Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 10.19-21

Jo 10.19

"Por causa dessas palavras, rompeu nova dissensão entre os judeus." (Jo 10.19). Como pode uma mensagem inspirativa causar dissensão? O problema é que nos habituamos com o texto sem refletir no contexto. Como Jesus começou seu discurso? Ele disse existir um aprisco com uma única entrada autorizada. Entrar por outro lado que não pela porta é coisa de ladrão e salteador. O curioso é a identificação do aprisco. Do ponto de vista natural é um cercado onde se recolhe as ovelhas de noite. Se lermos com atenção o texto os únicos personagens identificados são o bom Pastor, que é Jesus, e as ovelhas, que são aqueles que reconhecem a voz do pastor. Mais a frente Jesus menciona seu Pai celestial. Por dedução podemos identificar o Pai como sendo o porteiro. Em outro lugar Jesus disse que ninguém chega a ele senão trazido pelo Pai (Jo 6.44). Por inferência a outra passagens o ladrão é o diabo, isto porque Jesus o idênticos como sendo o homicida (Jo 8.44). Comparando este texto com a menção que o ladrão vem para matar, roubar e destruir, se entende que o ladrão é o diabo. Voltando então ao aprisco, este é o coração do crente. E por que o coração? Porque Paulo nos instruiu para orar para Cristo habitar em nosso coração (Ef 3.17). Por conseguinte o coração é o grande campo de batalha, razão de Salomão declarar que, acima de tudo, é o coração que precisa ser guardado (Pv 4.23). Observando todos estes elementos o que Jesus está de fato comunicando com sua audiência? Que há uma desconformidade com o que eles crêem com a verdadeira posição espiritual deles. Considere o seguinte: uma pessoa pode ser membro batizado em uma igreja, isto não garante que está pessoa tenha realmente compreendido a salvação, tenha recebido a Cristo, sido justificada, nascido de novo e entrado no reino de Deus. No entanto esta pessoa bate de pé junto que é salva. Ela não aceitaria a repreensão por não se enxergar verdadeiramente e, até porque está sendo enganada. Por isso a fala de Jesus gerou dissensão.

Jo 10.20

"Muitos deles diziam: Ele tem demônio e enlouqueceu; por que o ouvis?" (Jo 10.20). Jesus, diante de seu ensino sobre o aprisco das ovelhas, foi acusado de endemoninhado e insano. Em outros momentos Jesus recebeu acusações tão pesadas como estas: "… Tens demônio. Quem é que procura matar-te?" (Jo 7.20); "… Terá ele, acaso, a intenção de suicidar-se? Porque diz: Para onde eu vou vós não podeis ir." (Jo 8.22); "… Porventura, não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio?" (Jo 8.48). Jesus foi acusado de ser endemoninhado, insano, suicida, samaritano, isto é, gente da pior espécie, uma pessoa extremamente má. É muito difícil compreender como os discursos e milagres de Jesus pudesse acarretar acusações tão pesadas como estas. A primeira explicação pode ser encontrada na crescente radicalização da sociedade nós dias de Jesus. Esta radicalização é decorrente do distanciamento da religião judaica dos verdadeiros propósitos divinos. Deus entregou a Israel duas revelações importantes: a lei e o culto. A lei tinha por objetivo apontar o pecado para Israel arrependido encontrar conforto no culto por meio do sacrifício do Cordeiro. Com o tempo Israel julgou a si mesmo cumpridor da lei, sendo o culto apenas um referendo de sua pretensa justiça. Naquele tempo a visão de Israel acerca de si mesmo era como a do fariseu orando: "O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho" (Jo 18.11,12). Quem tem esta pretensa visão de si mesmo só pode ver Jesus como um insano, que fala o que não sabe. Quando o culto a Deus perde a noção do arrependimento, então nada mais resta senão o ego exaltado. Neste cenário a verdade dita por Jesus passa a ser vista como um arremedo de loucura. A voz de Deus não é mais ouvida porque o coração endureceu.

Jo 10.21

"Outros diziam: Este modo de falar não é de endemoninhado; pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?" (Jo 10.21). A dúvida geralmente esta recheada de incredulidade, se constituindo em impedimento para crer em Deus. Por que a dúvida tem esta característica? Observe a discussão que está sendo travada entre os judeus. Como eles chegaram neste impasse? Jesus esteve ensinando-os acerca do aprisco das ovelhas. Depois de Jesus encerrar sua exposição, os judeus se afastaram para discutir entre eles quem era Jesus, se Jesus era ou não um enviado de Deus. O primeiro grupo foi categórico em negar. Para eles Jesus era um homem mau, carregando nesta avaliação o que havia de pior, considerando-o endemoninhado. Por certo este grupo não estava nada receptivo para com as palavras de Jesus. A mente deles estavam obscurecida pelo engano da pior espécie. O outro grupo, aparente, abriu a possibilidade de Jesus ser enviado de Deus. Na avaliação deles as curas feitas por Jesus, como dar vista ao cego, eram indicativos que Jesus podia ser um homem de Deus. Este grupo, propenso a ter uma visão diferente, não fizeram uma avaliação positiva de Jesus. Negavam que Jesus podia não ser um endemoninhado, no entanto não se comprometeram em afirmar ser Jesus o Profeta. É por isso que os dois grupos estavam muito longe da verdade. Para o conhecimento espiritual a palavra dúvida nunca é instrumento de crescimento. Por quê? Sobre a dúvida Tiago escreveu: "… o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento." (Tg 1.6). Como proceder para conhecer aquilo que não se entende na palavra de Deus? Primeiro é preciso ouvir. Os dois grupos fizeram isso, ouviram Jesus explanar acerca do aprisco das ovelhas. Como o assunto foi absolutamente novo, nunca alguém antes falou daquele jeito, naturalmente questão são levantadas para possibilitar a compreensão. Ocorre que somente a palavra de Deus pode explicar a palavra de Deus, pois seu conteúdo é de natureza espiritual e celestial.

Existe questionamento e questionamento. Depois de Jesus falar sobre o aprisco das ovelhas houve dissensão entre os judeus. Como entender a discussão que se seguiu? Certa feita Jesus disse que a boca fala do que o coração está cheio (Mt 12.34). Podemos comparar a boca como galhos provenientes de uma única raiz procedente do coração. Os galhos que se formavam da discussão destes judeus tinham uma única raiz: a incredulidade. Eles jamais encontrariam luz na toada que seguiam. A incredulidade fecha a porta para a fé, é um deserto árido, sem água e sem vida. Que observa estes judeus discutindo podem facilmente concluir que jamais se colocariam nesta posição de incredulidade. Para compreendermos como as coisas espirituais são sensíveis, consideremos dois diálogos de teor eminentemente espiritual para perceber como a incredulidade é sorrateira. Zacarias questionou: "… Como saberei isto? Pois eu sou velho, e minha mulher, avançada em dias." (Lc 1.18). Maria fez o mesmo questionamento: "… Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?" (Lc 1.34). Ambos estavam conversando com anjos. Ambos foram informados que teriam filho. No entanto Zacarias foi repreendido por sua incredulidade e Maria não. Isto significa que não podemos fazer qualquer tipo de questionamento se não tivermos enraizado na fé. Ou aprendemos a palavra de forma proativa ou estamos fadados a cultivar a incredulidade. Como distinguir um do outro? Maria nos dá o indicativo: "… Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra…" (Lc 1.38). O que distingue o questionamento baseado na incredulidade e não é a disposição de obedecer a instrução da palavra de Deus, colocando-a em prática. Por isso disse Tiago: "Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos." (Tg 1.22). Ou se lê a Bíblia para praticar ou polemizar.

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