelhas e, se alguma se perder no meio do caminho, ela é encontrada. O importante a observar é que também a ovelha conhece seu bom pastor. Existe um íntimo relacionamento entre o bom Pastor e suas ovelhas, uma intimidade movida pelo som da voz do Pastor. Aqui surge uma pergunta: como a ovelha conheceu o bom pastor? Voltemos ao quadro inicial. Entrar no aprisco é entrar no reino de Deus. Jesus é a porta deste aprisco. Esta porta se localiza entre o ouvido e o coração porque a fé vem pelo ouvir a palavra de Cristo. E o que se ouve? O pregador contando a história da cruz. Nós estamos habituados a assistir filmes. Eles nos levam para diferentes épocas, portanto sabemos que há um passado longínquo com acontecimentos extraordinários que são narrados nos filmes. Do mesmo modo o pregador vem nos contar uma história que ocorreu a 2021 anos atrás. Ele nos conta que uma virgem emprestou carne para o nascimento do Filho de Deus, gerado pelo Espírito Santo no ventre desta mulher. Esta historia é iniciada por um evento maravilhoso. Tanto é que anjos apareceram naquela noite aos pastores anunciando este nascimento assombroso. Os anjos disseram: "é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor" (Lc 2.11). O desenrolar desta história termina na mais negra tarde da história, quando na cruz morre o Rei de Israel, o Messias esperado. Por três dias os discípulos ficaram como baratas tontas, sem saber o que fazer até descobrirem que Jesus ressuscitou. Esta parte da história é ainda mais inesperada. É possível conceber Deus viver na terra como Homem, mas morrer é um completo absurdo, ainda mais na cruz.

A história da cruz não é verossímil para o homem natural. Paulo fez menção deste fato: "Pois a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo…" (I Co 1.18). Devemos nos lembrar que o mundo antigo era agrupado em judeus e gentios. Mais adiante Paulo prosseguiu, destacando a índole de cada um: "Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria" (I Co 1.22). Nem por meio de milagres, nem por análise filosófica é possível compreender a cruz. Jesus contou uma parábola onde afirmou, ao final, que nem a ressurreição seria sinal suficiente: "Abraão, porém, lhe respondeu: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos." (Lc 16.31). Tudo fica muito estranho, pois Jesus disse que, ao ser levantando, falando de sua morte atrairia as pessoas até Ele (Jo 12.32). A suma do que está sendo dito é que não são os sinais ou discursos filosóficos que trazem salvação, mas a pregação da palavra de Cristo (Rm 10.17). E, ao ouvir a exposição da história da cruz com sua aplicação teológica, com a devida assistência do Espírito de Deus, é que somos convencidos da história e nos identificamos com ela. Os que ouvem esta história e creem, Deus, o Porteiro, abre a porta do aprisco, que é Jesus, para o crente entrar no reino de Deus. Neste instante o Espírito Santo passa a habitar no espírito humano recém criado do crente, em condição de preparar o coração deste crente para se tornar na consciente habitação de Cristo Jesus, o Messias, o Redentor. Aqui é preciso uma explicação. O ato de ser justificado e regenerado é um só e instantâneo ato, cuja obra é completa em si mesmo, porquanto foi realizada na cruz e manifesta por meio da fé no momento do ato de crer. A este processo se dá o nome de novo nascimento, acompanhado por meio de convicção interior da filiação divina. Neste ato nos tornamos ovelhas.

Jo 10.15

"assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas." (Jo 10.15). Jesus colocou o nível e profundidade do conhecimento que ele tem de suas ovelhas no mesmo patamar que Deus conhece o próprio Jesus e Jesus a Deus. Este é um aspecto da vida cristã pouco compreendido e explorado. A pergunta que devemos nos fazer é como se dá este relacionamento entre o Pai e o Filho porque nos servirá de pista para entendermos o relacionamento das ovelhas com Jesus. Há muitas maneiras de iniciar esta abordagem, mas convém trazer a memória um anseio expresso por Jesus: "Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei." (Jo 16.7). Jesus condicionou a vinda do Consolador ao seu retorno para o Pai celestial. Explicando sobre a vinda do Consolador, Jesus fez uma observação enigmática: "o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós." (Jo 14.17). O enigma apresentado por Jesus acerca do Espírito da Verdade diz respeito ao modo como o crente vem a conhecê-lo. No observe que o mundo não pode recebê-los por não o conhecer, no entanto o crente o conhece por tê-lo recebido, mas por Ele habitar no crente. Digamos que você está diante de alguém que nunca viu. O natural seria um amigo comum chegar até você e dar conhecimento quem é este desconhecido. Somente depois das devidas apresentações você o convidaria para entrar em casa. No caso do Espírito Santo não. Quando o crente o conheceu, Ele já estava habitando no crente. Como isso aconteceu? Voltemos ao quadro do rebanho junto ao seu pastor. Este rebanho foi capaz de identificar o seu pastor porque Ele deu sua vida por suas ovelhas (Jo 10.11). Jesus deu esta prova de amor ao morrer na cruz, sendo esta também a prova do amor de Deus por este mundo (Jo 3.16). Quem crer nesta verdade se torna habitação do Espírito Santo.

O conhecimento que o Pai tem do Filho e do Filho acerca do Pai é mediado pelo Espírito Santo. Este é o mesmo modo como se realiza o conhecimento entre o Pastor e suas ovelhas. Paulo trata desta questão em uma de suas cartas: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus." (I Co 2 10,11). É por causa da presença do Espírito Santo em nós que permite Paulo afirmar termos a mente de Cristo (I Co 2.16). Esta mente não é a nossa, mas interage com a nossa, trazendo iluminação da palavra, dando sentido ao texto bíblico e nos conduzindo a reais experiências com Deus. Para que pudéssemos ter este privilégio Jesus Cristo teve de morrer na cruz. Este morrer tem um significado muito profundo. Isto porque Deus não pode compartilhar a vida natural conosco porque ela ficou irrecuperavelmente comprometida com o pecado e a corrupção. No entanto o homem, via de regra, não percebe esta situação. Ele está tão habituado a ver seus pares viverem até idade adulta e se aposentar com algum grau de sucesso, que eles próprios desejam o mesmo. Para estes o máximo que se pode querer nesta terra é prolongar a vida, isto é, usufruir o máximo de qualidade de vida que este mundo pode oferecer. Na luta contra o avanço da idade tem de tudo: desde produtos, serviços e atividades para o corpo, como também específico para a mente. Alguns atrasam ainda mais o processo de envelhecimento por meio de intervenções cirúrgicas, dentre elas as mais cobiçadas: operações plásticas. Neste quesito o corpo pode passar pelos mais diversos tipos de modelações. As verdadeiras ovelhas não se deixam atrair por estes artifícios porque esperam pelo corpo glorificado.

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