Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 3.22-36

Jo 3.22

"Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judeia; ali permaneceu com eles e batizava." (Jo 3.22). Nós podemos comparar esta passagem a uma corrida de bastão. Isto porque Jesus deu continuidade ao ministério de João Batista à medida que pregou a chegada do reino de Deus expressando a necessidade do arrependimento para entrar nele. Os que criam eram batizados, assim como João Batista o fazia, ainda que não era o próprio Jesus quem batizava, como o texto parece dar a entender, mas seus discípulos como registrado em João 4.2. É importante ressaltar este senso de continuidade, porquanto muitos, por não entenderem o papel do Antigo Testamento em relação ao Novo, fazem críticas grosseiras ao modo de Deus agir no Antigo Testamento em desconhecimento de causa. Este senso de continuidade pode ser sintetizado deste modo: Deus criou o homem, este rejeitou a Deus voltando-se para si, incorrendo na morte. Deus enviou o Salvador para resgatar o homem, revelando sua lei para que este reconhecesse a necessidade de salvação. O homem enquadrou a lei de Deus nos seus próprios termos, julgando com isso alcançar méritos para conquistar sua própria salvação, rejeitando a Deus. Jesus veio, proclamou a necessidade de cumprir todos os requisitos da lei de Deus como condição única para ser salvo, meta impossível para qualquer homem cumprir. Tendo cumprido toda lei entregou sua própria vida em lugar do pecador, se fazendo pecado na cruz para que, por meio dos seus méritos, salvasse todo aquele que nele crê. Para que o propósito de seu ministério fosse compreendido, pregou na região da Judéia, isto porque Jesus veio primariamente para os judeus, como estes recusaram a oferta, com a morte de Jesus esta oferta foi estendida a todo o mundo. Devemos observar que se os judeus tivessem compreendido a promessa de Deus a Abraão que em Abraão, pai de todo judeu, todas as famílias da terra seriam abençoadas, bastava aos judeus aceitarem de bom grado a pregação de Jesus e eles próprios teriam se tornado os evangelistas de todas as eras, mas ainda no início do evangelho de João este escreveu: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam" (Jo 1.11). Hoje um pregador é medido pela capacidade de converter em resultado visível sua mensagem, no entanto Jesus pregou em toda aquela região resultando em sua própria rejeição, pois os seus não o receberam. Contudo ainda assim ministrou para que nenhum homem pudesse se escusar diante de Deus esta oferta de salvação que seria conquistada mediante o sacrifício de Jesus Cristo na cruz.

Jo 3.23

"Ora, João estava também batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e para lá concorria o povo e era batizado." (Jo 3.23). Aqui vemos dois ministérios concorrentes, pois Jesus batizava, também João o fazia. O problema estava em que o ministério de João tinha por objetivo anunciar o Cordeiro de Deus que estava por vir, contudo este ministério tinha de ter encerrado no dia que João fez este anúncio, apontando para Jesus. Agora, observe em que ponto os ministérios são coincidentes: Jesus, como João anunciavam a chegada do reino de Deus e ambos batizavam os que criam nesta verdade. Agora veja a linha divisória entre ambos os ministérios: "A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele." (Lc 16.16). Note que enquanto o ministério de João estiver em curso, a lei está valendo, contudo findo seu ministério, esta dispensação foi encerrada, dando início ao tempo da graça sob o ministério de Jesus Cristo, que perdura até nossos dias. Então qual seria o grande objetivo da lei e dos profetas, portanto de todo o Antigo Testamento? O apóstolo Paulo responde: "De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé." (Gl 3.24). Este foi o objetivo tanto da lei quando do ministério de João, conduzir o pecador a Cristo, por isso ambos os ministérios têm como ponto de convergência o batismo, ou seja, o testemunho público da fé, depois deste marco temporal só a graça deve prevalecer de modo que o crente não mais fica sob a tutela da lei. É muito importante observar este delimitador temporal porquanto muitos crentes vivem ainda sob a égide da lei, regulando suas vidas com base no que pode ou não ser feito. Este estilo de vida não procede da fé, antes ainda é resquício do legalismo como quem quer manter ambos os ministérios concorrentes, o de João e o de Jesus. Foi para fazer esta advertência que João, o evangelista, fez questão de ressaltar que mesmo Jesus já exercendo seu ministério, João Batista perdurou em continuar com sua prédica, como que demonstrando o risco que existe da lei querer se sobrepor a graça.

Jo 3.24

"Pois João ainda não tinha sido encarcerado." (Jo 3.24). O ministério de João tinha seu tempo determinado para acabar e isto se daria com sua prisão. É importante esta referência porque aqui João estava recebendo a confirmação de seu ministério por uma apreciação positiva em uma perspectiva negativa. Isto porque é feito referência que João haveria de ser preso para, em seguida, morrer decapitado pela mão do rei. Com isso João estava cerrando fileira com todos os profetas que vieram antes dele como podemos ler: "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós." (Mt 5.11,12). É curiosa esta afirmação que o fim último do profeta é a sua rejeição, pois se ele vem da parte de Deus porque ele não é recebido entre os seus? Para entender este fato é preciso ter em mente que este mundo está morto em seus delitos e pecados, contudo habituado a este estilo de vida em oposição a vontade de Deus. Quando uma pessoa nestas condições se depara com a palavra de Deus, sua tendência natural não é buscar a luz, mas esconder-se nas trevas. Ocorre que este conflito interior só se estabelece quando a voz de Deus soa em seu coração. Considere o seguinte: em um encontro social as pessoas aceitam falar sobre qualquer coisa, desde política, esporte, trabalho, conversas triviais, agora se for colocado em pauta a palavra de Deus, as pessoas imediatamente mudam de postura, se tornam agressivas, afloram toda sorte de preconceito contra os crentes, recriminam e taxam de fanáticos os que se dedicam a estudar a palavra de Deus. Esta mudança de atitude é a mesma encontrada naqueles que levaram João Batista a prisão, pois o pregador precisa ser calado para que as consciências dos homens naturais voltem ao seu ponto de inanição, pois se a consciência desta pessoa não se calar, ou  indivíduo vai agredir o profeta ou terá de se arrepender por ter um estilo de vida centrado em si mesmo, sem dar glórias a Deus. A prisão de João Batista o coloca no rol dos profetas, por outro lado encerra a dispensação da lei. Desde então todos os olhos se voltam para o ministério de Jesus Cristo.

Jo 3.25

"Ora, entre os discípulos de João e um judeu suscitou-se uma contenda com respeito à purificação." (Jo 3.25). O cerne desta questão era o batismo nas águas. Este judeu, ao questionar os discípulos de João, por via indireta, questionava a própria autoridade de Jesus em batizar. Só que a questão foi ampliada, este judeu não só questionava o batismo, como estendia a tudo que envolvia purificação, como por exemplo, lavar as mãos antes de comer, limpar os vasos usados no templo e outras coisas desta natureza. A primeira coisa a observar é que houve uma discussão meticulosa e abrangente sobre o assunto. Hoje as pessoas não suportam mais discutir um assunto com profundidade, antes consideram qualquer contestação uma agressividade sem propósito. No entanto as discussões são necessárias para trazer a tona a verdade e contrastá-la com a mentira. A segunda observação que fazemos diz respeito aos assuntos abordados por João Batista em suau pregação. Ele pregou sobre o arrependimento, o reino de Deus e o batismo. Se fossemos categorizar estes assuntos em termos temporais, poderíamos dizer que o arrependimento trata do passado, o batismo do presente e o reino de Deus do futuro. E qual fora o objeto de discussão entre eles senão o batismo sob a ótica da purificação. E por que a discussão se restringiu a este ponto? É que as pessoas em geral têm dificuldade de entender as coisas de Deus, principalmente aquelas que estão completamente fora de sua área de entendimento, neste caso o reino de Deus. Os pontos ressaltados são, em geral, aqueles que estão sob a governabilidade humana. A discussão sobre a purificação poderia levar aos homens escolherem se seria melhor batizar em um rio, um lago, uma piscina ou uma pia. Poderia definir quais seriam os ritos necessários que deveriam acompanhar o batismo: Se deveria ser acompanhada da invocação do nome de Deus, ou de Deus e de Jesus, ou de Deus, de Jesus e do Espírito Santo. Todas estas questões fazem florescer e enaltecer a ação humana, deixando completamente de lado o propósito divino. Assim, em que pese parecer haver alguma sabedoria neste tipo de discussão, na verdade são despistes para fugir do verdadeiro âmago da questão: se a pessoa quer ou não entrar no reino de Deus e ficar debaixo da soberania divina.

Jo 3.26

"E foram ter com João e lhe disseram: Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro." (Jo 3.26). Se o judeu questionou os termos como se dava a purificação, uma questão periférica, os discípulos de João foram além, questionaram o próprio ministério de Jesus. O pior não é este questionamento, mas a incapacidade deles em compreender a própria mensagem de João Batista. Eles tinham consciência que João anunciava Jesus, mas se recusavam sair de seu ponto de conforto para seguir a Jesus. Hoje muitos agem deste modo: reconhecem que Jesus é o Salvador, mas contestam a igreja formada pelo conjunto de  seus discípulos. Acreditam que podem seguir Jesus de longe, sem se comprometer com seu povo, sem deixar sua religião, sem dar testemunho público de sua fé, enfim, sem se deixar batizar nas águas pelos discípulos de Jesus. Quem age assim muda seu foco deixando de questionar os rituais para externar seu preconceito em relação aqueles que demonstram publicamente sua fé em Jesus. Por exemplo, determinada igreja pode dar maior ênfase nos temas da ecologia e justiça social. Estes acreditam que salvar o planeta e cuidar dos pobres é muito mais importante que nascer de novo para entrar no reino de Deus. Quem assim age coloca Jesus como mensagem periférica, questionando seus seguidores, taxando-os como fanáticos, classificando a teologia deles como herética. Foi o que aconteceu com os discípulos de João, se aferrando no seu ponto de conforto, rejeitando, com isso, Jesus, o objeto último da mensagem de João Batista.

Jo 3.27

"Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada." (Jo 3.27). A resposta de João foi incisiva: os céus governam a terra, sendo esta a invocação do Pai nosso ensinado por Jesus: "venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6.10). Este é o ponto crucial de toda questão: Deus está ou não no controle de todas as circunstâncias? Nós podemos facilmente incorrer no erro de considerar que todas as conquistas e vitórias que temos são fruto de nossos esforços, capacitações e talentos. Agora considere o mais básico de todos os trabalhos: a agricultura. O lavrador lança a semente sobre a terra, então aguarda as chuvas tanto no plantio quanto próximo da colheita. Sendo as condições metereológicas favoráveis ele tem uma grande e lucrativa colheita. No mínimo se pode dizer que os céus colaborou com o agricultor para que seu labor fosse recompensado, contudo se considerarmos que o lavrador só pode lançar a semente porque teve saúde, então temos de considerar que tudo veio de Deus. Mas o homem facilmente se esquece deste detalhe, trazendo para si toda glória do sucesso de seu trabalho. João não caiu nesta armadilha, para ele qualquer ação na terra só tem sentido se ela estiver sob o governo dos céus. Paulo, o apóstolo, colocou esta verdade nos seguintes termos: "Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação" (II Co 4.17). Note que extraordinária perspectiva existencial: tudo quanto fazemos na terra repercute na eternidade. Faça o seguinte paralelo: você é contratado para trabalhar em dada empresa. Nada sabe da função que vai exercer, mas confia inteiramente no treinamento que recebe. Então, quando você está diante de dada situação laboral, sabe como agir porque fora treinado para resolver a questão. Do mesmo modo tudo que fazemos hoje faz parte do treinamento para vivermos a eternidade, pois a promessa que temos é que seremos reis e sacerdotes. Quando buscamos o fim último da vida, então a palavra de Deus faz sentido, o batismo não é só batismo, mas o testemunho público de uma fé viva, o segundo passo nesta jornada extraordinária de fazer parte do reino de Deus. Segundo porque o primeiro é o novo nascimento fruto de receber Jesus como Senhor e Salvador.

Jo 3.28

"Vós mesmos sois testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor." (Jo 3.28). Cada grupo de indivíduos mostrou para onde converge o centro de seus interesses: o judeu questionava a purificação, os discípulos de João discutiam a autoridade do ministério de Jesus, João Batista, contudo era como a bússola que sempre se volta para o Norte. Ele fez questão de relembrar aos seus discípulos qual era a centralidade de sua mensagem: anunciar o Cordeiro de Deus. Note como João tinha consciência de sua identidade, ele não era o Cristo, mas a voz do que clama no deserto, o precursor, aquele que veio com a exclusiva missão de preparar o caminho para o Senhor. Com isso se quer dizer que João Batista veio para fazer o Antigo Testamento convergir para Cristo, para demonstrar que todas as mensagens dos profetas que vieram antes dele tinham por foco apontar para a vinda do Cordeiro. Assim como João Batista fez com o Antigo Testamento, Paulo fez com o Novo, demonstrando a centralidade da cruz como podemos ler: "… nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios" (I Co 1.23). Se encaminharmos para o fim das eras lendo o Apocalipse de João, vamos nos deparar com o Cordeiro também: "quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos" (Ap 5.8). Nós precisamos ter esta mesma clareza da centralidade do Cordeiro de Deus para não nos perdemos na amplitude da teologia, pois o principal é fazer nossa existência girar em torno da cruz de Cristo.

Jo 3.29

"O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o ouve muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim." (Jo 3.29). Este é uma das passagens mais difíceis do evangelho de João. Isto porque João, que apresentou Jesus como sendo o Cordeiro de Deus, agora declara ser ele o Noivo. Aqui surge a pergunta: Então quem é a noiva? De onde João tirou a ideia que Jesus é o Noivo? Quem é o amigo do Noivo? De modo simples, com base no texto, podemos dizer com clareza: Jesus é o Noivo, João é amigo do Noivo. Ocorre que João é o último representante do Antigo Testamento, portanto de Israel. E quem é Israel? Deixemos Paulo responder: "São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!" (Rm 9.4,5). Em síntese Israel é o povo escolhido de Deus para o representar no Antigo Testamento. Então a primeira conclusão que chegamos é que o amigo do Noivo é Israel. Jesus é o Noivo e, a luz do Novo Testamento a igreja é a noiva. Mas quem é a igreja? É o povo de Deus no Novo Testamento, formado tanto por judeus quanto gregos, por todos aqueles que receberam Jesus como Senhor e Salvador. De onde João tirou o conceito que Jesus é o Noivo? No projeto inicial de Deus, quando ele deu a Adão sua mulher e Adão concluiu que o homem haveria de se unir a sua esposa, sendo os dois uma só carne. Por dedução João compreendeu que Jesus era este homem, o representante legal do povo de Deus, pois Adão perdera esta posição na queda. Sendo Jesus este homem, por conclusão Deus haveria de preparar a ele também uma esposa, dai a condição de Jesus ser o Noivo como que aguardando esta esposa preparada por Deus. João, intuitivamente anteviu esta verdade que só seria plenamente revelada com Paulo, o apóstolo e depois, por visão, pelo apóstolo João como podemos ler: "Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo." (Ap 31.2). Como uma cidade pode ser ao mesmo tempo a noiva é um dos grandes mistérios das escrituras, mas de forma bem simples podemos dizer que esta cidade é, na verdade,  um bloco de pessoas que estão reunidas e, quem de longe olhar terá a impressão que o formato geométrico deste bloco se assemelha, comparativamente falando, a uma cidade, no entanto, olhando bem de perto percebe-se que este bloco nada mais é que uma grande quantidade de gente salva, lavada e remida pelo sangue de Jesus reunida para adorar a Deus, o Pai eterno.

Jo 3.30

"Convém que ele cresça e que eu diminua." (Jo 3.30). No bojo da discussão sobre purificação os discípulos de João questionaram a autoridade de Jesus para batizar. João os faz lembrar que Jesus era a razão de ser de seu ministério e que a autoridade, tanto de João quanto de Jesus vinha dos céus, do trono de Deus. Lembrando que Jesus mesmo destacou que a lei de Moisés veio até João, este extraordinário profeta do Antigo Testamento reconheceu em seu ministério o fim da dispensação da lei. É neste contexto que João declarou que convém que ele diminuísse abrindo espaço para o ministério de Jesus crescer. Na verdade João poderia ter dito que convinha seu ministério cessar, mas ele sabia que havia toda uma estrutura e cultura em torno da lei de Moisés, como por exemplo o templo de Jerusalém, o ministério levítico, os partidos saduceus e fariseus, as escolas rabínicas. Nenhuma destas estruturas iriam abrir mão para reconhecer de imediato o ministério de Jesus, pelo contrário, tão logo perceberam que Jesus questionava fundamentalmente o ministério deles, trataram de matar o próprio Jesus. Portanto quando João declarou que importava ele diminuir, de forma sútil estava dizendo que o interstício entre os dois ministérios seria conflituoso, mas ao final o Senhor haveria de prevalecer. Observe quão trágico foi esta transição: primeiro Jesus foi morto pela força da estrutura religiosa judaica, depois a igreja foi perseguida em todo o mundo por esta mesma estrutura, por fim, em juízo a rejeição de Jesus o próprio templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos no ano 70 d.C., vindo os judeus a serem espalhados por todo o mundo, situação que persistiu até o ano de 1948, quando Israel voltou a ter reconhecido o seu direito de ter uma nação no Oriente Médio. Assim, a fala de João ao declarar a necessidade dele diminuir, levando em conta ser ele o último representante da lei de Moisés constituído por Deus, foi uma declaração que descortinou a passagem dos séculos até chegar a nós.

Jo 3.31

"Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio do céu está acima de todos" (Jo 3.31). João argumenta com seus interlocutores sobre as realidades espirituais. Devemos nos lembrar que a questão que estava na mesa era sobre purificação e, depois, o questionamento da autoridade de Jesus para ministrar o batismo. Primeiro João ressalta que o cerne de sua mensagem é apresentar Jesus como o Cordeiro de Deus e o Noivo precioso, do qual João é apenas um amigo. Agora João Batista faz seus discípulos saber que a autoridade de Jesus é infinitamente superior a dele. Entenda uma coisa: Jesus Cristo e a palavra de Deus, a Bíblia, são os dois uma só coisa. Leia por você mesmo a descrição que é dada acerca de Jesus, quando de sua segunda vinda: Apocalipse "Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus" (Ap 19:13). Nesta passagem bíblica João está fazendo referência a esta mesma revelação: Jesus Cristo é o Verbo de Deus, aquele que estava com Deus desde o princípio, portanto sua autoridade para revelar as realidades celestiais e originárias, não é delegada, como é o caso de João Batista. Jesus veio do céu, João nasceu da terra. João foi um vaso escolhido por Deus para dar testemunho de Jesus, mas Jesus é o próprio Deus feito homem, portanto não há como comparar autoridade de Jesus com a de João Batista. Portanto Jesus está acima de todos, tem toda autoridade e, de forma inquestionável, traz a palavra de Deus aos homens. Por conclusão quando nos aproximamos de Jesus não é para questioná-lo, mas para aprender dele e segui-lo.

Jo 3.32

"e testifica o que tem visto e ouvido; contudo, ninguém aceita o seu testemunho." (Jo 3.32). É interessante o modo como João assinala que Jesus recebeu as revelações dos céus. Ele não é testemunha por ter estado nos céus como o Verbo de Deus, mas porque na condição de homem perfeito, o Filho de Deus, tem completo discernimento do que seu Pai celestial lhe mostra à partir da palavra de Deus, o Antigo Testamento. Neste aspecto Jesus é o perfeito estudante das escrituras porquanto se deixa instruir inteiramente por seu Pai celestial, como cada um de nós deveríamos deixar ensinar também. Nós precisamos entender que a Bíblia é um livro que será lido por toda a eternidade, pois está escrito: "Para sempre, ó Senhor, está firmada a tua palavra no céu" (Sl 119.86). É por esta razão que as escrituras são inesgotáveis e, se reunirmos todos os estudiosos de todas as eras, podemos dizer que ainda não foi compreendido 1% de tudo que há nas escrituras, isto se levarmos em conta esta dimensão eterna. Jesus veio para tornar clara a instrução divina, contudo ainda assim ninguém recebe seu testemunho. E por que não recebe? Porque o homem natural está em animosidade contra Deus e se não se deixar convencer pelo Espírito Santo, permanecerá em sua ignorância. Trazer alguém à luz do evangelho é uma operação de guerra pouco compreendida mesmo pelos cristãos e João ressalta esta animosidade contra o testemunho de Jesus. Tanto é verdade que Jesus morreu crucificado por causa das verdades que declarou.

Jo 3.33

"Quem, todavia, lhe aceita o testemunho, por sua vez, certifica que Deus é verdadeiro" (Jo 3.33). Do ponto de vista humano todo aquele que se depara com o testemunho de Jesus Cristo tem em si a capacidade de receber ou rejeitar este mesmo testemunho. João pregou que Jesus é o Cordeiro de Deus, sendo esta a revelação central das escrituras, todas as demais revelações acerca de Jesus giram em torno desta mensagem central. Por exemplo: alguém pode entender que Jesus foi o maior profeta que já existiu. Isto é profundamente verdadeiro, mas se este discernimento não chegar na cruz, para este indivíduo Jesus é apenas um homem, jamais o próprio Filho de Deus, jamais o Salvador, jamais o Cordeiro de Deus. Isso nos traz duas formas distintas de estudar as escrituras: a primeira é por meio da dúvida intermitente. Neste caso a pessoa lê retirando do texto tudo aquilo que foge a sua compreensão como, por exemplo, o milagre. Quem lê deste modo pode entender que a Bíblia é um livro mitológico, onde histórias são elaboradas para dar ao leitor compreensão espiritual. Assim não é preciso crer  milagre para entender a Bíblia. Já o outro tipo de leitor é este nominado por João Batista. Este leitor aceita a Bíblia em sua plenitude, mesmo as partes que não compreende. Quem lê a Bíblia com esta perspectiva fica cada página lido ainda mais admirado com a graça de Deus. Este leitor é profundamente edificado pela palavra de Deus. Este é capaz de se apropriar das promessas de Deus para si, crendo no beneplácito divino para consigo. Este se deixa tratar por Deus, renovando sua mente, sendo transformado pelo poder de Deus na imagem de Cristo. Este compartilha de sua fé com alegria, cônscio que ao anunciar o evangelho possibilita outros se tornarem também filho de Deus como ele o é. Enfim, quem aceita o testemunho de Jesus discerne que Deus é verdadeiro em sua intenção de salvar o pecador por meio do sacrifício de seu bendito Filho unigênito Jesus Cristo.

Jo 3.34

"Pois o enviado de Deus fala as palavras dele, porque Deus não dá o Espírito por medida." (Jo 3.34). Este enviado é Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus que se fez homem. João Batista afirma que em Jesus estava muito mais que a plenitude do Espírito Santo como se pode deduzir da expressão "não por medida". É-nos impossível compreender o que João nos quer transmitir e, para termos certa noção do que isso significa consideremos o seguinte: o universo tem 13,5 bilhões de anos. O seu tamanho chega a 156 bilhões de anos luz, sendo a área observável de 93 bilhões de anos luz. Um ano luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros. Por conclusão nos é impossível imaginar a dimensão do universo. E por que toco neste assunto? O que tem a ver a presença do Espírito Santo sem medida em Jesus com o tamanho do universo? Para ter a noção da dimensão do Espírito Santo primeiro leia como o Espírito deu forma ao universo: "A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas." (Gn 1.2). Entenda por águas, neste contexto, a matéria primaveral que formou todo o universo. Isto significa que naquele ponto inicial o Espírito já era maior que o universo. Depois disso o universo expandiu e chegou a dimensão mencionada. Agora veja como o Espírito de Deus se relaciona com todo este universo criado: "Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá." (Sl 139.7-10). Ou seja, o Espírito Santo ocupa todo o universo criado. Tendo esta noção faça consigo a pergunta: como este Ser infinito habitou em Jesus Cristo levando em conta seu corpo humano finito? Este é um dos maiores mistérios das escrituras.

Jo 3.35

"O Pai ama ao Filho, e todas as coisas tem confiado às suas mãos." (Jo 3.35). Quando lemos esta afirmação temos de qualificar estas coisas que foram confiadas por Deus, o Pai eterno, ao seu Filho Jesus Cristo. Em seu ministério terreno Jesus está confinado ao planeta terra. Foi só depois de sua ressurreição que é dito que Jesus recebeu toda a autoridade nos céus e na terra (Mt 28.18), portanto a autoridade que Jesus Cristo tinha enquanto homem era sobre a terra baseada em Gn 1.26,28. Ocorre que João Batista afirmou que Deus, o Pai eterno ama a Jesus Cristo, seu Filho feito homem, confiando a ele todas as coisas. Oras, se segundo a palavra de Deus, por Jesus Cristo ser o Filho do Homem já tinha autoridade sobre a terra porque a ênfase na confiança de Deus, seu Pai para lhe entregar todas as coisas? O que o Pai eterno estava lhe entregando que exigia confiança absoluta? Haveria algo, além de tudo que existe na terra a ser entregue a Jesus que necessitava esta confiança do Pai no Filho e, por conseguinte esta demonstração de amor? Faça o seguinte paralelo: seu amigo vai sair em viagem e você confia a este amigo seu bem mais precioso para ele levar junto, seu filho. Enquanto seu amigo prossegue viagem, seu filho, que não precisava estar ali, segue junto como demonstração de sua confiança em seu amigo. Do mesmo modo Jesus estava na terra exercendo seu ministério. Ele poderia fazer isso perfeitamente com base em sua própria capacidade e inteligência. Contudo Deus, o Pai chega até Jesus e disse: – quer fazer todas as coisas com o meu Espírito? Jesus de bom grado aceitou a oferta. Assim Jesus nasceu gerado pelo Espírito e teve toda sua existência terrena movida pelo Espírito de Deus. É nestas perspectiva que Deus entrega a Jesus em confiança todas as coisas, pois deu a ele o seu próprio Espírito. Esta verdade é também aplicada a nós que somos habitação do Espírito Santo, pois está escrito: "Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus." (I Co 3.21-23). Portanto a todos quanto Deus, o Pai eterno, confiou o seu Espírito Santo demonstrou, por seu bendito amor o quanto amou e confiou em seus filhos amados. Isto é verdadeiro a nós, tanto mais quanto é em Jesus Cristo, que recebeu o Espírito Santo sem nenhum grau de medida, ou seja, imensuravelmente.

Jo 3.36

"Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus." (Jo 3.36). João Batista conclui este notável discurso aos seus discípulos com um apelo. Esta é a razão de ser da apresentação do evangelho: mostrar aos homens que eles têm uma escolha entre a vida e a morte eterna. Para a morte nada precisa ser feito, pois a ira de Deus já está sobre toda a humanidade. Entenda-se por ira de Deus não acontecimentos fortuitos que abatem sobre o ser humano, como por exemplo uma enfermidade fatal. Este tipo de evento decorre da queda, de vivermos em um planeta desajustado por interferência humana. A queda comprometeu todos os aspectos da existência. Apenas para ilustrar com uma situação bem simples: o homem trabalhava ainda no jardim do Éden, com a função de guardar e lavrar este jardim. Com a queda a terra passou a produzir espinhos e abrolhos, com isso se quer dizer que o sustento passou a ser instável, portanto o trabalho depois da queda traz consigo a incerteza de se colher o seu fruto. Esta maldição é decorrente da queda, mas em si não corresponde a ira de Deus. Esta ira se manifesta na presença da morte, porquanto a sentença era: se comer do fruto proibido morre. Como o homem comeu do fruto proibido a morte passou a todos os homens, sendo ela a manifestação da ira de Deus. Mas agora, com a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o homem foi reconciliado com Deus, pois Jesus levou sobre si o pecado de toda a humanidade. Assim, quem crer neste sacrifício único e cabal tem a vida eterna, não mais permanece sobre ele a ira de Deus, portanto ainda que morra, haverá de ser ressuscitado e viverá eternamente. Crê você nesta verdade? Se ainda não tomou a decisão de aceitar a Cristo hoje é o dia aceitável para mudar seu destino eterno. Receba Jesus e viva eternamente.

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