Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 5.10-15

Jo 5.10

"Por isso, disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o leito." (Jo 5.10). Como dissemos: Jesus curou o paralítico; Jesus fez isso no sábado. E o que tocou o coração dos judeus? O sábado, não a cura. Precisamente, o que impactou os judeus? Carregar a cama no sábado, não o estar curado. E por que esta atividade era ilegal no sábado? A resposta só pode ser compreendida com discernimento espiritual. Em primeiro lugar esta era uma ordem divina: o sábado pertencia ao Senhor, portanto neste dia nenhum judeu poderia trabalhar para si mesmo. Como sabemos disso? Leia por você mesmo: "Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho… porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o Senhor, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o Senhor, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado." (Dt 5.14,15). A luz desta palavra aquele ex-enfermo não tinha o direito de carregar sua própria cama, isto é um tipo de trabalho. Foi está cena que os judeus presenciaram: um homem carregando sua cama. E, baseado no que eles viram, eles estavam certos em advertir aquele homem. É assim que nasce todo mal entendido, você conhece um pedaço muito pequeno da história e já tira suas próprias conclusões sem dar chance ao acusado contar sua história. E, mesmo que ele tente contar, seu orgulho por já ter dado o veredito, não permite ceder. E, ainda que todas as provas fiquem a favor do acusado, ainda assim, o acusador insiste em ser juiz inflexível, posto ter se tornando senhor da verdade. Sair desta posição, abrir o coração para ouvir a história completa exige humilde. Em que erraram os judeus? Pense você na rua, passando por uma porta aberta. Então você vê alguém correndo, passando por ela. Você se pergunta: – Por que ele corre? Então você faz um juízo de valor: – Ele está em perigo. E logo chama a polícia. O que você não viu é que ele estava brincando de pega pega com seu filho. A cena toda estava escondida aos seus olhos. Foi assim com os judeus: se alguém carregou cama no sábado cometeu ilegalidade

Jo 5.11

"Ao que ele lhes respondeu: O mesmo que me curou me disse: Toma o teu leito e anda." (Jo 5.11). O ex-paralítico fez sua defesa. Estava sendo condenado por carregar sua cama no dia de sábado. Mesmo sabendo que os judeus aumentaram em muito as regras de como obedecer a injunção do sábado, persistia o fato dele estar carregando sua cama, contrariando a lei divina. Exortou o profeta a Israel: "Assim diz o Senhor: Guardai-vos por amor da vossa alma, não carregueis cargas no dia de sábado, nem as introduzais pelas portas de Jerusalém; não tireis cargas de vossa casa no dia de sábado, nem façais obra alguma; antes, santificai o dia de sábado, como ordenei a vossos pais." (Jr 17.21,22). Aparente a situação era simples, a prova da ilegalidade era evidente. E qual foi o argumento do ex-paralítico? Ele alegou que o mesmo que o curou também ordenou levar sua cama. Esta resposta é para dar um nó na mente. Vamos tentar entender. A lei divina ordenava a ninguém transportar carga. Agora eu lhe pergunto: – Quem proibia carga ser transportada? Por certo que é a lei divina entregue a Moisés. E quem mandou o ex-enfermo carregar a carga? Jesus Cristo. E quem é Jesus Cristo? Deus, o Verbo feito carne, Aquele que estava com Deus. E o que Jesus fez com o enfermo? Curou ele. Com que poder curou? Com o poder divino. E quem deu a lei a Moisés? Foi Deus. E quem é Jesus? É Deus. E a quem o ex-paralítico obedeceu? A Jesus. Qual a conclusão que chegamos então? Que o ex-enfermo não desobedeceu nenhuma lei divina pela simples razão de estar sob a ordem do próprio Deus na pessoa de Jesus. Basicamente sua defesa foi esta: – Eu não quebrei nenhuma lei porque transporto minha cama em obediência ao Legislador do universo, obedeço a Deus que deu provou ser quem é me curando. O nó na mente foi dado porque para negar a autoridade de Jesus em ordenar, os judeus também teriam de negar autoridade de Jesus em curar. Se eles negassem a autoridade de Jesus, estavam rejeitando o Messias, o Salvador do mundo, o Rei de Israel.

Jo 5.12

"Perguntaram-lhe eles: Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?" (Jo 5.12). Para entender esta pergunta vamos nos socorrer de uma instrução divina dada aos comerciantes: "Balanças justas, pesos justos, efa justo e justo him tereis. Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito." ( Lv 19.36). Naquele tempo para pesar qualquer mercadoria o comerciante a colocava em um prato e, do outro lado um peso. Quando ambos os pratos chegavam no equilíbrio era atribuído o peso a mercadoria. Agora se o peso tivesse adulterado o ganho ilícito era evidente, pois o comprador não tinha como aferir o peso. Hoje o Immetro tem está atribuição de atestar a precisão das balanças. Você me pergunta: o que tem a ver a balança com a pergunta? Qual tinha sido a defesa do ex-paralítico? – "O mesmo que me curou me disse: Toma o teu leito e anda". E qual foi a pergunta? -"Quem é o homem que te disse: Toma o teu leito e anda?". O que ficou de fora da pergunta? – Quem te curou? A pergunta em si não era justa, pois desprezou parte do argumento do ex-paralítico e focou somente naquilo que tende a provocar polêmica e conflito. É o coração tendencioso ditando o diálogo truncado, carregado de agressividade, onde o contendor se arvora da razão. Este tipo de atitude pode ser chamado de audição seletiva, muitas vezes guiada pelo preconceito, pelo sectarismo, pela intolerância, pela intransigência, pelo partidarismo. Quem se deixa guiar por este estado de espírito estreito, por este tipo de sentimento hostil, não está interessado em buscar a verdade. Neste tipo de situação antes mesmo de começar a contenda o resultado já é previsto: a opinião do acusado não terá nenhum crédito, não importa o que ele fale, já está condenado. Paulo fala deste tipo de índole nestes termos: "Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas" (Tt 1.15). Este é o veredito de Paulo, quem carrega consigo este tipo de sentimento hostil está com sua mente e sua consciência corrompidos.

Jo 5.13

"Mas o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, por haver muita gente naquele lugar." (Jo 5.13). Jesus curou o paralítico e ele nem ficou sabendo quem era Jesus. Recapitulemos como os fatos se deram. Jesus encontrou o paralítico ao lado do tanque de Betesda. Perguntou se ele queria ser curado. Diante do sim como resposta, Jesus ordenou ele se levantar, tomar sua cama e andar. Este homem não era cego, nem mudo, nem surdo, era paralítico. E ele obedeceu a ordem e começou a andar e foi ganhando confiança e andou cada vez mais rápido e, e, e foi se afastando, e foi deixando Jesus para trás e, terrível isso, perdeu a oportunidade de conhecer Jesus. Para ele Jesus era apenas o homem que o curou e deu ordem para carregar a cama. E por que Jesus deixou por isso mesmo? Dele é dito: "Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça" (Is 42.2). O verdadeiro pregador não é aquele que impõe sua verdade, por mais relevante que seja. Antes ele tem consciência do seu papel e, acima de tudo, de sua submissão a Deus. Jesus podia ter feito muito mais pelo ex-paralítico, contudo se calou, não gritou, nem se impôs, apenas esperou. E o que esperou? Deixemos Jesus responder: "Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia" (Jo 6.44). Por isso Jesus se calou, porque aquele ex-paralítico podia ter se afastando, ainda que curado, mas se fosse um enviado de Deus, voltaria até Jesus ou então Jesus mesmo o encontraria de novo, como de fato se deu. Quanto a nós devemos vigiar para que, ao receber algo do Senhor, nossos passos nos faça retornar a ele em gratidão, conhecendo-o com ainda maior intimidade, caso contrário quanto mais abençoado mais distante podemos estar.

Jo 5.14

"Mais tarde, Jesus o encontrou no templo e lhe disse: Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior." (Jo 5.14). Três coisas significativas encontramos nesta passagem bíblica: a iniciativa de encontrar este homem veio da parte de Jesus; este homem estava no templo; Jesus advertiu o ex-paralítico. Ainda que tivesse sido curado por Jesus, este homem engatinhava na fé. Tal como uma ovelha, este homem era carente dos cuidados divinos. Ainda que a meta para cada um dos membros da igreja de Cristo seja conhecer todo conselho de Deus (At 20.27), nem todos podem ser nivelados neste critério. A iniciativa de Jesus de buscar aquele homem decorre do fato de Jesus ser o bom Pastor. Muitos tem a impressão que aceito Jesus, a pessoa já tem de se tornar um crente exemplar. Nada mais falso, pois o grau de mudança de vida depende, entre outras coisas, do conhecimento da verdade. Ainda que aquele homem estivesse no templo, estava perdido dentro de si, por isso Jesus veio ao seu encontro. Certo dia Jesus contou uma parábola que retrata uma das principais funções de um pastor. Disse Jesus: "Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?" (Lc 15.4). E, por ainda aquele homem estar perdido dentro de si, Jesus confrontou o ex-paralítico consigo mesmo, pois Jesus é a palavra encarnada de Deus. E este é o ponto a ser destacado: ter uma experiência com Deus não significa estar limpo de coração. Nós precisamos nos submeter a exortação, pois está escrito: "pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado." (Hb 3.13). Neste aspecto ninguém está isento de exortação. O pecado é ardiloso e manipulador e, se qualquer um de nós abrirmos brechas, impossível saber quão terrível pode ser a queda. Flertar com o pecado é como andar a beira do precipício.

Jo 5.15

"O homem retirou-se e disse aos judeus que fora Jesus quem o havia curado." (Jo 5.15). Eis o paralítico testemunhando sua cura. Assim devia ser com todos que recebem algo de Deus, proclamar os feitos divinos para engrandecer o nome do Senhor. Mas quão difícil é discernir a verdadeira intenção de quem testemunha. Ela pode estar contando o que Deus fez com ela para glorificar a Deus ou para ganhar algo em troca, seja dinheiro, ou fama, ou oportunidade de ser reconhecida em seu ministério, ou outra coisa qualquer. Quando a glória de Deus não é o objetivo maior, a mesquinharia ganha lugar, todavia ainda assim devemos nos alegrar porque o nome de Jesus está sendo anunciado. Sobre este assunto Paulo escreveu: "Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade" (Fl 1.25). E por que trazemos está questão neste diálogo? Porque tão logo o ex-paralítico soube quem o havia curado correu para as autoridades para lhes contar. Estas autoridades religiosas funcionavam como autenticador da fé, se o entendimento do Antigo Testamento não fosse nós termos concebido por eles estava errado. Este tipo de patrulhamento religioso foi duramente condenado por Jesus nestes termos: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!" (Mt 23.13). Jesus os chamava de guias cegos, incapazes de aprender a verdade. A tradição religiosa cega as pessoas porque a consciência destas pessoas foi terceirizada, pois seu único padrão de aferição da verdade é a voz da maioria. Foi a voz de uma grande maioria que autorizou a crucificação de Jesus. A voz do povo, muito menos das autoridades, decididamente não é a voz de Deus, antes, se quisermos ouvir Deus falando conosco é na Bíblia que devemos buscar suas palavras. E quando dermos testemunho devemos fazer para evidenciar a glória de Deus.

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