Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 2.1-12

Jo 2.1

"Três dias depois, houve um casamento em Cana da Galileia, achando-se ali a mãe de Jesus." (Jo 2.1). A harmonia dos evangelhos se trata da disposição dos quatro evangelhos em ordem cronológica. Olhando por este prisma e a luz desta passagem em João 2.1 os evangelhos apresentam Jesus com os seguintes eventos principais: a) sua preexistência; b) seu nascimento; c) sua adolescência; d) a pregação de João Batista; e) seu batismo; f) sua tentação no deserto; g) sua apresentação por João Batista; h) a chamada dos primeiros discípulos; então chega neste evento, i) o primeiro milagre. Com isso queremos dizer que Maria, mãe de Jesus, foi protagonista neste primeiro milagre. Aliás ela acompanhou todo o ministério terreno de Jesus, sua morte e ressurreição e, inclusive, a instauração da igreja primitiva, quando do derramamento do Espírito Santo, quando, desde então, a Bíblia não mais faz referência a ela. Quanto ao pai de Jesus, José, deve ter morrido bem antes do início do ministério terreno de Jesus, portanto Jesus deve ter chorado esta morte de alguém que lhe era tão querido. É interessante notar que quando Maria apresentou Jesus no templo ela recebeu uma profecia intrigante, que sugeria que Maria passaria por grande sofrimento e que ela própria se tornaria pedra de tropeço para muita gente como se pode ler: "(também uma espada traspassará a tua própria alma), para que se manifestem os pensamentos de muitos corações." (Lc 2.35). Hoje podemos entender a natureza deste sofrimento porquanto ela foi alcançada mitologicamente a uma posição que nunca quis ocupar, isto é, concorrer em igual dimensão como se redentora fosse junto com seu Filho só pelo fato de ter dado a luz a Jesus Cristo. Este estranhamento de posições se manifesta neste primeiro milagre feito por Jesus e só os que têm discernimento espiritual percebem a sutileza deste momento. Observe como Maria é citada neste evangelho: ela é apresentada como mãe de Jesus, denotando que sua existência só é significativa por estar associada com Jesus e não ao contrário.

Jo 2.2

"Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento" (Jo 2.2). É interessante notar que o primeiro milagre de Jesus se dá em um casamento. Isto porque depois de Deus ter criado o homem, posto ele em um jardim, dando-lhe a incumbência de nomear todos os animais, o colocou para dormir e dele extraiu uma costela, moldando carne em torno dela, criando a mulher, dando a ele por esposa. Agora o Verbo feito carne, o Deus que desceu dos céus, se fazendo homem, é convidado para um casamento. É por esta instituição estar no centro dos planos divinos que tem sido violentamente combatida. Na tradição judaica os preparativos para o casamento iniciavam-se um ano antes. Quando o homem ou seu pai escolhia uma mulher por esposa, este ia até ela fazendo o contrato de noivado diante de duas testemunhas. Então o noivo voltava para sua casa com o propósito de construir um cômodo nupcial, cuja obra levava um ano. Neste ínterim a noiva usava véu ao sair na rua como evidência de seu noivado, aguardando a qualquer momento o retorno do noivo para seu desposório, tempo este em que ela preparava seu enxoval. Naquele dia em que Jesus e seus discípulos foram à festa de casamento, qual não devia ser a alegria da noiva, depois de longa espera por àquela hora tão preciosa.

Jo 2.3

"Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho." (Jo 2.3). Faltar comes e bebes em uma festa de casamento é uma situação altamente constrangedora. Todavia, em sentido mais amplo, esta é uma situação corriqueira, pois o princípio motor da economia é a escassez. Quem já não teve conhecimento de produtores de leite descartarem o produto porque o preço caiu tanto que ficou inviável entregar a produção no laticínio. O que houve de singular neste casamento foi o fato de Maria dirigir-se a Jesus para expor uma necessidade. A este pleito damos o nome de oração, que significa o ato de apresentar a Deus sua petição diante da escassez, da dor, do sofrimento, da enfermidade ou de qualquer tipo de necessidade. O primeiro requisito da oração é conhecer a quem se dirige o pleito. Maria, mais do que ninguém, sabia que, apesar de ter oferecido seu ventre para o nascimento de Jesus, dando-lhe a condição de se fazer carne, Jesus, era, na verdade, o Filho de Deus feito Homem. Nós podemos padecer necessidade em tudo, buscar solução em todos os lugares, mas só quem conhece a Deus como o Provedor de todo universo recorre a Ele quando surge uma necessidade qualquer. A segunda razão de Maria ter se dirigido a Jesus está no reconhecimento que Deus anseia, se alegra, deseja, espera por um pedido nosso para mover sua graça e poder em atendimento ao nosso pleito. Estes dois requisitos foram expostos pelo autor aos Hebreus quando fez menção das condições necessárias para que uma oração seja levada diante de Deus: "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam." (Hb 11.6). É claro que o combustível para esta aproximação é a fé, por isso podemos dizer que Maria tinha profunda convicção que, ao dirigir seu pleito a Jesus o fazia ao próprio Deus.

Temos visto que Maria, ao dirigir-se a Jesus relatando não mais haver vinho para os convidados (Jo 2.3), esta petição era, na verdade, uma oração. Isto porque ela não se dirigiu a Jesus como sendo seu filho, pois se assim fosse ele teria ido até ao vinhateiro repor o estoque. Na verdade Maria tinha plena certeza que seu filho era, na verdade, o Filho de Deus. Observando o pleito por este ângulo podemos dizer que todas as conversas que os personagens bíblicos tiveram com Jesus, estando consciente que ele era o Filho de Deus, na verdade podem ser tipificadas como oração É importante ter esta noção porque assim podemos aprender como nos aproximar de Deus não só no sentido de pedir algo, como também esclarecer uma dúvida, aprender uma lição e, acima de tudo, ter comunhão com Deus em um tipo de relacionamento que só é possível mediante a oração. Outro aspecto a observar é que Jesus fora convidado para o casamento. Estavam com ele seus discípulos e sua mãe. No entanto nem quem o convidou, nem seus discípulos, mas tão somente sua mãe socorreu-se em Jesus para suprir uma necessidade. Portanto podemos saber tudo de Jesus, andar junto com Jesus e, ainda assim, ignora-lo quando surge uma necessidade, passamos por uma tribulação ou estamos diante de uma oportunidade. O modo como interagimos com Jesus em dada circunstância define o nível de fé que temos em Deus.

Jo 2.4

"Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora." (Jo 2.4). Esta cena é um reprise do evento que se deu aos doze anos de idade, quando Jesus permaneceu no templo e seus pais seguiram viagem, só dando por falta de Jesus um dia depois, vindo a encontrá-lo ao terceiro dia no templo, junto com os doutores. Naquela ocasião, diante da preocupação de seus pais Jesus respondeu: "Por que me procuráveis? Não sabeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?" (Lc 2.49). Isto demonstra que Jesus, desde muito cedo, tinha plena consciência de sua missão na terra, isto é, Jesus estava o tempo todo focado em seguir para o calvário, onde seria crucificado, sendo esta a referência ao que Jesus denominou "sua hora". Aliás, incluindo está passagem, Jesus repetiu esta expressão por sete vezes neste evangelho: Jo 7.30, 8.20, 12.23, 27, 13.1, 17.1. Em um destes momentos, no Getsemani, Jesus orava ao Pai sabendo da proximidade de sua crucificação quando usou desta expressão para sinalizar que estava próximo a sua morte na cruz: "Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora." (Jo 12.27). Assim Jesus, ao fazer menção desta hora para Maria a fez lembrar que todo o propósito do seu ministério estava vinculado a revelar suas qualificações como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É como se Jesus dissesse a Maria: "Mulher o preço deste milagre que me pede hoje é minha morte na cruz. Estás preparada para suportar este preço?"

Jo 2.5

"Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser." (Jo 2.5). Aqui é preciso colocar em foco a sequência dos fatos. Maria, mãe de Jesus, deu a Ele conhecimento que acabara o vinho naquele casamento. Em seguida ela se dirige aos servos orientando-os a seguir as instruções de Jesus. Isto depois de ouvir da parte de Jesus que ainda não chegará a hora dele, sendo esta hora uma referência velada a sua morte na cruz. Qual é o ponto aqui? Creio que muitos devem ter ouvido a seguinte expressão: "- temos de orar, mas também fazer a nossa parte". Esta expressão tem aparência de sabedoria, mas se constitui em uma manifestação de incredulidade. Quem pensa deste modo entende que, para Deus responder uma oração é preciso ajudá-Lo. Este tipo de entendimento decorre da dicotomia em dividir a realidade em natureza espiritual e natural onde cada esfera é determinada por competências distintas. Neste caso Deus age no mundo espiritual e o homem no natural. Na verdade está divisão é apropriada para os anjos e os homens. Paulo, por exemplo, fala de seres espirituais malignos nos lugares celestiais (Ef 6.12). Agora quando colocamos em evidência o Deus dos céus e da terra, o Soberano do universo, toda a realidade está em um mesmo plano. Com isso queremos dizer que para Deus agir todos os recursos do universo estão à sua disposição, inclusive cada um de nós. Com isso queremos dizer que para Deus responder uma oração tanto podemos ser parte da equação da resolução como absolutamente sermos ignorados, aguardando passivamente o agir divino. É nesta perspectiva que podemos compreender a ordem dada por Maria.

Maria orientou os servos fazerem tudo quanto Jesus ordenasse (Jo 2.5). Esta atitude proativa é fundamental para quem ora segundo a vontade de Deus. Isto porque o arcabouço desta vontade envolve a totalidade da existência. Com isso queremos dizer que precisamos agir com inteligência dentro do escopo das circunstâncias em que estamos inseridos por dois motivos: primeiro porque o Senhor está nos moldando em meio a estas mesmas circunstâncias, depois porque a providência divina pode se manifestar nos mais misteriosos caminhos, muitos deles traçados por nossas atitudes nestas mesmas circunstâncias. É deste modo que funciona o nosso trabalho colaborativo com Deus. Maria tinha convicção que o Senhor haveria de providenciar o vinho, mas não tinha menor noção de como Jesus faria. No entanto, habituada com as lides da casa, sabia que, seja como fosse, era mister ter carregadores para transportar o vinho. O que Maria fez foi alargar o tamanho do milagre agindo em direção ao propósito que havia apresentado ao seu filho, o Filho de Deus.

Jo 2.6

"Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas." (Jo 2.6). Se lermos este mesmo verso na versão Linguagem de Hoje teremos um entendimento melhor desta passagem: "Ali perto estavam seis potes de pedra; em cada um cabiam entre oitenta e cento e vinte litros de água. Os judeus usavam a água que guardavam nesses potes nas suas cerimônias de purificação." Pela quantidade de potes podemos ter noção da grandiosidade daquela festa de casamento, pois estamos falando de 480 a 720  litros. Se a média for uma garrafa de vinho por cada 10 convidados para quatro horas de consumo, então teríamos de 4.800 a 7.200 pessoas ou metade disso se a festa se estendeu por todo o dia. Este número poderia ser menor porque naqueles dias a festa durava mais de um dia, podendo ir até sete dias de comemoração, se bem que a falta de vinho pode ter ocorrido no último dia, o que seria mais provável. Quanto a finalidade das talhas, era de praxe na cultura judaica lavar os pés e as mãos dos convidados assim que chegavam na festa. Eles acreditavam que em lavando as mãos e os pés os convidados se livravam das imundícies do mundo. Jesus fez referência a este hábito em Mt 15.2 quando demonstrou que usavam desta tradição de purificação para transgredir a lei de Deus desonrando seus pais (Mt 15.3,4). Esta tradição vinha do Talmude, um tipo de enciclopédia judaica que os judeus adotavam como complemento do Antigo Testamento. Talmude significa doutrina e, por estas tradições, os judeus ortodoxos procuravam regular todos os aspectos da vida judaica. Não é só naquela época que a Bíblia foi colocada em segundo plano, hoje tem igreja que coloca a tradição e/ou a magistratura dos líderes eclesiásticos no mesmo nível da Bíblia.

Duas ou três metretas dos potes equivalem a oitenta e cento e vinte litros de água. Encontramos  o termo metretas na versão Atualizada e litros de água na versão Linguagem de Hoje. Na versão corrigida o termo para medida é almude. Muitos preferem fazer a leitura na Linguagem de Hoje porque pensam assim compreender melhor a mensagem das Escrituras. Qual é o drama nisso tudo? O Antigo Testamento foi escrito no hebraico e o Novo no grego. Há alguns textos em aramaico. Agora entenda: Deus usou a riquezas destas línguas originais para transmitir com exatidão o que tinha por intenção nos revelar. Quando se traduz o texto muito desta exatidão se perde. Os tradutores, cônscios da responsabilidade em transmitirem português o mais próximo do original adotaram alguns cuidados. Compreender estes cuidados é fundamental para escolher em que tradução devemos ler a Bíblia. A Corrigida procurou traduzir o texto palavra por palavra e, quando não havia equivalência em português adicionou palavras escrevendo-as em itálico. É por esta razão que a leitura desta versão é truncada, difícil de fazer. A atualizada procurou manter–se fiel traduzindo em conformidade com o sentido da sentença e da força dos verbos. A leitura é muito mais fluida. Os Melhores Textos Hebraicos e Gregos fez o mesmo da Atualizada, mas buscou os pergaminhos mais antigos, mais próximos dos originais. Todas as outras tradições diferentes destas têm problema de Copyright, ou seja, precisam usar um conjunto de palavras na tradução diferentes destas traduções para poderem ter o direito de publicação. A da Linguagem de Hoje vai um pouco mais, ela procura traduzir o sentido do texto na compreensão da linguagem coloquial, portanto o texto traz grande carga de interpretação. Hoje dou preferência pela atualizada por causa da força do verbo na tradução. Esta versão consegue ser muito mais próxima do que o autor pretendia se expressar na língua original. O fato é que quanto mais tradução é lançada no mercado, maior a necessidade de buscarmos ler a Bíblia nas línguas originais.

Metretas, almudes ou litros, que termo usar na tradução da Bíblia? Se formos decidir pela linguagem contemporânea o melhor seria litros, mas se a decisão for pela fidelidade ao texto original os especialistas precisam decidir entre metretas ou almudes. Nós, os brasileiros, não temos referência cultural para adotarmos a opção dos especialistas, por isso não vemos problema algum de preferir a tradução que se utiliza da medida litro. Para termos noção desta importância façamos o paralelo entre a constituição americana e brasileira e suas consequências. A constituição americana tem sete artigos e vinte e sete emendas. A brasileira tem 250 artigos e 80 emendas. Podemos comparar a americana com a Bíblia, isto é, são cartas de princípios. Comparamos a brasileira com o Talmude, equivalem a uma enciclopédia. O resultado aparece na ponta. Hoje o direito brasileiro adotou em grande parte a tese do direito que nasce na rua. Por não estarmos habituados a lidar com princípios, cada caso é visto na sua individualidade e cada um interpreta como quer. O resultado é a crescente permissividade das leis, o mesmo vai acontecendo com a teologia. A este respeito Paulo escreveu: "Desse modo todos nós chegaremos a ser um na nossa fé e no nosso conhecimento do Filho de Deus. E assim seremos pessoas maduras e alcançaremos a altura espiritual de Cristo. Então não seremos mais como crianças, arrastados pelas ondas e empurrados por qualquer vento de ensinamentos de pessoas falsas. Essas pessoas inventam mentiras e, por meio delas, levam outros para caminhos errados." (Ef 4.13,14). Assim ou buscamos a maturidade dentro da teologia bíblica ou seremos levados por toda sorte de enganos, daí a importância de abdicar do termo litro e usarmos metretas ou almudes. Não é a Bíblia que precisa se moldar ao nosso entendimento, mas nós que temos de ampliar nossa compreensão e vocabulário para entender a Bíblia e nos moldar a ela.

Jo 2.7

"Jesus disse aos empregados: — Encham de água estes potes. E eles os encheram até a boca." (Jo 2.7). Os milagres divinos se iniciam com a fé proativa dos homens, isto porque a terra, segundo bem observou o salmista, foi dada aos homens, os céus pertencem a Deus (Sl 115.16). Foi este o ensino do Senhor na oração do Pai nosso, quando nos orienta a pedir que a vontade de Deus seja feita nos na terra como feita é nos céus (Mt 6.10). Com isso podemos concluir que, via de regra, os milagres divinos não acontecem em ambiente de incredulidade porque o verdadeiro propósito do milagre é o de mover a mão de Deus em favor daquele que crê. Em Nazaré, por exemplo, o Senhor teve de se retirar da cidade por causa da incredulidade daquele povo (MT 13.58). O oposto aconteceu nesta festa de casamento onde o posicionamento de Maria fez toda diferença, pois colocará os servos a disposição de Jesus, que os orientou a encheram os potes de água. Está é uma característica interessante do judaísmo, eles têm tanta certeza do agir de Deus em conformidade com as promessas do Antigo Testamento que a preocupação deles não é se o milagre vai acontecer, mas contribuir ativamente para que o milagre seja o maior possível. Nós também devemos entrar nessa dimensão de fé movendo nossos recursos na presença de Deus para contemplarmos ainda maiores milagres do que estes relatados nas escrituras.

Jo 2.8

"Em seguida Jesus mandou: — Agora tirem um pouco da água destes potes e levem ao dirigente da festa. E eles levaram." (Jo 2.8). Nós, que temos conhecimento da história, sabemos que o milagre está em curso e, por isso, muitas vezes não prestamos atenção quanto ao desenvolvimento desta história. Se acompanharmos a sequência natural dos fatos com consciência dos personagens, então todo o evento se torna ainda mais surpreendente. Maria havia feito uma petição a Jesus para providenciar vinho para a festa. Maria colocará servos a disposição de Jesus. O Senhor orientara que potes fossem enchidos de água e agora pede que um pouco de água fosse levado ao dirigente da festa para que este experimentasse. Por óbvio podemos concluir antes mesmo do texto relatar que a água se transformará em vinho. Observe a extrema humildade do Senhor. Primeiro não anunciou ele próprio o milagre, antes tão somente encaminhou a água para ser submetida a prova. Depois o Senhor não atropelou a liderança daquele lugar, cortando atalho para chegar no coração dos convidados, antes de submeteu a apreciação da autoridade máxima daquele evento. A atitude de Jesus nos ensina que devemos respeitar a hierarquia, a autoridade, as convenções sociais, a cultura de dado ambiente. Nunca devemos impor nosso ponto de vista só porque a verdade está do nosso lado. Antes precisamos dar tempo para que as pessoas possam processar os fatos, fazer suas considerações, ajustar seu entendimento para, por fim, concordar ou não conosco. Se o próprio Deus dá está liberdade aos homens, então está também deve ser nossa atitude. Maria sabia que Jesus faria um milagre, o dirigente talvez sequer tenha notado que o vinho chegará ao fim, mas em dado momento da história ambos estariam cônscios do mover de Deus naquele lugar. Esperar no Senhor é, em parte, saber dar a cada ator de um evento o tempo necessário para que ele processe a mesma informação que temos até que todos sejamos convencidos pelo Senhor. Esperar no Senhor é respeitar a peculiaridade e a individualidade das pessoas crendo que ao final todos darão glórias a Deus.

Jo 2.9

"Então o dirigente da festa provou a água, e a água tinha virado vinho. Ele não sabia de onde tinha vindo aquele vinho, mas os empregados sabiam. Por isso ele chamou o noivo" (Jo 2.9). Agora estamos diante do primeiro milagre evidenciado no evangelho de João: a água se tornou em vinho. A composição química da água é H2O. O vinho é formado entre 70% a 90% de água com variação de 6% a 20% de álcool etílico. Inclui ainda no vinho outras propriedades químicas como: 1% de glicerol, 0,5% de ácidos, 0,1% de fenólicos açúcares residuais, sais e orgânicos, compostos nitrogenados, pectinas, gomas e mucilagens, compostos voláteis e aromáticos. Toda esta lista de químicos foi listada para demonstrar que a água passou por um processo de transformação, sendo-lhe adicionado elementos que não existiam antes. Neste milagre Jesus agiu como Criador que acrescenta algo novo ao que já existe, ao que designamos por inovação. Este processo também ocorreu na criação do universo. Em Gênesis, capítulo 1 temos o relato da criação. Neste capítulo o escritor empregou por três vezes a palavra hebraica "Bara", em Gn 1.1, 21 e 27. No primeiro verso está palavra tem o sentido de criar algo do nada, nos outros dois versos traz o significado que algo novo foi acrescentado ao que já existia, um up grade dado à criação. Este é o sentido do que Jesus fez com a água, transformando-a em vinho. Observe que João inicia o evangelho dizendo ser Jesus o Verbo feito carne, o Deus que criou todas as coisas e, neste milagre, estamos vendo Jesus como o Deus Criador em ação. Existe um preceito na ciência que só pode ser objeto de estudo o que é passível de reprodução. Ninguém pode criar como Deus senão o próprio Deus. É como se o Senhor provasse para seus conterrâneos suas prerrogativas divinas reproduzindo seus feitos primaverais relatados em Gênesis, capítulo 1 transformando a água em vinho.

Neste casamento Jesus transformou água em vinho (Jo 2.9). O Senhor poderia ter feito outro milagre qualquer, mas fez exatamente este. Chamo este ato de escolha não aleatória, mas excludente e intencional, isto é, Deus tem diante de si infinitas opções para inimagináveis propósitos, contudo uma vez escolhido e realizado um deles o fez pela exclusão de todos os demais porque exatamente este atende perfeitamente a sua eterna vontade. Com isso queremos dizer que estes dois elementos: água e vinho, foram escolhidos porque trazem consigo significados multiformes. Entenda o propósito das escrituras, sua função primária é revelar quem Deus é, seu objetivo genérico é demonstrar por meio de elementos naturais as realidades celestiais, mesmo porque a Bíblia foi escrita com palavras inteligíveis para o ser humano. Analisando a água no âmbito das escrituras notamos que ela foi um dos primeiros elementos da criação. Em Gênesis 1.2 é dito que o Espírito de Deus pairava sobre as águas, portanto podemos dizer que este elemento é matéria prima da criação, mais ainda, a água é um instrumento extremamente útil para o agir do Espírito Santo. A água serve tanto para gerar vida, quanto para a desfazer. A criança permanece por nove meses no ultero de sua mãe até que todas suas partes corpóreas estejam prontas para vir ao mundo. Mas também a água foi utilizada para destruir todavia humanidade ímpia quando do dilúvio, ainda que este mesmo elemento deu condições para a família de Noé, juntamente com dado conjunto de animais se salvarem. Quando surgiu João Batista pregando o batismo de arrependimento, ele imergia os crentes nas águas do Jordão para selar o testemunho de conversão. Até aqui estamos abordando a água como elemento físico, mas ela também tem aplicação de natureza espiritual quando se compara seus efeitos terrenos com esta esfera de vida mais elevada.

Jesus transformou a água em vinho. Este milagre traz lições profundas sobre o modo como Deus trata com o homem. Tanto é que no capítulo seguinte, na conversa que Jesus teve com Nicodemos, Ele usa da água para instrui-lo acerca do novo nascimento. Assim para entendermos está conversa de Jesus com Nicodemos precisamos compreender as analogias entre a água e as realidades celestiais. O apóstolo Paulo equipara a água à palavra de Deus: "para que a santificasse [isto é, santificar a esposa], tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra"(Ef 5.26). Neste caso a palavra de Deus atua no âmbito da alma e do espírito do mesmo modo que a água opera no corpo. Pense em um banho: o indivíduo sujo se expõe a água que desce sobre seu corpo retirando toda sujeira. Ocorre que após o banho não há mais evidência da presença da água, senão do benefício que ela trouxe. Quando Paulo fala em lavar a esposa com a palavra de Deus está dizendo não ser possível traçar um nexo causal sobre qual palavra mudou algo na esposa, todavia ainda que este efeito seja inconsciente a palavra está produzindo seu efeito. Assim como o banho acontece diariamente e a água escorre pelo corpo do indivíduo como um ato de passagem, ainda assim seu efeito está acontecendo, a pessoa está ficando limpa. O mesmo ocorre com todo aquele que se coloca sob a influência da palavra de Deus como lemos: "Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei" (Ez 36.25) na sequência desta promessa temos Deus fazendo menção ao novo nascimento quando promete também um novo coração e um novo espírito ao que crê (Ez 36.26). Portanto há uma íntima conexão entre os efeitos da palavra de Deus e a limpeza espiritual assim como acontece no mundo físico com a ação de limpeza da água.

A água preparou o caminho para o vinho. Este milagre é objeto de muita polêmica, pois o Senhor estaria implicitamente validando a bebida alcoólica. Alguns explicam este milagre alegando que Jesus teria feito vinho sem teor alcoólico, o que não faria sentido algum para um provador especialista, como era o caso do dirigente da festa. Na verdade precisamos entender o vinho no contexto do Antigo Testamento. O salmista afirma que a função do vinho é alegrar o coração (Sl 104.15). Está é a chave para entender a função do vinho. Em outro lugar está escrito: "… portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força" (Ne 8.10), portanto a alegria tem pelo menos, duas fontes possíveis, aquela provida pelo vinho ou a que vem do Senhor. Ocorre que no Antigo Testamento o Espírito Santo, fonte da verdadeira alegria, só descia sobre homens ungidos pelo Senhor para missões específicas. Só com a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes sobre a igreja primitiva é que Ele passou a habitar de forma permanente no crente. Desde então se cumpre a promessa do Senhor: "Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo" (Jo 15.11). Nesta perspectiva o vinho se tornou absolutamente dispensável, pois aquele que se torna habitação do Espírito Santo tem alegria completa em si mesmo. Assim este milagre em transformar a água em vinho que ocorreu no mundo físico expressa a seguinte realidade espiritual: a palavra de Deus [água] produz o novo nascimento preparando o caminho para a habitação do Espírito Santo [vinho] no crente de forma permanente resultando em plena alegria interior que vinho algum pode dar.

Jo 2.10

"E disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom, e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho." (Jo 2.10). O provador atestou a qualidade do vinho criado por Jesus à partir da água. O vinho é uma bebida requintada e quem entende do assunto pode difenciar um vinho comum do bom vinho. Nesta passagem das escrituras temos um importante princípio bíblico: na terra Deus age após extinguir a ação do homem. Nós já vimos isso no primeiro capítulo deste evangelho quando João instruí que o nascido de Deus não é gerado do homem, mas de Deus (Jo 1.12). Com isso queremos dizer que o nascimento espiritual, que tem equivalência com o natural, é superior a este e não se confunde com ele, assim como o segundo vinho foi melhor que o primeiro, tendo sido criado por Deus. O que subjaz neste princípio é a ação da morte. Entenda: com a queda do primeiro homem a morte adentrou no mundo, portanto toda obra humana resulta neste efeito nefasto. Você compra um aparelho qualquer, findo sua vida útil, ele não serve para mais nada; o homem gera uma criança, passado a idade ela é enterrada juntamente com os ossos de seus antepassados. Tudo nesta vida tende para a morte. Por outro lado Deus só pode agir neste mundo após a morte cumprir seu requisito porquanto foi o próprio Deus quem declarou que o salário do pecado é a morte (se comer, morre – Gn 2.17). Foi para se permitir agir de forma redentora no mundo que Jesus morreu e ressuscitou de forma que todo crente é identificado na obra da cruz. Por esta razão, para Jesus realizar o milagre no casamento a morte [acabou estoque de vinho] teve de operar para que o milagre da ressurreição [água feito em vinho] pudesse se realizar. Quando nos deparamos com o elogio do dirigente da festa nos alegramos de imediato pensando quão bom seria provar aquele vinho, contudo nos esquecemos rapidamente que para este bom vinho chegar o primeiro teve de acabar. Muitos de nós vislumbramos a obra de Deus, desejamos ela do profundo de nosso coração, mas temos dificuldade de partir do anseio para a apropriação porque instintivamente refugamos da inoportuna ação da morte em todas as instâncias em que ela manifesta.  É por esta razão que precisamos de fé para recebermos o agir divino porque é a fé que nos faz transportar por sobre este abismo intransponível do ponto de vista natural. O bom vinho está em conexão com o vinho que acabou, assim só podemos experimentar o melhor de Deus quando abdicamos da obra humana, porquanto está obra esta maculada pelo pecado. Quando faltou o vinho Maria se socorreu em Jesus, o problema da maioria das pessoas é que quando lhe falta algo entra em desespero, mostrando por sua atitude sua incredulidade. Portanto podemos concluir que bom vinho resulta da intimidade com Deus alcançada por meio da oração.

O dirigente da festa se surpreendeu com o noivo por oferecer o melhor vinho ao final da festa, não fazendo como a maioria das pessoas. Muitos chamam este comportamento esperado como efeito manada, pois o indivíduo tende a fazer o que seu grupo social determina como sendo o certo a ser feito. A primeira coisa que precisamos entender acerca deste tipo de atitude é que todo ser humano tem a tendência de imitar ou se deixar influenciar por alguma outra pessoa. Isto acontece porque esta entranhado na gene humana a ordem divina de ser a imagem e semelhança de Deus. Com isso queremos dizer que ou haveremos de imitar Deus ou, se não o fizermos, adotaremos outro referencial qualquer. A segunda coisa que precisamos saber é que, com a queda, o homem passou a seguir o curso deste mundo, a ser influenciado pelo príncipe deste mundo, pelas forças malignas que adquiriram o direito de infligir perdas humanas por causa da desobediência de Adão. Paulo trata deste assunto ao escrever: "Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência" (Ef 2.2). A terceira coisa que precisamos ter em mente é que o sistema mercadológico usa também desta prerrogativa de poder influenciar para moldar a sociedade segundo seus ditames. Por exemplo, em dado momento uma fábrica refugou calças por estarem rasgadas, como eram muitas, achou por bem colocar em liquidação. Alguém percebeu que havia público para vender peças com defeito e criou a moda da calça rasgada. Por fim devemos entender que todo aquele que se aproxima de Deus muda seu comportamento diante da sociedade. Este noivo fez algo inusitado: ofereceu o melhor quando seria de se esperar que desse do pior. Espiritualmente falando, quem crê em Jesus o pecado não pode mais determinar sua conduta.

Jo 2.11

"Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele." (Jo 2.11). No evangelho de João os milagres feitos por Jesus são como sinais, isto é marcos que assinalam os limites do território divino. Por estes sinais temos a distinção entre o reino das trevas e o reino de Deus. Enquanto que este mundo jaz no Maligno trazendo consigo morte, roubo e destruição; enfermidade, ansiedade e medo, de forma diametralmente oposta o reino de Deus traz vida, provisão e amor; cura, paz e alegria. É por isso que os sinais realizados por Jesus são manifestações da glória de Deus, são como uma declaração que estamos diante do Filho de Deus. É por esta razão que podemos dizer que a transformação da água em vinho deu início ao desenvolvimento da fé nos discípulos. É por esta razão também que no primeiro milagre Jesus se revela como o Criador, porque Ele veio para buscar para si um povo especial, arrependido, convertido, transformado em uma nova criatura. A água transformada em vinho é o prenúncio da conformação dos discípulos na imagem e semelhança de Deus, na imagem de Cristo, o Filho de Deus. Casamento traz consigo a ideia da aliança entre marido e mulher, em Jesus participando ativamente deste evento pela execução do sinal de sua glória eleva este relacionamento entre humanos ao nível divino, como abrindo caminho para fazer uma nova aliança entre Deus e o homem mediado pelo sangue que ele derramou na cruz. É por isso que vinho não só representa a alegria do Espírito Santo, como também o sangue sacrificial de Jesus. O milagre se fez presente para nos despertar acerca desta perspectiva divina que se interpõe nas condicionantes da existência humana sempre que nos socorremos a Deus.

Jo 2.12

"Depois disto desceu a Capernaum, ele, e sua mãe, e seus irmãos, e seus discípulos, e ficaram ali não muitos dias." (Jo 2.12). Jesus nasceu em Belém, depois mudou-se para o Egito, voltou para Nazaré, onde permaneceu até ser rejeitado por seu povo (Lc 4.29). Nesta oportunidade Jesus declarou que nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra (Lc 4. 24). Isto porque as pessoas mais próximas têm dificuldade para discernir o Espírito de Deus na vida daquele com quem come feijão todo dia. A pessoa que vem de longe carrega consigo uma história desconhecida que gera na pessoa certo senso de mistério e suposições infundadas, pois não há distinção alguma entre um salvo e um perdido senão na manifestação da graça de Deus em sua vida. De Nazaré Jesus mudou-se para Cafarnaum, onde estabeleceu seu centro de operações em toda Galileia. Esta escolha foi estratégica, pois facilitou o acesso das pessoas até Jesus e, também, seu deslocamento por toda a região. A razão de Jesus ficar poucos dias nesta cidade se deve ao fato daquela época ser próxima as festividades da Páscoa, o que moveria Jesus e seus discípulos para Jerusalém. O detalhe deste texto são os irmãos de Jesus, porquanto para muitos Maria não teve outros filhos senão Jesus, o que não confere com o relato dos evangelhos. Podemos traçar um paralelo de entre Maria e Ana, mãe de Samuel. Ana era estéril, orou a Deus por um filho, teve Samuel, o dedicou ao serviço do Senhor e, depois disso teve outros filhos. Assim também Maria como se depreende de Mateus 1: 25. "E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus". Observe a expressão "até que". O termo "conhecer" nas escrituras denota relações sexuais, com isso o autor esclareceu que a virgindade de Maria só perdurou até o nascimento de Jesus.

Leave a Comment