Comentários no Evangelho de João, Sem categoria

Comentários em João 5.1-9

Jo 5.1

"Passadas estas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus subiu para Jerusalém." (Jo 5.1). Há de se perguntar: por que há tanto interesse por Jerusalém? Esta cidade foi conquistada pelo rei Davi em 1049 a.C., mas já havia referência dela na época de Abraão, quando encontrou-se com o rei e sacerdote Melquisedeque, rei de Salém. Foi em um dos montes desta região que Abraão ofereceu Isaque por sacrifício, interrompido pela providência do cordeiro, uma figura do Messias. Jerusalém foi a cidade escolhida por Deus para a localização do templo de Israel. Com isso Jerusalém foi confirmada como sendo o lugar escolhido por Deus para oferta de holocaustos a Deus (Dt 12.13,14). Assim como só há um Deus, só neste lugar Israel poderia realizar sacrifícios a Deus conforme prescritos no livro de Levítico. Nas escrituras Jerusalém é chamada como a cidade do grande Rei, o Rei dos reis, Senhor dos senhores (Sl 48.2). Esta é a única cidade em todo o planeta terra cuja existência será eterna como podemos ler: "Como temos ouvido dizer, assim o vimos na cidade do Senhor dos Exércitos, na cidade do nosso Deus. Deus a estabelece para sempre" (Sl 48.8). Por causa desta posição singular Deus mesmo disse acerca desta cidade: "Eis que eu farei de Jerusalém um cálice de tontear para todos os povos em redor e também para Judá, durante o sítio contra Jerusalém" (Zc 12.2). Por isso vemos toda a história humana atrelada ao destino de Jerusalém e hoje, quando lemos os noticiários, Jerusalém continua sendo o ponto de discórdia de todas as nações. Chegara o dia que todos os exércitos da terra marcharão para tentar destruir Jerusalém, na chamada batalha de Armagedon. Neste dia Jesus voltará para dar fim a história como nós a conhecemos, preparando o planeta terra para o milênio sob seu reinado de justiça. Por todas estas razões Jesus, em seu ministério terreno, ia com frequência a Jerusalém, tendo a convicção que antes de voltar como o grande Rei, haveria de ser crucificado nesta cidade.

Jo 5.2

"Ora, existe ali, junto à Porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco pavilhões." (Jo 5.2). Este era um tanque de água localizado em um bairro de Jerusalém. Devemos nos lembrar acerca dos sacrifícios no templo, dentre eles eram ofertado ovelhas. Daí a importante referência da porta das ovelhas próxima ao tanque, onde provável eram negociadas as ovelhas para os sacrifícios. Como este tanque de Betesda ficou conhecido como um lugar que operava curas milagrosas, a proximidade da porta das ovelhas devia trazer esperança para aqueles que nunca eram curados. Isto porque segundo a lenda só um enfermo por dia era curado, isto se um anjo movesse as águas, portanto centenas, senão milhares de pessoas ficam sem alcançar a cura. Podemos dizer que este tanque se assemelhava ao sistema único de saúde no Brasil. Isto porque apesar de existir cura para quase todas as doenças, a fila de espera por tratamentos mais especializados é tão grande que pessoas morrem antes de chegar sua hora de receber a cura. Quem se encontra nesta condição de espera indefinida poderia recorrer a Deus, como aqueles enfermos poderiam optar por colocar a esperança no cordeiro sacrificial. Devemos nos lembrar de novo que Jesus é o Cordeiro de Deus (Jo 1.29) que levou sobre si as nossas enfermidades, nos trazendo a cura (Is 53.4). Aqueles enfermos também conheciam a profecia de Isaías 53.4, mas optaram crer na lenda a buscar cura na palavra de Deus. Aqui nada contra a medicina, ela também é um instrumento de cura, mas mesmo as mãos dos médicos precisam estar revestidas da unção de Deus para alcançar plenamente sua eficácia. O que queremos destacar é que o mundo natural faz fronteira com o espiritual, contudo muitos reduzem suas expectativas tão somente as condicionantes naturais, cegos a providência divina se para alcançá-las precisam meditar na bendita palavra de Deus.

Jo 5.3

"Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos." (Jo 5.3). A cena em torno do tanque de Betesda era desoladora. Ainda mais terrível se levarmos em conta a lenda daquele lugar. Nunca podemos nos esquecer que a cura prometida era apenas um único agraciado por dia. Então podemos entender que havia naquele lugar uma multidão de enfermos sem esperança, desesperados, abandonados à sua própria sorte. Eles passavam fome, sofriam dores, contaminavam uns aos outros. Por certo os mais fortes oprimiam os mais fracos; muitos se tornavam rancorosos, vingativos, exacerbando o seu egoísmo, pois o direito de cura era objeto de disputas entre eles. Em que pese este cenário desolador, muito parecido com as salas de espera de postos de saúde e hospitais, é para esta multidão que Jesus veio, pois Ele disse: "… Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes" (Mt 9.12). Devemos nos perguntar a luz desta observação: qual a diferença essencial entre uma pessoa sã e outra enferma? Basicamente o enfermo é alguém que precisa de um médico para ser diagnosticado, ter sua enfermidade identificada, receber medicação na prescrição, medida e horário exato e ter acompanhamento até que possa receber alta. Em essência o enfermo é alguém que depende de outro ser humano, é como se ele voltasse a ser criança dependente de seus pais. Do mesmo modo quando Jesus declara ter vindo buscar os enfermos, o que Ele está de fato dizendo é que busca aquele que reconhece sua necessidade espiritual, aceita ser diagnosticado pela palavra de Deus como pecador, recebe de bom grado a medicação prescrita que é o sacrifício de Cristo na cruz e aceita ser acompanhado até o dia que receberá corpo glorificado para gozar plenamente da vida eterna. É estes que Jesus busca e não aqueles que, cheios de si, se recusam a se colocar na dependência de Deus.

Jo 5.4

"[esperando que se movesse a água. Porquanto um anjo descia em certo tempo, agitando-a; e o primeiro que entrava no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse]." (Jo 5.4). Este relato é uma incógnita. Este anjo descia ou não naquele lugar? Se descia quem pulasse primeiro era curado? Se houve cura, era de Deus? Estas perguntas são pertinentes a todos eventos similares a estes. No planeta existem muitos lugares conhecidos por curas milagrosas, atraindo anualmente multidão de peregrinos. Algumas destas curas são fartamente documentadas, inclusive comprovadas pela ciência, o que faz aumentar a fama destes lugares. Será que a Bíblia instrui como lidar com este tipo de cura? Por certo que sim. Qualquer cura sobrenatural impressiona por se impor às leis naturais. Só que a cura em si mesmo não diz nada senão comprovar que a pessoa saiu do seu estado de enfermidade. O problema está no tipo de devoção que ela gera e, por ser sobrenatural, algum tipo de devoção ela traz consigo. E é na devoção que mora o perigo. Por causa deste perigo Deus instruiu Israel sobre como julgar situações como estas. Em Dt 13.1-5 é levado a hipótese de surgir um profeta anunciando um sinal ou prodígio e este milagre acontecer. Só que este profeta usa do sinal para induzir o crédulo a seguir após outros deuses. Deus continua dizendo que este tipo de milagre tem por objetivo por a prova o coração dos homens para saber se eles amam a Deus ou vão seguir os ídolos do coração deles. Observe o tanque de Betesda. Jesus estava ali, mas quem o conhecia? Ninguém! Nem os que foram curados, nem os enfermos. E mesmo aquele com quem Jesus entrou em contato teve grandes dificuldades de compreender tudo o que se passava com ele. Portanto aquele lugar milagreiro não fazia ninguém se aproximar de Deus e se Jesus não tivesse ido até aquele lugar, talvez nenhuma alma dali encontraria o Salvador

Jo 5.5

"Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos." (Jo 5.5). Que quadro desolador! Esta é a sina causada pela queda, uma fatalidade a que todos estão sujeitos. Em um momento tudo vai bem, em outro o mundo desaba. Esta é uma hora para a qual ninguém está preparado. Quando a enfermidade surge a pessoa é cercada de todos cuidados e da presença de todos. Mas a medida que a doença avança, os entes queridos vão rareando até a pessoa ficar sozinha, abandonada a sua própria sorte. Nesta hora surge os maus pensamentos, como os de Jó: "- Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela?" (Jó 3.11). Uma alma enferma por tanto tempo é atormentada por sua consciência, não descansa, antes agoniza dia e noite por perceber a morte espreitando e conjurando seu fim para tragar o doente nas trevas eternas. Não demora o enfermo se volta contra o próprio Deus, questionando os seus desígnios: "- Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim cravadas, e o meu espírito sorve o veneno delas; os terrores de Deus se arregimentam contra mim" (Jó 6.4). Alguém pode dizer que o enfermo está muito mais perto de Deus, nada pode ser mais falso. Na superfície o que encontramos é um ser destilando veneno  sua mente, questionando sua existência, sem motivos para viver, ansiando pela morte para por fim em seu sofrimento. Se esta é a mentalidade do enfermo, porque Jesus prefere estar com este atormentado ao que se diz sarado? A razão fundamental diz respeito ao modo como o enfermo apreende a vida. Por causa da sua dor ele coloca sua consciência em ebulição. É certo que ele lida com a dor, mas também com a culpa. O enfermo busca resposta, anseia por esperança, questiona a eternidade. O enfermo é alguém que está na fronteira entre o mundo natural e espiritual. Ele tem fome e sede por verdades consistentes. Ao mesmo tempo em que se fecha na sua dor, tem ouvidos abertos para a cura. Uma última observação importante: Deus conta o tempo do sofrimento, foi de 38 anos. Pode ser longo para o ser humano, mas tem fim determinado. Mesmo que alcance 70 ou 80 ou 90 anos e é tragado pela morte, depois, aos que crêem, vem a ressurreição e a vida eterna.

Jo 5.6

"Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim há muito tempo, perguntou-lhe: Queres ser curado?" (Jo 5.6). Jesus é o Verbo que se fez carne, o homem que desceu dos céus. E onde Jesus estava? Diante de um enfermo em um lugar esquecido pelos médicos e sacerdotes; diante de um sofredor em meio a uma multidão de indivíduos debilitados. Jesus demonstrou interesse em conhecer a história daquele enfermo. Agora se pergunte: – Como Jesus soube da história? Muita gente sabe a nosso respeito, mas poucos são os que de fato podem nos ajudar quando mais precisamos. Em um certo sentido estamos acompanhados mas, ao mesmo tempo, padecemos solidão. Hoje, com as redes sociais muitos transformam suas vidas um livro aberto. Estes contam por onde andam, o que comem, com quem estão, o que estão falando. Até seus pensamentos são compartilhados, contudo, apesar deste aparente compartilhamento, ainda assim permanecem solitários em suas necessidades mais profundas. Foi por isso que Jesus perguntou diretamente ao enfermo se ele queria ser curado. Alguém pode dizer: – Mas que pergunta tola! O que este homem iria querer, senão a cura? Pergunte a si mesmo: – Será que este enfermo queria mesmo ser curado? O que sabemos dele? Ele estava enfermo a 38 anos. Ele estava ao lado do tanque de Betesda buscando ajuda para ser curado. Então a resposta parece ser sim, ele queria ser curado. Dizem ser de Einstein está frase: "Loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual!". Isto porque pelo tempo em que aquele enfermo ficou naquele lugar esperando pela cura, ele poderia ter se acomodado, dando prioridade a outros interesses, como por exemplo, viver de esmola. Neste caso a doença se tornaria uma forma de justificar seu modo de vida. Isto pode acontecer com todos que lutam por algo sem alcançar, sendo este o ensino de Provérbios: "A esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore de vida" (Pv 13.12). Por isso Jesus perguntou àquele homem se ele perseverava em buscar sua cura.

Jo 5.7

"Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim." (Jo 5.7). Se é certo que precisamos uns dos outros, é certo também que  os outros têm grande dificuldade em nos ajudar. Alias, uma das características dos homens dos últimos tempos é esta: "Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas…" (II Tm 3.1,2). É comum hoje vermos um grupo de pessoas reunidas no shopping, cada um com seu celular, todas conversando, não entre si, mas com outro distante, virtual, nenhum dos presentes trocando confidências entre si. O que estas pessoas não sabem é que há um mistério na conversa virtual. Entenda isso: você abre seu Whatsapp, vê um nome conhecido na tela e começa uma conversa. Então você escreve: – Oi meu amigo, bom conversa com você. Então ele responde: – Deixa-me contar uma novidade, ontem eu …". E assim flui o diálogo. Mas realmente é isso que acontece em nível mental? Vamos rever de novo esta conversa. Você viu o amigo e pensou: – Vou chamar meu amigo dizendo: – Oi meu amigo. Então, depois de você escrever, ele responde, escrevendo. E aqui mora o perigo, seu amigo escreveu, você leu o que ele escreveu e você leu isso na sua mente. Leu com que voz? Com a sua voz mental. Agora eu pergunto: – seu subconsciente sabe que você está conversando com outra pessoa ou pensa que você está pensando? Por certo seu subconsciente traduz como um dialogo mental, pois ele não ouve voz diferente da sua. Portanto toda conversa virtual é, para seu subconsciente, uma conversa mental, logo, por definição quem faz tudo consigo mesmo é, para todos os efeitos, egoísta. Você pode conversar  virtualmente com dezenas de pessoas, para seu subconsciente, todas as conversas foram diálogos mentais, não existiu o outro, apenas fortaleceu seu egoísmo, sua sede de viver para si. Logo, se alguma pessoa de carne e osso pede ajuda, será ignorada, pois está tirando o outro do conforto de seus próprios pensamentos. Por cada um viver para si mesmo, aquele enfermo não encontrou ajuda.

Jo 5.8

"Então, lhe disse Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda." (Jo 5.8). É fato que o ser humano precisa de seu semelhante mas, acima de tudo ele precisa de fé em Deus. Considere o seguinte: deitado no solo tinha este enfermo esperando por ajuda, no seu entorno ninguém lhe estendeu as mãos. Por outro lado na família de Deus Jesus disse que seus irmãos seriam conhecidos pelo amor que tinham um pelo outro, portanto pelo cuidado mútuo. Então vamos examinar os fatos por partes. Primeiro em relação a igreja, muitos não concordam quanto a evidência do amor entre os irmãos. Ainda que a falta de amor entre irmãos seja verdade, permanece o fato da igreja ser corpo de Cristo. Se seus membros não refletem a imagem de Cristo, isto não muda a natureza do corpo de Cristo. Agora este enfermo ainda não fazia parte desta família, estava realmente sozinho. Se Jesus jogasse ele no tanque, nada será acrescentado em sua vida. O que o enfermo mais precisava não era ajuda mas aprender a confiar na palavra de Deus, ter fé em Deus. E Jesus é a palavra de Deus encarnada, o Verbo de Deus. Ele deu uma ordem, mas deixou espaço para a cooperação do enfermo. Jesus não pegou na mão do homem e o levantou, antes mandou ele exercer fé se levantando para mudar o quadro crítico de sua vida, gerando um divisor em sua história. Se a luz desta ordem enfermo tiver ouvido para ouvir, não só seria curado, como também aprenderia exercer fé em outras circunstâncias existenciais. O que aconteceria se ele obedecesse a ordem de levantar? Deixamos a Bíblia nos mostrar: "Esta voz me disse: Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo. Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me falava" (Jo 2.1,2). A ordem foi para Ezequiel se levantar e ao cumprir a ordem para se levantar, quem tomou a iniciativa foi o Espírito de Deus. Assim foi com o enfermo, bastava obedecer fazendo menção de se levantar que Deus completaria a obra, curando-o.

Jo 5.9

"Imediatamente, o homem se viu curado e, tomando o leito, pôs-se a andar. E aquele dia era sábado." (Jo 5.9). Sabe aquela festa de casamento onde o assunto mais comentado foi ou o cardápio, ou a vestimenta de alguma convidada, ou o final do campeonato de futebol, ou a última intriga de Brasília, ou o sobe e desce da bolsa de valores, ou o vírus que varre a China? Não tem aquele que empresta seu carro a um amigo e, quando recebe a notícia de um acidente, a primeira pergunta é se amassou muito o carro? Qual é a bílis disso tudo? Por conta destes múltiplos interesses Jesus deu o seguinte diagnóstico: "… Porque a boca fala do que está cheio o coração" (Mt 12.34). Para entender este provérbio considere um quadro branco com um pequeno ponto preto no meio. Você pode ver um ponto preto, um amplo espaço branco ou o quadro como um todo, o branco e o preto. Assim nossos sentidos naturais se voltam para aquilo que cultivamos no coração. Se amamos mais as coisas às pessoas, então é natural perguntar se o carro amassou antes de saber se alguém se feriu. Se amamos mais os amigos aos inimigos, então é natural em uma festa ficar falando mal das pessoas. Se amamos mais os benfeitores que os amigos, então é natural fazermos acepção de pessoas, deixando de lado nossos entes queridos para darmos atenção àqueles que nos sustentam e nos beneficiam. Agora volte a cena: Jesus curou o enfermo. O enfermo se levantou curado. Jesus curou no sábado. Este é todo o quadro, para onde volta seus sentidos? Para Jesus em gratidão? Para o enfermo maravilhado? Ou para o dogma religioso do sábado? Cada um que assiste está cena vai tomar partido para um dos três entes presentes no quadro. Tudo dependerá do que está cheio o seu coração. Por esta razão podemos dizer que toda e qualquer cena que esteja diante de nós, é nosso coração que vai determinar o foco de nossos sentidos, aquilo que vemos, o que ouvimos, o que tocamos, o que cheiramos, enfim, aquilo que ocupa nossos pensamentos e, principalmente, nosso coração.

O homem foi curado, mas como isso aconteceu no sábado, vamos deixar este homem de lado. O sábado se tornou mesmo o assunto mais comentado do dia. Não é o mesmo caso do drogado, por exemplo? Enquanto ele vivia sua sina de autodestruição todo mundo queria dar conselhos de como ser liberto das drogas. Mas se Jesus fizer esta obra e, por conta desta benção este ex-drogado se submeter as águas do batismo, tornando-se membro de uma igreja, então seus familiares deixam de ser agradecido por sua cura para voltar a artilharia contra a religião deste ex-drogado. Este é o ponto: daquilo que está cheio o coração é o que determinará o foco dos sentidos humanos, é para onde se voltará os olhares. Vamos então completar a frase: o homem foi curado no sábado. Faça uma pergunta a si mesmo: – Que importância tem a cura ser em um dado dia da semana, se este homem esteve sofrendo a enfermidade por 38 anos? Será que foi baixado um decreto imposto a Morte obrigando ela não matar ninguém no sábado? Faz diferença o dia da semana em que alguém morre? Por certo que faz para os vivos, pois se for no dia de trabalho está bem, ele faltou o trabalho, mas se no fim de semana foi mal, perturbou seu descanso. De modo diametralmente oposto, a cura, não a morte, foi no sábado, dia de descanso para o judeu. Uma cura perturbando o descanso, que coisa terrível para este povo! Talvez você se pergunta: – Por que o sábado é mais relevante que a cura para aquele povo? Respondendo de forma bem objetiva, sem qualquer contextualização, sem nenhum retoque teológico, deixando de lado a intenção divina, o sábado é mais relevante que a cura porque ele está explicitamente mencionado no quarto mandamento da Lei de Moisés registrado em Êxodo 20.8-11. Se está na Lei de Deus, então o sábado precisa ser guardado a ferro e fogo, portanto cura neste dia nem pensar. Este é o raciocínio religião, contudo sem entendimento.

Se o raciocínio religioso obriga cumprir o sábado a ferro e fogo, qual seu verdadeiro significado? Para entender o sábado é preciso saber qual o lugar de Israel na economia divina. Israel é responsável pela conexão da terra com o universo. Como sabemos disso? Houve uma guerra liderada pelos israelitas Débora e Baraque. No seu cântico vitorioso Débora entoou está ligação com o universo: "Desde os céus pelejaram; até as estrelas desde os lugares dos seus cursos pelejaram contra Sísera" (Jz 5.20). Por conta desta conexão Israel é o relógio profético divino na terra. A marcação de tempo deste relógio é o sol e a lua conforme lemos no quarto dia da criação: "E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas" (Gn 1.16). Diante desta conexão temporal nada é mais natural do que Deus estabelecer um pacto exclusivo com Israel, estando o sábado no centro deste acordo. É o que lemos: "Guardarão, pois, o sábado os filhos de Israel, celebrando o sábado nas suas gerações por concerto perpétuo. Entre mim e os filhos de Israel será um sinal para sempre; porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e restaurou-se" (Ex 31.16,17). Para Israel a guarda do sábado estava intimamente ligado com a criação dos céus e da terra e ao descanso divino. Israel é como o maestro da grande orquestra planetária. Ele dá o tom e o ritmo da música, ele marca o compasso. Assim como há sete notas musicais, são sete os dias da semana e, a cada sete dias Israel descansava. Mas precisamos qualificar este descanso, pois Israel não tinha o sábado como um dia para se deitar na rede, cultivando o ócio. Antes, pelo contrário, ele ia ao templo oferecer o sacrifício do cordeiro. Ou seja, tinha de pegar o cordeiro, por sua mão sobre ele transferindo seu pecado. Este cordeiro era amarrado de cabeça para baixo, esfaqueado, colhido seu sangue, carneado, assado, comido, lançado os restos mortais fora de Jerusalém, junto com as cinzas. Deu cansaço só de falar.

Como dissemos Israel é a conexão de Deus com o universo, o relógio profético para este mundo, o regente desta grande orquestra planetária. E não é só o sábado que Israel tinha de guardar. A cada 7 anos Israel tinha de deixar de plantar para a terra recuperar sua produtividade. Este era o ano sabático do Senhor (Lv  7.4). Você já imaginou como seria para um agricultor brasileiro ficar um ano inteiro sem produzir, confiando que naquele ano ele comeria do que espontaneamente a terra produzisse? E o que dizer do ano de jubileu, a cada 49 anos? Neste ano de jubileu uma série de ajustes era feitos quanto às propriedades e quitação de dívidas (Lv 25.8). Isto sem falar que as festas anuais tinham data para começar, data para terminar, o modo de comemorar. Israel era governado em cada detalhe de sua vida espiritual, política, social, familiar e cultural. Eles estavam debaixo de uma rígida teocracia, pois quando Deus libertou Israel do Egito dissera que seria conhecido como Senhor, não só mais como o Deus Todo-Poderoso. Neste panorama todo sábado era um exercício de submissão a ordem divina, uma demonstração de confiança, um ato de dependência. Neste ponto surge a pergunta que não quer calar: a igreja precisa guardar o sábado? Só de existir esta pergunta, se perceber que o questionador não compreende o lugar da igreja na economia divina. Se o vínculo de Israel é com o planeta Terra, a igreja está ligada aos céus, portanto a igreja é atemporal. Diferente de Israel que precisava do descanso semanal, a igreja já entrou neste bendito descanso. E você se pergunta: – Como isso se dá? Simples, a igreja passou da morte para a vida, ela tem Cristo Jesus, portanto tem a vida eterna. A igreja é corpo de Cristo, ela está assentada nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Como existe um princípio por meio do qual o homem deve adorar a Deus de forma congregacional, uma vez por semana, a igreja reserva o primeiro dia da semana, que é o domingo. Isto porque é no domingo que Jesus ressuscitou e como a igreja experimenta uma nova dispensação, a da graça, não a da Lei, a igreja se une em adoração no domingo, o primeiro dia da semana.

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