Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 3.1-13

Jo 3.1

"Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus." (Jo 3.1). Nicodemos era fariseu, membro do Sinédrio e mestre da lei. A lei de Moisés era constituída dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A autoria destes livros era atribuída a Moisés. Os fariseus eram um grupo religioso de Israel que interpretavam a lei de Moisés com base em regras prescritas passadas oralmente entre seus membros. Por fariseu entenda "separados", sendo esta também este termo uma das definições da palavra santo, portanto tanto o farisaísmo quanto a santidade denotam a condição humana de se considerar puro, isto é, separado do uso comum para propósitos divinos. Ana, ao fazer sua oração, afirmou a santidade divina: "Não há santo como o Senhor; porque não há outro além de ti; e Rocha não há, nenhuma, como o nosso Deus." (I Sm 2.2). Este também é o cântico diuturno dos serafins diante de Deus: "E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória." (Is 6.3). Assim Nicodemos, por pertencer ao farisaísmo, se via como santo, isto é, totalmente apto para viver com Deus por observar rigorosamente todos os detalhes da lei divina, sendo qualificado por seus pares como mestre nesta disciplina, apto a ensinar o povo em como agradar a Deus.

 

Jo 3.2

"Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele." (Jo 3.2). Os sinais que acompanhavam o ministério de Jesus estavam cumprindo o seu propósito, que era o de testificar que o Deus dos céus referendava o testemunho de Jesus Cristo na terra. Nicodemos constatou este fato ao se aproximar de Jesus porque estava impactado, por exemplo, com a capacidade de Jesus em transformar água em vinho. Nicodemos se aproximou de Jesus de noite porque os fariseus não aceitavam de modo algum que Jesus pudesse ser o enviado de Deus. Nicodemos, por sua vez, reconhecia a grandeza de Jesus ao chamá-lo de Rabi e Mestre, denotando que o Senhor tinha autoridade para ensinar as coisas de Deus. Alguém pode criticar o fato de Nicodemos buscar Jesus discretamente, contudo é preciso considerar que muitas vezes é necessário conhecer Jesus sem que as pessoas do seu entorno o saiba para que haja tempo de processar intelectualmente o convencimento que vai se formando no coração por obra do Espírito de Deus. Isto porque receber Jesus faz com que o indivíduo se torne filho de Deus, uma ruptura com todos os que não processam a mesma fé, podendo, inclusive, fazer com que esta pessoa seja segregada de seu convívio social, sendo obrigada a percorrer este novo caminho sem o respaldo das pessoas que outrora eram suas referências.

Para compreendermos a observação de Nicodemos sobre Deus estar com Jesus é preciso ter em mente qual era a sua intenção ao elogiar Jesus. Na perspectiva de Nicodemos o que fazia de Jesus um homem aprovado por Deus era sua obediência às leis de Moisés, portanto o segredo de Jesus era seu bom comportamento. Não é só Nicodemos que pensava deste modo, se for perguntado aos cristãos o que precisamos fazer para agradar a Deus, para muitos a resposta está na ponta da língua: obedecer a Deus. Quem pensa deste modo logo conclui que o crente pode perder sua salvação se não souber se comportar devidamente. Assim tanto para o fariseu quanto para o cristão legalista, a fé em Deus é definida por aquilo que o indivíduo faz, pensa ou sente, não por aquilo que ele é, isto é, por sua identidade. Nesta perspectiva a vida com Deus é performática, depende fundamentalmente do esforço humano e, portanto, não se assenta na paz por estar seguro de sua posição diante de Deus. Este tipo de compreensão já havia sido evidenciado quando Israel recebeu os dez mandamentos. Naquele dia, antes de Moisés apresentar a lei de Deus, ele teve o seguinte diálogo com seu povo: "Veio Moisés, chamou os anciãos do povo e expôs diante deles todas estas palavras que o Senhor lhe havia ordenado. Então, o povo respondeu à uma: Tudo o que o Senhor falou faremos. E Moisés relatou ao Senhor as palavras do povo." (Ex 19.7,8). Para Israel eles tinham a capacidade, o poder e a disposição para obedecer às leis divinas. No entanto o objetivo da lei era fazer o povo entender que nenhum ser humano está apto para adequar-se aos padrões divinos porque sua natureza está corrompida pelo pecado. Assim o diálogo entre Jesus e Nicodemos carregava consigo este pano de fundo: o que fazia um homem ser aprovado por Deus – seu comportamento ou sua identidade?

Jo 3.3

"A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (Jo 3.3). Jesus foi direto ao ponto nevrálgico da questão, não é o comportamento, mas a identidade que define o indivíduo, razão porque para entrar no reino de Deus é preciso nascer de novo. Antes deste diálogo com Nicodemos o apóstolo João já observara que Jesus conhecia a natureza humana, portanto tinha correto diagnóstico da verdadeira necessidade do indivíduo. O profeta Jeremias apresentara este mesmo diagnóstico nos seguintes termos: "Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal." (Jr 13.23). Com isso as escrituras atestam que o homem natural, nascido da mulher, vem a este mundo com a natureza caída de Adão que tende para a morte. Portanto seu comportamento está comprometido com a sua herança genética. A única solução possível para radical mudança comportamental é esta proposta por Jesus: a pessoa precisa nascer de novo. João. No preâmbulo deste evangelho o apóstolo João explicou não só como se processa este nascimento como também sua distinção do nascimento natural: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (Jo 1.12,13). É deste nascimento a que Jesus faz referência, isto é colocar o machado à raiz da árvore, tratar radicalmente do problema causado pela queda no jardim do Éden.

Jesus fez conexão entre o novo nascimento e o reino de Deus. Para compreendermos esta conexão precisamos ver este mundo na perspectiva divina. Deus criou os céus e a terra, dando ao homem o governo da terra. Adão, que foi nosso representante legal no recebimento desta incumbência, falhou ao crer na mentira da serpente que poderia ser igual a Deus, portanto apto a governar este mundo sem estar debaixo da sujeição divina. Desde então o governo humano sobre a terra ficou sob a égide da morte, debaixo da regência do príncipe das trevas. Jesus veio para mudar este quadro, porquanto assim como Adão foi nosso representante legal, introduzindo a morte neste mundo, Jesus veio como nosso segundo representante legal para nos trazer a vida de Deus. Aqui se formou o contraste entre o reino das trevas e o reino de Deus, sendo este o diagnóstico deste mundo como está escrito: "O povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz." (Mt 4.16). É neste contexto que é apresentando o nascimento espiritual, porquanto todo nascido de mulher, a exceção de Jesus Cristo, que foi concebido pelo Espírito Santo, está sob o reino das trevas. Para que este indivíduo possa entrar no reino de Deus ele precisa nascer de novo, assim como naturalmente nasceu para adentrar a este mundo. Com isso as escrituras nos ensina que para entrar no reino de Deus precisamos ser dotados de uma nova natureza, distinta daquela que recebemos por DNA de nossos pais terrenos. É importante citar novamente a referência feita por João no início de seu evangelho de como se processa este novo nascimento: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome" (Jo 1.12). Diante desta verdade cada indivíduo precisa decidir se vai continuar vivendo no reino das trevas ou se vai crer na palavra de Deus, receber Jesus como Senhor e Salvador, nascer de novo e, com isso, sair do reino das trevas e entrar no reino de Deus. Este foi implicitamente o argumento apresentado por Jesus a Nicodemos.

Jo 3.4

"Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?" (Jo 3.4). O questionamento de Nicodemos demonstra que ele compreendeu o significado que Jesus deu ao termo nascimento, em que pese não ter entendido como este nascimento se processava. O termo nascimento empregado por Jesus tem certa correlação com o nascimento natural, tanto é que Nicodemos perguntou se seria possível nascer uma segunda vez do ventre materno. Se esta fosse a resposta, Jesus estaria ensinando a reencarnação, contudo a escritura assevera que "… aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo" (Hb 9.27). Ou seja, é no espaço temporal de nossa existência que cabe o segundo nascimento proposto por Jesus, nascimento este de natureza eminentemente espiritual. Traduzindo, o homem nasce a primeira vez da concepção entre homem e mulher, então, tendo ouvido o evangelho acerca da obra de Jesus na cruz, crendo e recebendo a Jesus por Senhor e Salvador, nasce da segunda vez. Não procede, portanto, a ideia que temos de nascer todos os dias para Deus, até porque os que recebem Jesus se tornam filhos de Deus, se integram de uma vez por toda na família divina. Está é a razão da importância entre o nascimento natural e espiritual, pois ambos inserem o indivíduo em uma família e, se por um lado o nascimento natural traz consigo todo tipo de disfunção, o mesmo não se processa no nascimento espiritual, pois é obra da palavra de Deus em consonância com o convencimento do Espírito Santo.

Jo 3.5

"Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." (Jo 3.5). Tendo Nicodemos ouvido que para ver o reino de Deus era preciso nascer, sua atenção voltou para o modo como este nascimento seria processado. No entendimento dele o nascimento de qualquer pessoa envolve uma relação marital e, depois disto, o desenvolvimento do bebê no ventre da mãe até culminar no seu nascimento natural. Hoje, com a profusão de informações que atinge as crianças, o grande questionamento dos pais é saber quando se deve ensinar aos filhos o modo como eles nasceram. Também o nascimento espiritual exige explicações, o que Jesus o faz ensinando a Nicodemos que este nascimento se dá por meio da água e do Espírito. Nas escrituras água é sinônimo da palavra de Deus. Vemos isso, por exemplo, ao Paulo explicar como o marido deve liderar sua esposa na ministração da palavra de Deus. Escreveu Paulo: "para que [o marido] a santificasse [a esposa], tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra" (Ef 5.26). O comparativo da palavra de Deus com a água decorre da necessidade dela ser processada no intelecto humano. Aprouve a Deus usar da instrumentalidade da linguagem humana para compartilhar suas revelações com a humanidade, portanto todo leitor das escrituras precisa meditar objetivamente na palavra de Deus para compreender o plano divino. E, neste processo interfere o Espírito Santo de Deus que tem a incumbência de trazer o convencimento da meditação da palavra de Deus feita no âmbito da mente humana, para o coração do indivíduo. É por isso que Jesus declarou ser a missão do Espírito Santo o convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Portanto o novo nascimento se dá pela interação da palavra de Deus com o Espírito Santo enquanto a pessoa medita nas escrituras, pois é por meio desta meditação que o indivíduo é tocado a receber Jesus como Senhor e Salvador, vindo com este ato de fé, a tornar-se filho amado de Deus (Jo 1.12).

Eu, particularmente, tomei esta decisão em 20 de outubro de 1979, quando entrei em meu quarto, li I Jo 1.8,9 e, por meio deste texto, fiz a seguinte oração: "- Senhor, eu acho que não tenho pecado, pois não mato, não roubo, não adultero. Mas se eu disser que não tenho pecado, sou mentiroso como demonstra I Jo 1.8. Como mentira é pecado e o salário do pecado é a morte, preciso do Salvador. Assim, reconhecendo que sou pecador, faço esta confissão diante do Senhor e recebo Jesus como meu Salvador e Senhor." Tendo feito esta oração, me tornei filho de Deus conforme está escrito em Jo 1.12.

Jo 3.6

"O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito." (Jo 3.6). O Senhor traça agora uma linha divisória entre o nascimento natural e espiritual e, mais do que distinguir um com o outro, está implícito dois polos extremos, como o Norte do Sul. Isto porque os indivíduos em cada um destes estados se movem para direções diametralmente opostas. Com isso queremos dizer que a carne tende para a morte e o espírito para a vida. O apóstolo Paulo trata desta questão nestes termos: "Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus." (Rm 8.5-8). Entenda está inclinação: quando o homem foi criado, o Senhor o fez do pó da terra e, com o sopro divino, recebeu a vida de Deus. Contudo com a queda ele perdeu o contato com o divino. Não só o contato foi perdido como o homem natural se tornou inimigo de Deus. Assim por causa da sentença dada depois da queda de que o homem voltaria ao pó, todo ser humano tende para a hora da morte, só mudando sua trajetória se nascer de novo. Jesus veio com o objetivo de resgatar o homem deste terrível estado. Com o nascimento provido pelo Espírito de Deus em consonância com a palavra de Deus, o crente recebe um novo espírito se tornando apto a adorar a Deus e viver eternamente.  É decorrente da completa distinção entre um nascimento e outro que Jesus traçou a linha divisória entre o nascido da carne e do Espírito com E maiúsculo, isto é, nascido de Deus conforme João já fizera referência em Jo 1.3: "os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus."

Jo 3.7

"Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo." (Jo 3.7). O Senhor expõe o impacto que suas palavras fizeram no coração de Nicodemos. Este mestre da lei estava admirado com a doutrina do novo nascimento, porquanto era a primeira vez que se deparava com semelhante possibilidade. A meditação na palavra de Deus não tem por objetivo reforçar nossos pressupostos existenciais, antes ela traz consigo a revelação que procede de Deus que é totalmente distinta do nosso conhecimento natural. O profeta Isaías já evidenciara esta distinção entre o que nós sabemos e o que vem da parte de Deus para nós, como podemos ler: "Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos." (Is 55.7-9). Muitos se aproximam da Bíblia tão somente para resolver seus próprios problemas, contudo precisamos entender que são nossos pecados que embaraçam nossos passos, razão porque precisamos passar por um processo de conversão, isto é, de mudança de sintonia de nossa mente, antes focada em nossos pensamentos para agora ser alimentada pelos pensamentos divinos. Se fizermos esta virada de chave haverá mudança em nossas circunstancias porquanto não mais andaremos com base nas escolhas que fazemos, mas trilharemos os caminhos de Deus, andando em conformidade com sua bendita vontade. Que isso fique claro para nós: nem todos os pensamentos que temos são dignos de serem pensados, pois eles são como águas que jorram da fonte, se não mudarmos a origem desta fonte, nossos pensamentos vão refletir a natureza pecaminosa que herdamos de nossos pais. Agora, se mudarmos a fonte para a palavra de Deus, renovando por ela nosso entendimento, então nossos pensamentos vão expressar a nossa nova natureza, que procede do fato de termos nascido de novo por crermos em Jesus.

Jo 3.8

"O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito." (Jo 3.8). Este é um dos textos mais enigmático deste capítulo. O vento é uma referência velada ao Espírito Santo, isto porque Espírito em hebraico e grego significa vento, sopro, respiração. Este vento é soberano, ele vem dos lugares mais inesperados. E, quando surge, sua voz é gentil e suave, pois fala ao coração do homem, no mais íntimo do ser. Paulo escreverá que a fé vem pelo ouvir a palavra de Cristo (Rm 10.17) e esta palavra é vivificada pelo Espírito de Deus no ato de convencimento do homem. O mistério está não só na voz que procede de Deus por meio do seu Espírito, mas também pelo modo como esta voz reflete na vida daqueles que são tocados por ela. Primeiro porque estes são regenerados, nascendo de novo, recebendo da parte de Deus um novo espírito e um novo coração. Depois este crente, agora uma nova criatura, se torna para este mundo nômade, peregrino, forasteiro, pois agora sua verdadeira pátria é o céu. Pedro expressa está nova condição de ser nestes termos: "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (I Pd 2.9). Nascido de novo o crente deixa de saber de onde vem e para onde vai não porque está sem direção, mas porque, desde o instante em que creu em Jesus passou a confiar inteiramente nos desígnios de Deus, fazendo descansar sua alma. Não sabe porque optou por entregar o governo sua existência ao bendito Deus. Aliás está é a promessa inerente a filiação divina: "… vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus." (Ez 36.28). Assim crer é entrar no descanso de Deus, confiado em sua bendita presença, desde então Deus se tornou Senhor absoluto de sua vida e qualquer mudança de curso está sendo guiada pelo amoroso sopro do Espírito de Deus.

Jesus fez referência ao vento para explicar as implicações do novo nascimento a Nicodemos. Esta menção deve ter trazido à mente de Nicodemos dois eventos do Antigo Testamento. O primeiro, registrado em Gn 2.7, quando Deus soprou nas narinas do homem o fôlego da vida. Foi neste momento que o homem passou a ser constituído de espírito, alma e corpo, sendo o espírito humano o lugar da habitação divina, lugar este perdido com a queda e restaurado no novo nascimento conforme a promessa registrada, entre outros lugares, pelo profeta Ezequiel: "Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito…" (Ez 36.26,27). O vento também era uma referência velada ao Êxodo de Israel, na parte em que Deus proveu para aquele povo a nuvem para os guiar durante o dia e coluna de fogo para os conduzir no período noturno, como podemos ler: "O Senhor ia adiante deles, durante o dia, numa coluna de nuvem, para os guiar pelo caminho; durante a noite, numa coluna de fogo, para os alumiar, a fim de que caminhassem de dia e de noite. Nunca se apartou do povo a coluna de nuvem durante o dia, nem a coluna de fogo durante a noite." (Ex 13.21,22). A associação com este evento do Êxodo se deve ao fato que, após mencionar o direcionamento dado pelo vento, o Senhor fez saber a Nicodemos que o nascido do Espírito é deslocado pelo sopro do vento na direção que o Espírito impõe. É por esta razão que esta passagem do evangelho de João é associada com a soberania divina absoluta sobre todo aquele que nasceu de novo. O apóstolo Paulo associa esta verdade fazendo a junção entre a filiação divina com o ser guiado por Deus como um único aspecto da mesma verdade nestes termos: "Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai." (Rm 8.14,15). Assim todo aquele que é filho ou filha de Deus, é também guiado por Deus, uma coisa não existe sem a outra.

Como vimos todo nascido de Deus é guiado por Deus. Para compreendermos este direcionamento retornarmos ao Êxodo. O povo que saiu do Egito foi contado em mais de 600.000 homens, portanto por volta de três milhões de pessoas. Por todos os caminhos do deserto este povo tinha diante deles a nuvem durante o dia e a coluna de fogo à noite. Todas as atividades do acampamento eram feitas sob a presença desta nuvem. Eles tinham de dar mantimento aos seus animais, compravam e vendiam, interagiam socialmente, adoravam a Deus todos os sábados no tabernáculo. Enfim, tudo que eles faziam girava em torno da nuvem que os guiava, se a nuvem andava, eles partiam, se parava, eles acampavam. Qual o nexo do mover desta nuvem com o nosso dia a dia? Se perguntado a alguém quais suas prioridades, está pessoa apresenta a lista por ordem de importância: Deus – Família – Igreja – Trabalho. Outra pode inverter esta ordem: Deus – Família – Trabalho – Igreja. Agora, em conformidade com a instrução que Jesus deu a Nicodemos todo nascido de Deus só tem uma única prioridade: seguir a direção do vento, isto é, estar sob a liderança do Espírito Santo. Assim, se o vento lhe soprar para o trabalho, sua prioridade é o trabalho, neste caso tem de confiar o cuidado de sua família a Deus. Se o vento lhe soprar para sua família, esta é sua prioridade, tem de descansar quanto ao trabalho. O problema das pessoas é que nunca estão por inteiro no papel que exercem. Se está diante da esposa, seu papel é ser marido, se a esposa está diante do marido, seu papel é ser esposa, não mãe. Se ambos estão diante dos filhos, o papel de ambos é serem pais amorosos. Este é o segredo de ser movido pelo vento, aceitar o papel que o Senhor lhe deu naquele exato momento do tempo e não se dividir dentro de si em conflitos com outros papéis. Quem vive deste modo só tem uma prioridade: Deus! Todas as demais prioridades são ajustadas pela direção do sopro do vento divino.

Uma sequência de eventos no ministério de Jesus demonstra a importância de discernir o mover da nuvem no dia a dia. Jairo veio até Jesus para pedir pela cura de sua filha de 12 anos. Ela estava terrivelmente enferma, preste a morrer. Diante da gravidade do relato o Senhor saiu de imediato para atender aquela adolescente. Como sempre Jesus foi acompanhado por uma multidão. No meio do caminho uma mulher toca em Jesus. Ele parou de imediato e perguntou quem lhe havia tocado. Os discípulos se mostraram indignados com a pergunta porque muita gente esbarrava em Jesus. Ao que o Senhor disse: – Alguém me tocou, porque senti que de mim saiu poder (Lc 8.46). Jesus ainda atendia esta mulher quando chegou a notícia que a filha de Jairo havia morrido. Aqui está a bilis destes eventos. Se Jesus não tivesse mudado sua prioridade, se tivesse ido direto à casa de Jairo, sem se deixar ser interrompido por esta mulher, talvez a filha de Jairo não tivesse morrido. Ocorre que a agenda de Jesus estava sob a direção do Espírito Santo. Geralmente quando somos interrompidos por alguém nos exasperamos por medo de perder prazos, temendo não bater metas e, com isso nos irritamos com a pessoa, manifestando nosso desagrado, deixando clara a inconveniência daquela perturbação. Agora, se temos consciência que somos como o vento devemos entender que toda interrupção nada mais é que o sopro do vento divino redirecionando a nuvem, portanto precisamos estar abertos a interrupção. Se vivermos nesta expectativa, então aquilo que parece estar morto haverá de reviver. Jesus chegou na casa de Jairo e ressuscitou a filha deste chefe da sinagoga. Nós aceitamos a liderança do Espírito Santo porque "sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Se realmente crermos nesta verdade então não podemos nos deixar perturbar pelas interrupções do dia a dia, pois o Senhor tem nossa agenda e sabe, a cada instante, onde firmar nossos passos, ademais o evento seguinte está debaixo desta mesma soberania. Agora para andarmos sob esta liderança devemos aprender a remir o tempo assim como o agricultor sabe do tempo ideal para o plantio, aplicar defensivos e efetuar a colheita.

Jo 3.9

"Então, lhe perguntou Nicodemos: Como pode suceder isto? …" (Jo 3.9). Este mestre de Israel reconhece sua ignorância ao questionar Jesus. O ensino acerca do novo nascimento estava muito acima de seu entendimento, nem todos seus estudos do Antigo Testamento o havia preparado para a resposta de Jesus. Aqui nós precisamos compreender como nossa mente processa. Em dado momento nos é ensinado uma doutrina religiosa. O caminho correto para atestar a veracidade deste ensino seria fazer criterioso estudo à luz da Bíblia, respaldado por teólogos eminentes. Ocorre que uma geração inteira pode aprender errado, e este erro ser repassado de geração em geração, afastando o homem da verdade. Quanto maior for este afastamento da verdade, mais filosófico se torna o ensino, mais incoerente com as doutrinas fundamentais das escrituras este ensino se encontra, sendo inapta para revelar Jesus como o Cordeiro de Deus. Quando este ensino se sedimenta com tradições religiosas incorporadas na cultura de um povo, o desafio de conhecer a verdade se torna ainda maior, porque quem descobre a verdade precisa se opor às suas tradições familiares, religiosas e culturais. Dependendo do nível de evangelização de seu entorno, o desligamento destas tradições pode se tornar traumático, isolando esta pessoa de seus familiares e amigos. Dependendo da amplitude deste rompimento a pessoa pode preferir afastar-se da verdade, buscando ser ainda mais consciente de seus deveres religiosos impostos por suas tradições. Portanto a pergunta de Nicodemos em saber como se daria o processo do novo nascimento proposto por Jesus era uma pergunta traumática, com implicações que poderiam estar muito acima de suas forças neste processo de assimilar a verdade. Por outro lado conhecer a verdade é encontrar-se com Deus por meio de Jesus Cristo e, diante deste, fato toda pessoa deve ter a coragem de prosseguir com seus questionamentos até que a verdade possa de fato guiar seus passos.

Jo 3.10

“… Acudiu Jesus: Tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?" (Jo 3.9,10). Para entendermos esta observação de Jesus devemos ler uma afirmação feita por Ele em outro lugar. Naquela oportunidade Jesus fizera um longo sermão expondo a hipocrisia dos fariseus. No início de sua admoestação o Senhor disse: "[Os fariseus] amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos." (Mt 23.6-8). O Senhor fora duro em sua avaliação quanto aos fariseus por causa da posição que eles se arvoravam ocupar. Leia por você mesmo: "Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus" (Mt 23.2) A posição que os fariseus ocupavam em sua época era similar a dos pastores e padres hoje em dia. Enquanto eles eram interpretes da Lei, portanto do Antigo Testamento, os pastores e padres são expositores da Bíblia como um todo. Portanto se espera que estes homens conhecem o cerne da mensagem das escrituras: os fariseus apontariam a lei para o Cordeiro que haveria de ser morto e que os padres e pastores revelariam o Cordeiro que foi morto por meio do evangelho. Jesus mesmo demonstrou que o Cordeiro é o âmago das escrituras, que todos os textos precisam necessariamente apontar para Jesus, como podemos ler: "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim" (Jo 5.39). Portanto, ao demonstrar  a relação entre a posição que Nicodemos ocupava com a falta de conhecimento acerca do novo nascimento, o Senhor estava expondo a falência do sistema religioso de sua época. O farisaísmo falhou em receber Jesus como o Cordeiro de Deus como também hoje muitos pastores e padres podem falhar em apresentar Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Jo 3.11

"Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, não aceitais o nosso testemunho." (Jo 3.11). O Senhor traça uma nova linha divisória. Se antes demonstrara a distinção entre o nascimento natural e o espiritual, agora determina a diferença entre o ensino dos fariseus com sua doutrina. E, ao fazer esta distinção, muda a ênfase do "eu" para "nós". Quem é este "nós", qual a fonte de conhecimento do Senhor e o que Ele viu que pode ser testificado? Ao referir-se a "nós" ou Jesus se referia a Ele e seus discípulos, ou a Ele e o Espírito Santo. As evidências internas do texto apontam que era uma referência ao Espírito Santo, porque no verso 13 deste capítulo o Senhor faz menção àquele que desceu do céu. Como Jesus desceu do céu em forma de servo, se fazendo homem então Jesus está se reportando a Nicodemos não como Deus que Ele também é, mas como Homem que se fez. E, ao assumir esta posição, o Senhor demonstra na sua fala sua íntima conexão com o Espírito Santo que o gerou e que habitava nele enquanto Homem. Os líderes da igreja primitiva fizeram este mesmo destaque de incluir o Espírito Santo em um concílio realizado. Em Ato dos Apóstolos 15, depois de editarem uma decisão conciliar, eles colocaram no documento os seguintes termos: "Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais" (At 15.28). A diferença deste tipo de inclusão é que os discípulos cooperam com o Espírito Santo, enquanto Jesus Cristo é um com este mesmo Espírito, mesmo em sua condição humana. Quando o Senhor delimita seu conhecimento ao que sabe fazendo isso no plural, demonstra que seu aprendizado estava restrito ao Antigo Testamento, mesmo fundamento de onde os fariseus extraíam seus conhecimentos. Contudo o Senhor enfatiza que seu aprendizado fora realizado sob a assistência do Espírito Santo, por isso a expressão "nós sabemos". Por fim, ao referir-se ao que viu sob esta assistência, o Senhor está a demonstrar que todo conhecimento das escrituras geram experiência existencial.

Esta é a função do Espírito Santo, revelar ao coração o que a palavra de Deus manifesta na mente daquele que medita nas escrituras. Paulo afirma esta função do Espírito Santo: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus." (I Co 2.10). Foi com base nesta assistência que o Senhor Jesus extraiu do Antigo Testamento o conhecimento que estava a transmitir, fazendo por isso a distinção entre o que ensinava da doutrina dos fariseus. E, ao fazer esta distinção expos mais uma vez a incapacidade dos fariseus lidarem com as realidades espirituais, negando, inclusive, em receber o testemunho dado por Jesus Cristo sob a assistência do Espírio Santo. Outro aspecto a considerar é a amplitude do conhecimento de Jesus. Devemos nos lembrar que, enquanto esteve entre nós, o Senhor estava esvaziado de sua divindade, portanto aprendia como qualquer homem. E ao afirmar que transmitia o que sabia e o que via, demonstra por sua atitude que todo conhecimento procede de Deus. É o orgulho que nos faz pensar que nosso conhecimento é de nossa própria lavra. E por ferrarmos fileiras em derredor do que sabemos, podemos estar fechando nosso coração para a vontade de Deus. Temos de aprender de Jesus e nos deixar instruir pela palavra de Deus sob a orientação do Espírito Santo.

Jo 3.12

"Se, tratando de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das celestiais?" (Jo 3.12). Está é a terceira distinção que Jesus faz com Nicodemos e, neste caso, dentro da esfera do conhecimento divino. Neste caso a revelação que procede de Deus tem dimensão terrena e celestial. Sobre esta última dimensão certa feita o apóstolo Paulo fez a seguinte consideração: "Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até ao terceiro céu (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) e sei que o tal homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir." (II Co 12.2-4). Este evento citado por Paulo é um exemplo de quão profundo pode ser as coisas celestes. Saber que podemos conhecer estas realidades deve servir de incentivo para estudarmos as escrituras, contudo precisamos ter método. Isto porque assim como no ensino secular, para conhecermos as coisas profundas de Deus temos de aprender o bê-á-bá, depois os fundamentos básicos da fé, só então as coisas profundas.  Tem gente que quer estudar escatológica sem saber o que é justificação pela fé, nem regeneração gerada pelo Espírito Santo. Os que dão este salto no conhecimento poderão se enquadrar neste verso: "para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro." (Ef 4.14).

Jo 3.13

"Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem [que está no céu]." (Jo 3.13). Havíamos dito que a expressão plural da afirmação do Senhor acerca do que sabia incluía Ele e o Espirito Santo que estava sobre Ele. Agora o Senhor apresenta a mais forte evidência de ser Ele próprio a fonte de toda revelação, mesmo na condição do Filho do Homem. Precisamos ter em mente que Jesus Cristo é o Verbo de Deus, aquele que estava no princípio com Deus, mas que esvaziou de sua divindade para se fazer homem. Ao fazer a afirmação que subira ao céu, Jesus estava antevendo sua vitória sobre a morte, sua ressurreição e ascensão aos céus para ocupar o lugar de glória que lhe estava destinado findo seu ministério na terra. A inserção da expressão de que Jesus está agora nos céus pode ser considerado como um acréscimo de João, sendo fruto de sua convicção e testemunho de quem vira Jesus subir aos céus. Neste sentido temos o testemunho de Estevão, que sendo apedrejado por seus adversários, mesmo em condição tão adversa, foi capaz de perdoá-los e, antes de expirar, pode contemplar o Senhor, dando o seguinte testemunho: "… Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus." (At 7.56). É nesta posição de autoridade que Jesus se encontra e não de forma estática, antes está em movimento em favor do crente, seja intercedendo por ele, seja se colocando em pé para receber seu espírito quando finda a vida do cristão na terra. Assim Jesus demonstra a Nicodemos que tem autoridade tanto para ensinar as coisas pertinentes a esta vida, como também acerca da vida eterna. Aprender de Jesus é dispor-se a conhecer os céus dos céus, a estar diante do trono da graça e, a partir deste lugar, ter uma visão privilegiada de como transcorre a existência terrestre e seu nexo com as realidades eternas.

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