Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 3.14-21

Jo 3.14

"E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado" (Jo 3.14). É interessante que logo após ter dito que subiria aos céus, Jesus faz referência a serpente ser levantada no deserto. Jesus estava se referindo ao ocorido em Êxodo 21, quando o povo de Israel, a caminho do mar Vermelho, tendo de rodear a terra de Edom, veio a estar impaciente com os transtornos do caminho. Naquela oportunidade o povo reclamou das dificuldades da peregrinação dizendo ser melhor a escravidão no Egito que ser liberto por Deus, mas passando por lutas e tribulações. Foi quando o Senhor enviou serpentes abrasadoras para morder os murmuradores. Muita gente morreu pelo veneno das serpentes e, por isso, clamaram a Moisés, arrependidos por ter pecado contra Deus e o próprio Moisés, que O representava. Consultado, o Senhor ordenou moldar uma serpente de bronze, colocando-a sobre uma haste. Então o Senhor prometeu que todo mordido pela serpente que olhasse para a haste haveria de viver. Esta referência e comparativo que Jesus fez é plena de significados, o primeiro deles é este: fazer íntima conexão entre a promessa divina com o exercício da fé. O propósito de olhar para a serpente levantada era para salvar-se da morte certa e só fariam aqueles que reconhecessem que haviam sido mordidos pela serpente e estavam condenados ao trágico fim da morte. Só nesta condição a serpente levantada faria algum sentido.

A serpente levantada na haste de bronze é uma das grandes analogias que encontramos na Bíblia acerca da morte de Cristo na cruz. Primeiro porque ela nos remete a promessa de Deus, também chamado de protoevangelho registrado em Gn 3.15. Ali é dito que a serpente morderia a semente da mulher, uma alusão à morte de Cristo. Só que como a semente da mulher pisaria a cabeça da serpente, com isso se quer dizer que a morte de Cristo é, ao mesmo tempo, a morte da serpente, daí a posição dela na haste de bronze. O autor aos Hebreus faz menção desta vitória de Jesus na cruz nestes termos: "Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida." (Hb 2.14,15). O detalhe desta vitória épica é que Satanás tem um limite: ele pode matar, roubar e destruir. A morte que ele proporciona pode ser a pior e mais horripilante possível. O diabo pode fazer como nos campos de concentrações nazistas, ou nas torturas macabras das prisões comunistas, ou na pior de todas as mortes, as crucificações romanas, ainda assim tudo que ele pode fazer é levar alguém a morte. Todavia mesmo Jesus tendo passado pela mais atroz de todas as mortes, ao terceiro dia Jesus ressuscitou. Este é o poder de Deus. Note como Paulo faz este relato: "e foi designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor" (Rm 1.4). Jesus destruiu a morte porque ressuscitou, com isso destruiu o diabo, que tinha o poder da morte.

Outra analogia que a serpente levantada na haste de bronze nos traz diz respeito ao evento histórico que relatamos. Havia uma animosidade generalizada contra Deus no arraial de Israel. Muito deles estavam sendo picados por serpentes abrasadoras, no entanto só quem cria que olhando para a serpente ficava imune ao veneno escapavam da morte. Não é só Israel, mas a sentença de morte está sobre toda a humanidade, indistintamente. Somente quem ouve o evangelho, e por ele compreende que o destino inexorável da morte pode ser mudado em crendo em Jesus tem a vida eterna. É por morte substitutiva que se cumpre a justiça de Deus, pois Jesus, sendo Santo, morreu pelos pecadores para que, quem cresse que este sacrifício aplacou a ira de Deus, é salvo sem que nenhum mérito pessoal tenha incorrido neste processo.

Jo 3.15

"para que todo o que nele crê tenha a vida eterna." (Jo 3.15). Aqui está o ponto central da promessa do evangelho, a vida eterna. Temos demonstrado que no grego a palavra "vida" é designada por duas palavras distintas: "psique" e "zoe". A primeira trata da vida da alma, vida esta que naturalmente nos foi dada no nascimento, mas que tende para a morte. O segundo termo significa vida que procede de Deus, que tende para a eternidade, ainda que a morte física ocorra, pois depois haverá ressurreição. Com a ressurreição receberemos corpo glorificado, apto a viver eternamente. Esta vida qualificada, distinta da vida natural, nos é dada ao exercermos fé em Jesus Cristo como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Assim, crer em Jesus é crer que a sua morte na cruz da vida eterna ao crente, porquanto este evento é assemelhado ao da serpente levantada no deserto no sentido de exercer fé. E aqui está a pessoalidade da fé, cada indivíduo precisa tomar esta decisão consigo mesmo e com Deus diante dos homens. Não basta exercer fé tão somente para si, no recanto do seu quarto, sem que sua fé seja anunciada aos que estão ao seu derredor. Nicodemos foi, naquela noite, sozinho e escondido, falar com Jesus. Mas depois publicamente o defendeu em uma reunião do seus pares e, quando Jesus morreu, fez todos os procedimentos para colocar seu corpo no túmulo. Ainda que esta tenha sido a última menção de Nicodemos nas escrituras, é provável que após a ressurreição de Jesus a fé de Nicodemos tenha sido mais evidente aos seus pares. Contudo ainda que não tenhamos o modo como a fé de Nicodemos se desenvolveu, persiste o fato que somos chamados a crer, somos chamados a sermos batizados nas águas dando testemunho de nossa fé, somos chamados a integrar o corpo de Cristo local para cultivarmos nossas fé com nossos irmãos em Cristo. Somente preenchendo estes requisitos podemos entender que nossa fé está arraigada na doutrina da palavra de Deus e não é tão somente uma concepção particular que adotamos. É preciso apresentar o ciclo completo para onde a fé em Cristo conduz porque muitos estão adotando o comportamento de assumir que crê em Cristo, mas dispensando fazer parte do corpo de Cristo, o que é um contrassenso aos ensinos das escrituras. Fé é consequente, dá vida eterna e muda a atitude que a pessoa tem para com sua existência.

Jo 3.16

"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (Jo 3.16). Chegamos ao texto síntese mais conhecido do evangelho por sua capacidade de explicar os termos do relacionamento entre Deus e os homens visando a sua salvação. A exposição deste texto é inesgotável, o que vamos apresentar é uma abordagem básica. A primeira observação que fazemos é a íntima conexão e ação conjugada existente entre Deus, o Pai, com seu Filho Jesus Cristo em prol da salvação do homem. O segundo aspecto diz respeito a extensão da obra divina, tendo por objeto todo o mundo, isto é, a humanidade, indistintamente. Esta abrangência envolve tanto os judeus, povo de Deus, quanto os gentios, todos aqueles que não são judeus. O terceiro aspecto refere-se a finalidade da obra divina. O plano divino tem por finalidade conceder ao homem, cujo destino era fatalmente a morte, a vida eterna. O quarto aspecto e, de todos, o mais relevante, a ação conjugada de Deus com o seu Filho tinha como ponto convergente a crucificação de Jesus Cristo. Com isso por meio da morte maldita, Deus estaria revertendo o quadro caótico causado pela queda, trazendo vida e paz a todo aquele que crê. Por fim, o quinto aspecto a destacar é o profundo amor demonstrado por Deus, o Pai e seu bendito Filho, Jesus Cristo. Este amor é, sob todos aspectos, o mais sublime ato jamais visto em todo universo, porquanto o próprio Deus desce ao nível do homem caído para o resgatar. É por isso que o apóstolo Paulo fala que a obediência de Jesus foi altamente humilhante, indo até o ponto da morte, e morte de cruz (Fl 2.8). É por este amor que nos é concedido o novo nascimento e, com ele, a vida eterna.

Alguém pode considerar a cruz como prova do grande fracasso de Deus. Isto porque o homem natural tem a percepção que Deus só pode provar seu poder se extinguir o sofrimento da terra de modo a não permitir que nenhum inocente seja vítima dele. Este tipo de entendimento da morte não deveria causar nenhuma estranheza, pois esta forma de pensar já se evidenciara no jardim do Éden. Naquela ocasião, quando Deus questionou a desobediência de Adão, ele culpou tanto a mulher quanto Deus pelo seu desatino (Gn 3.12). Aliás, um dos maiores problemas causados pela queda foi a do indivíduo recusar-se assumir responsabilidade por seus atos, jogando a culpa no outro. Se considerarmos restritamente a desobediência à luz da ordem divina, Deus não precisaria salvar o homem, bastava executar a sentença: o salário do pecado é a morte (Rm 6.23 com Gn 2.17). O próprio apóstolo Paulo, citando os judeus e gentios no modo como eles consideram a cruz, escreveu: "Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios" (I Co 1.23,23). Observe que nenhum deles, portanto nenhum homem natural é capaz, por seu próprio entendimento, aceitar a morte da cruz como uma vitória de Deus, para um a cruz é escândalo, para outro é loucura, mas para o crente a cruz é a suprema demonstração do amor de Deus, a grande sacada da sabedoria divina. Isto porque na cruz Deus se identificou irrestritamente com o pecador, fazendo recair sobre seu Filho o pecado de toda a humanidade para executar em Jesus Cristo a completitude de sua ira. É por esta razão que o profeta conseguiu ver na cruz a salvação de todo o que crê: "Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados." (Is 53.5).

Jo 3.17

"Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele." (Jo 3.17). Jesus Cristo é um Ser de muitas missões. No início do evangelho de João foi destacada a primeira missão que Jesus tomou para si, qual seja, criar os céus e a terra. Está missão começou em Gn 1.1 e terminou em Gn 2.1 quando é dito que Deus descansou de todas as suas obras. João enfatizara está missão ao escrever: "Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Note que o verbo está no passado, esta missão fora cumprida a contento. A terceira missão de Jesus será exercer sua função judicial. Haverá o dia que toda humanidade e os anjos serão julgados por suas obras. Este julgamento será dividido em três esferas. Na primeira a igreja será julgada por suas obras para conferir a cada um galardões segundo seus feitos. A segunda esfera será o julgamento do grande trono branco, onde serão julgados todos os ímpios segundo suas obras. A terceira esfera em que Jesus exercerá o papel de juiz será o julgamento dos anjos, seres celestiais criados como espíritos. Este papel acontecerá em algum tempo, no futuro. Entre a primeira e terceira missão, Jesus exerce sua segunda missão, a de ser o Redentor. Esta missão iniciou logo após a criação, pois a provisão da redenção já existirá desde antes da criação, e está missão perdurará até iniciar a eternidade. É levando em conta cada uma de suas missões que Jesus fez questão de sinalizar a Nicodemos que sua missão atual é a de salvar o pecador, não o de condená-lo. É por esta razão que chamamos este tempo de dispensação da graça.

Vimos que Jesus Cristo é um ser com várias missões. Sua missão atual é salvar o pecador da ira vindoura. Entendamos está sequência de eventos. Desde a queda o homem natural incorre em três tipos de morte. A primeira é a morte espiritual, só revogada para aquele que crê em Jesus Cristo. Destes Paulo afirma: "Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados" (Ef 2.1). O segundo tipo de morte é a morte física. Podemos considerar este tipo de morte do homem natural como um encarceramento. Isto porque depois de um tempo, em dado dia, este será ressuscitado para o juízo final. Deste o apóstolo João escreveu: "Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras." (Ap 20.13). Todos que passarem por este julgamento incorrerão no terceiro tipo de morte, que é, na verdade, chamada de segunda morte, pois na primeira estão inclusos a morte espíritual e física, dois estágios da mesma coisa. Acerca desta segunda morte, que é uma morte eterna, está escrito: "Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo." (Ap 20.15). Observe que a própria morte e o inferno, lugar de encarceramento, serão lançados também no lago de enxofre, denotando seres espirituais com senso de consciência. Está é a trajetória de todo homem natural, que não recebeu Jesus Cristo como Senhor e Salvador. É para livrar deste fim trágico que Jesus veio para salvar o pecador. Quem não aceitar este convite terá de se deparar com Jesus na condição de Juiz.

Jo 3.18

"Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus." (Jo 3.18). O homem só tem dois destinos possíveis: a vida ou a morte eterna. Entenda algo importante: é da natureza divina ser eterno. Diz o salmista: “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus." (Sl 90.2). Por esta razão todo ser criado que tem consciência, os homens e os anjos, foram feitos para serem perpétuos. Ou hão de viver perpetuamente ou sofrerão pelos séculos dos séculos (Ap 20.10). Estes últimos, na terminologia humana estarão em prisão perpétua afastados de Deus, por isso se diz que estarão mortos em sofrimento eterno. Agora o objetivo do juízo final não é condenar ou absolver, mas modular o castigo. Isto porque a condenação do homem se deu na escolha de Adão, razão de Jesus declarar que já estão condenados os que não crerem em Jesus. Note que Jesus é o único caminho para levar o homem a Deus, tendo seu destino eterno direcionado para a vida eterna. É por isso que a Bíblia diz ser Jesus a pedra de esquina, como podemos ler: "Mas Jesus, fitando-os, disse: Que quer dizer, pois, o que está escrito: A pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular? Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó." (Lc 20.17,18). Jesus compara nossa vida com um edifício em construção. Quem edifica sabe que é fundamental a fundação de um edifício, sendo ela a responsável por mantê-lo de pé ou levá-lo a cair. A pedra de esquina é o principal ponto de firmeza e equilíbrio deste edifício, retirando-a, tudo entra em colapso.

Jesus é a pedra de esquina, portanto quem edificar sua vida sem levá-lo em consideração pode acontecer de duas, uma coisa: ou o edifício cai por si mesmo, ou o próprio Cristo derrubará este edifício em ocasião própria, que se dará depois de consumado o tempo da graça. Primeiro em relação a queda do edifício no tempo da graça, Jesus certa feita fez uma advertência. Vamos ler: "Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha. E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína." (Mt 7.24-27). A ênfase do Senhor é que a palavra de Deus é o fundamento de toda edificação, sendo Jesus a principal pedra de esquina desta palavra, o centro para onde converge toda revelação. Edificar sua vida sem levar em conta a palavra de Deus traz consigo o ônus de ver o edifício cair por si mesmo, por seus próprios erros, por seus desatinos e isto se evidenciará no tempo da tribulação. Quanto a pedra caindo sobre o edifício esta parte do texto é uma referência a profecia de Daniel: "como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro. O Grande Deus fez saber ao rei o que há de ser futuramente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação." (Dn 2.45). Nesta profecia os minerais são referências as nações, a pedra vem sobre elas e as destrói, isso se dará na batalha de Armagedon. Ou seja, em síntese Jesus diz que agora é o tempo da graça e neste tempo Ele veio para salvar, findo este tempo agirá como Juiz, sendo posto diante de cada um de nós a oportunidade de decidir em crer ou não Jesus Cristo, decisão está que tem repercussão eterna.

Jo 3.19

"O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más." (Jo 3.19). Este julgamento entrou em pauta desde a queda e se evidenciou de forma muito mais categórica com a crucificação de Jesus. Isto porque o Antigo Testamento apontava o Cordeiro que estava por vir e o Novo Testamento o Cordeiro que veio, de modo que todas as escrituras se convergem para Jesus Cristo. Vamos entender este julgamento nos colocando no lugar de Adão. Imagine você comendo do fruto proibido. Primeiro, como você sabe que o fruto é proibido? Por que Deus disse que se comesse deste fruto, você haveria de morrer (Gn 2.17). Mesmo assim você comeu. A luz do que Deus disse qual foi o resultado imediato de você ter comido? Você morreu, fim da história. Ocorre que Deus voltou ao jardim e perguntou por você e onde você estava? Escondido porque se vira nú e ficara com vergonha e culpa por seu ato. Entenda, você devia estar literalmente morto, fulminado, no entanto você estava vivo e escondido. Esta sobrevida foi um ato de misericórdia de Deus para dar tempo de você se lembrar da palavra dele: – se comer, morre e, com isso, se ainda consegue falar, clamar por misericórdia. No entanto não foi isso que você fez, antes se escondeu. Então Deus falou pela segunda vez: que haveria de enviar um homem para pisar a cabeça da serpente, ainda que viesse a ser morto por ela (Gn 3.15). Ou seja, um homem que se identificaria plenamente com nossa morte para nos salvar (Jo 3.16). Agora pense: você já estava judicialmente morto, a única esperança que restava era confiar na vinda deste homem e, mesmo ele tendo vindo, morrido na cruz e ressuscitado, ainda assim você não crê? Qual seria a causa desta incredulidade? É que você prefere se aferrar a seu estilo de vida, ainda que seja totalmente contrário a palavra de Deus, a se arrepender, crendo no sacrifício de Jesus para o salvar. Isto é uma dupla rejeição: rejeitar a ordem divina que se comer, morre e rejeitar a salvação divina, que se crer é salvo da morte.

Jo 3.20

"Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras." (Jo 3.20). Vamos qualificar estas obras. Muitos consideram pecados como sendo estas obras citadas por Jesus, principalmente aqueles mais crassos: roubo, adultério, mentira, homicídio. Contudo estas obras são toda e qualquer ação feita pelo homem com base em sua própria força, entendimento e vontade própria. Colocando de outro modo, envolve tudo aquilo que o homem faz por seu próprio interesse ou em favor de outro, contudo não para a glória de Deus. Sendo ainda mais específico, tudo que é feito com base na energia vital proveniente do nascimento natural. Devemos nos lembrar que Jesus disse que ninguém pode nem ver, nem entrar no reino de Deus sem ter nascido de novo. Quando este nascimento ocorre a pessoa não só recebe a vida de Deus, isto é vida "zoe", como também se torna habitação do Espírito de Deus. E quem se une com o Espírito de Deus se torna um com ele (I Co 6.17), portanto, desde este dia em diante suas obras são feitas no Senhor, pois Deus opera nele tanto o querer quanto o realizar (Fl 2.13). É nesta perspectiva que todo homem nascido natural, sem ter experimentado o novo nascimento, tende a se afastar da luz para que suas obras não sejam manifestas, ou seja, para que não fique evidenciado que esta pessoa vive para si mesmo, não para Deus. Por outro lado se ele se aproximar da luz o que será despertado é sua consciência. A consciência é a interface entre a alma e o espírito humano. É por meio da consciência que o homem desenvolve o senso da presença de Deus, bem como recebe as iluminações da palavra de Deus. Assim, não se deixar arguir pela palavra de Deus significa não permitir que sua consciência pese as verdadeiras motivações de suas obras. O resultado é que esta pessoa é movida por uma falsa identidade, visto que o verdadeiro eu só se releva à luz da verdade proveniente da palavra de Deus.

Jo 3.21

"Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus." (Jo 3.21). Há certas nuanças no texto bíblico que devemos prestar atenção. Jesus disse que ou praticamos más obras ou praticamos a verdade. A gente diz algo assim: – eu pratico esporte. Quem ouve entende que eu tenho por hábito  ou correr ou jogar futebol vou fazer outro esporte qualquer. Só que praticar esporte não forma minha identidade, pois eu não sou o que faço, sou muito mais que isso. Assim eu não sou nem o mal, nem a verdade que pratico, sou muito mais que isso. O que eu sou então? Ou sou nascido natural ou nasci segunda vez e agora sou filho adotivo de Deus. Por consequência todo nascido natural pratica as más obras e todo nascido de Deus pratica a verdade. Observe o que Jesus disse nesta passagem bíblica: que praticar a verdade faz alguém aproximar-se da luz e que suas obras são feitas em Deus. Como Jesus é "… a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem (Jo 1.9), praticar a verdade é aproximar-se de Jesus, sendo este o primeiro estágio da fé, isto é, ver o reino de Deus. Este é o tempo em que o indivíduo apreende a verdade, mas não sabe se entra ou fica de fora. Ele quer compartilhar sua centelha de fé, mas a pressão de seu meio e as dúvidas de seu coração impede de decidir-se por Cristo. Quando este recebe a Cristo como seu Senhor e Salvador, então sua condição de ser muda radicalmente por se tornar filho de Deus, habitação do Espírito Santo. Desde então todas suas obras são feitas em Deus, como que dizendo dentro de Deus, por isso dentro do âmbito ou do território do reino de Deus.

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