Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 5.16-23

Jo 5.16

"E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado." (Jo 5.16). É muito curioso o que motivava a perseguição dos judeus contra Jesus. É irônico, pois a lei que eles tanto se arvoravam no direito de defender fora entregue a Moisés exatamente por Jesus, a quem eles perseguiam. Agora como entender este mistério? Certa vez Jesus disse: "… Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou" (Jo 8.58). Ao dizer ser antes de Abraão ter existido, Jesus estava se declarando Deus. Só que é impossível ao homem natural aceitar uma afirmação como esta. Mesmo porque o salmista dizia acerca do ímpio: "O perverso, na sua soberba, não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações" (Sl 10.4). Portanto ao excluir Deus da equação, torna impossível aceitar que Jesus é Deus, o Filho unigênito de Deus. O problema era não só rejeitar a identidade de Jesus como também prossegui-lo por curar no sábado. Certa feita Jesus denunciou esta atitude deles dizendo: "Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus" (Mt 23.2). Moisés foi o maior profeta de Israel e ele próprio havia dito que Deus enviaria outro maior que ele. Este outro era Jesus, contudo como os judeus julgavam ser igual a Moisés, não aceitavam Jesus como enviado de Deus, dai usar do sábado para prossegui-lo

Jo 15.17

“Mas ele lhes disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também." (Jo 5.17). Arguido acerca do Sábado, Jesus responde atestando sua própria divindade ao associar sua natureza a de seu bendito Pai celestial. Agora observe a conexão da palavra dada por Jesus com o sábado. Para todos os efeitos este era o dia de descanso para o povo judeu. Alias, quando Deus instituiu este dia para Israel declarou ser um sinal nestes termos: "Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento" (Ex 32.17). Observe que o Senhor associa o sábado de Israel ao descanso que concedeu a si mesmo quando da criação dos céus e da terra. O problema é que Jesus parece contradizer o descanso divino ao declarar que tanto Ele, quanto seu Pai celestial trabalhavam até aquele momento. O Salmista dizia acerta deste fato: "É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel" (Sl 121.4). Se Deus nunca parou de trabalhar como explicar o descanso após a criação dos céus e da Terra? Ocorre que o descanso de Deus foi logo após ter criado os céus e a Terra. Por esta razão temos de redefinir o que seja descanso: ele é a recompensa por uma tarefa realizada cabalmente. Com isso estamos a dizer que Deus descansou da obra da criação, mas não parou de trabalhar, imediato a este evento iniciou a obra da redenção. Mesmo porque o Cordeiro já fora morto desde a fundação do mundo como podemos ler: "e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." (Ap 13.8). Redefinindo o valor do sábado, a mensagem que Deus transmitia a Israel era que a vitória da redenção não dependia do esforço humano, por isso ninguém podia trabalhar naquele dia. Este mesmo descanso dado a Israel é extensivo a igreja, porquanto Jesus fez o convite para todo o cansado vir até ele e ser aliviado, encontrando em Jesus o verdadeiro descanso para sua alma (MT 11.28,29)

Jesus mencionou o trabalho em oposição ao descanso do sábado dos judeus. Como dissemos, na visão divina, o descanso é resultante do fim de um trabalho, quando nada mais pode ser acrescentado a ele. Deus descansou porque havia criado o universo e viu que tudo era muito bom (Gn 1.31). Feito o jardim do Éden, Deus colocou o homem para lavrar e guardar o jardim (Gn 2.15), isto é, para trabalhar. Portanto o trabalho não é maldição por causa da queda, antes o juízo foi tornar imprevisível o resultado do labor. O grande drama da vida moderna é a perca da capacidade do indivíduo fazer descansar sua alma. A mente humana nunca se cansa, o que cansa são as coisas que jamais deviam estar nela, como a preocupação, a ansiedade, o medo, a dúvida. Para estes que estão cansados Jesus fez o convite que deviam deixar seu fardo com Jesus, aprendendo do Senhor como lidar com as circunstâncias da vida (Mt 11.9,30). Este era o verdadeiro sentido do sábado para o judeu. Ele devia abster de fazer algo para si para dedicar um dia do seu tempo para fazer exclusivamente a obra de Deus. Ele devia descobrir o prazer de descansar em Deus, de exercer fé em Deus, de adorar a Deus. Um dos aspectos instrutivo de se guardar o sábado na ótica judaica é que eles tinham de organizar seus afazeres para abrir agenda para o Senhor. No dia anterior, na sexta, deviam fazer alimento em dobro para ter o que comer no sábado. Assim também nós precisamos administrar nossas agendas para que nelas sempre caibam um horário exclusivo para o Senhor, porque é neste horário que nossas forças são renovadas, nos tornando apto a enfrentar as lides do dia.

Jo 15.18

"Por essa razão, os judeus mais ainda queriam matá-lo, pois não somente estava violando o sábado, mas também estava até mesmo dizendo que Deus era seu próprio Pai, igualando-se a Deus." (Jo 5.18). Considerando o amor e graça demonstrado por Jesus, torna-se incompreensível a perseguição movida pelos judeus contra Jesus, ao ponto de querer matar o Filho de Deus. Do mesmo modo muitos questionam as cruzadas, guerra movida pelo ocidente com o objetivo de assegurar domínio político e militar sobre Jerusalém. E, mesmo, as guerras atuais no Oriente Médio. Esta incompreensão decorre de vermos o mundo apenas no plano humano. Ocorre que os homens não são movidos apenas por seus atos de vontade. Por detrás dos bastidores da história o indivíduo está inserido em uma batalha milenar por sua alma. Como o mundo jaz no Maligno, em chegando o Homem celestial este antagonismo se evidência com intensidade dramática. É impossível alcança paz entre os homens se não houver paz com Deus. Foi para isso que Jesus veio: "Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos [judeus e gentios] fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade. Ele veio e anunciou paz a vocês que estavam longe [gentios] e paz aos que estavam perto [judeus]" (Ef 2.14,16,17). Hoje as nações mais poderosas do mundo tentam negociar um plano de paz para o Oriente Médio, contudo estão fadadas ao fracasso porque nenhuma cláusula leva em conta o Príncipe da paz, Jesus Cristo, o Rei de Israel. Do mesmo modo entre os religiosos da época de Jesus, eles também não aceitavam a vinda do Messias e, para eles havia um agravante: Jesus Cristo se colocava no mesmo nível que Deus está, se igualando a Deus. E a reação deles não podia ser outra senão tentar matar a Jesus, pois está é a índole do deus deste século, homicida desde o princípio de sua jornada como anjo caído (Jo 8.44).

Jo 5.19

"Então, lhes falou Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que o Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o que este fizer, o Filho também semelhantemente o faz." (Jo 5.19). É interessante que Jesus falou que ele trabalha assim como seu Pai celestial trabalham também. Os judeus entenderam bem esta fala, pois estavam acusando Jesus de se fazer igual a Deus. De fato Jesus fez isso, se igualou ao seu Pai celestial. Mas agora ele entra em detalhe de como se dá sua relação com o Pai celestial. Sabemos que Jesus é Deus, mas na terra Ele não está na qualidade de Deus. Paulo fez-nos saber que Jesus, para se fazer homem, se esvaziou de sua divindade (Fl 2.7). E o que Ele fez enquanto homem? Vemos Jesus em contínuo movimento, seja na Judeia, na Samaria, quanto na Galiléia. Vemos Jesus indo ao encontro do paralítico e curando-o. Vemos Jesus fazendo isso no sábado, dia reservado para o trabalho divino, o que Ele o fez, curando o paralítico. Portanto neste aspecto Jesus estava fazendo o serviço reservado a Deus como sendo Deus, o Verbo, o Filho unigênito de Deus. E como ele executa seu trabalho, sendo homem, fazendo as coisas de Deus? Observando como Deus age e fazendo igual. O que Deus fez antes de descansar? Criou os céus e a Terra. Jesus fez igual? Sim, fez, pois o apóstolo João atesta no início de seu evangelho que tudo foi feito por Jesus (Jo 1. 3) E era isso que Jesus estava fazendo agora? Por certo que não, pois Deus descansou da obra da criação, nada mais podendo acrescentar nela. Então que tipo de trabalho Jesus estava fazendo? Ele estava curando um homem? Que tipo de trabalho Deus, o Pai está fazendo? Redimindo a humanidade, pois amou o mundo de tal maneira que enviou seu Filho (Jo 3.16). Então é deste trabalho que Jesus está fazendo referência, seu objetivo é prestar obediência até chegar a morte de cruz. E, neste aspecto, Jesus faz o que de seu Pai celestial aprende. Quando Jesus diz que faremos obras ainda maiores, diz respeito a esta mesma obra de redenção.

Jo 5.20

"Porque o Pai ama ao Filho, e lhe mostra tudo o que faz, e maiores obras do que estas lhe mostrará, para que vos maravilheis." (Jo 5.20). Jesus havia dito que trabalhava do mesmo modo como seu Pai celestial fazia. Vimos que o atual trabalho de Deus é a redenção do homem, visto que da criação Deus descansou, pois a obra já estava completa e, na avaliação divina, foi uma obra muito boa. Portanto o trabalho que Jesus executou em seu ministério terreno e continua a fazer até o dia de hoje é a obra da redenção. Jesus explicou que fazia esta obra do modo como aprendeu de seu Pai celestial, contudo temos de observar que para Jesus se fazer homem se esvaziou de sua divindade, portanto Ele aprendeu a fazer a obra de Deus do mesmo modo que qualquer homem pode aprender, Ele não usou de suas memórias divinas, visto que se esvaziou destas memórias. Então como Jesus aprendeu? Meditando na palavra de Deus sob assistência do Espírito Santo. Tomemos alguns exemplos. Depois da queda Adão e Eva deviam ter sido executado sumariamente com base em Gênesis 2.17, mas Deus estendeu a existência deles e de sua descendência, dando-lhes oportunidade de arrependimento, com isso Jesus aprendeu que Deus é misericordioso. Com a saída de Israel de o Egito sob a proteção do sangue do cordeiro nós umbrais da porta Jesus aprendeu que só o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo. Com a cura de Naamã da lepra Jesus aprendeu que Deus sara as enfermidades daquele que crê. Com a ressurreição do filho da viúva pelo ministério de Elias Jesus aprendeu que da morte Deus extraí a vida. Com as exortações dos profetas Jesus aprendeu que o arrependimento é condição essencial para alguém entrar no reino de Deus. Com Jonas ter pregado a Nínive, levando a cidade ao arrependimento, isto depois de passar três dias no fundo do mar dentro do ventre do grande peixe Jesus aprendeu que Ele próprio devia morrer e ressuscitar ao terceiro dia para liberar seu glorioso Espírito com o propósito de levar os povos a Deus.

Jo 5.21

"Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer." (Jo 5.21). Jesus continua detalhando como Ele, enquanto Verbo feito carne, aprendeu de Deus. Este é modo como aprendemos fazer a vontade de Deus, primeiro temos de conhecer o jeito de Deus fazer as coisas, então imitamos o seu procedimento. Todos conhecemos a soberania divina, mesmo o mal está debaixo de seu governo. Entenda: Deus a ninguém tenta e nenhum mal realiza. Quem pratica o mal? A origem de toda iniquidade é o diabo, homicida e mentiroso desde o princípio. E o que o homicida faz senão promover a morte? O diabo foi o primeiro responsável pela queda do homem. E sendo esta a origem do mal, por que estamos dizendo que inclusive o mal é governado por Deus? Lembra quando Deus disse ao homem: “se comer do fruto proibido morre?" Com isso Deus fez duas coisas ao mesmo tempo: responsabilizou o homem por suas escolhas e mostrou ser soberano e juiz sobre todas as coisas. Alguém pode fazer o mal contra si mesmo ou contra o próximo, o máximo que consegue é chegar na morte, o salário do pecado. Mesmo o diabo tem este limite, daí não passa. Agora porque estamos tocando neste assunto diante das palavras de Jesus? É que ninguém pode fazer nada depois da morte senão Deus. Só Ele pode vivificar os mortos e nenhum outro. Há uma passagem emblemática demostrando esta verdade. Após a rebelião de Coré, Datã e Abrirão, aprouve a Deus dar provas acerca do legítimo sacerdote.  Para isso ordenou que cada tribo apresentasse uma vara diante do testemunho, na tenda da congregação. Obviamente para ter este galho, o ramo foi arrancado da árvore, perdendo, com isso, sua conexão vital. No dia seguinte a vara de Arão, diferente de todas as outras, brotou, e, tendo inchado os gomos, produziu flores, e deu amêndoas (Nm 17.8). Com este milagre ficou comprovado o chamado celestial de Arão.  Isto é o que acontece com todo filho e filha de Deus, ele nasce de novo, passa da morte para a vida. Esta é a obra que Jesus realiza na presente era.

Temos demonstrado que Jesus tem gerado o novo nascimento em todo aquele que crê em seu nome. Mas não é só neste aspecto que Jesus vivifica, duas outras importantes dimensões precisam ser salientadas. A primeira ainda nesta dimensão existencial, qual seja, a vivificação de nossos corpos mortais como podemos ler: "Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita." (Rm 8.12). Esta dimensão é de vital importância em muitos sentidos. Por exemplo, os que são afetos pelo alcoolismo e foram libertos por sua força e ajudas externas correm o risco da recaída, contudo Jesus pode vivificar o corpo extraindo quaisquer resquícios do álcool ao ponto do indivíduo ter a sensação que nunca bebeu em sua vida. As operações de vivificação do corpo são desta natureza, já a outra dimensão tem repercussão eterna. Isto porque o propósito final de Deus é nos dar corpo glorificado, apto a viver eternamente. Paulo fala deste evento nestes termos: "Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados." (I Co 15.50-52). Que a ressurreição é algo que está por vir é um fato. A pergunta que devemos nos fazer é: cremos nesta verdade? Alguém pode dizer: – Claro que creio! Então responde: – Crê no novo nascimento e seus reflexos no seu dia a dia? – Crê na vivificação de seu corpo humano? – Crê que você pode ser completamente curado de seus traumas na alma? Estas pequenas experiência servem para fortalecer nossa fé nos preparando para termos corpos glorificados.

Jo 5.22

“E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento” (Jo 5.22). Muitas vezes quando lemos um verso da Bíblia, parece que ele não tem conexão com o verso anterior. Como compreender então o assunto? Pense em João ouvindo um extenso diálogo de Jesus e, mentalmente, anotando os tópicos principais deste diálogo. Então este é o registro que ele fez, dos principais pontos abordados por Jesus. Nós, que não fomos testemunhas dos diálogos, mas temos somente os tópicos principais do assunto, devemos complementar o intervalo com o ensino que as escrituras trazem sobre cada um dos tópicos e como eles se correlacionam. Para isso temos de revisar os tópicos e nos perguntar como eles se relacionam entre si. Toda conversa iniciou depois que um paralítico foi curado e a obediência ao sábado questionada. Então Jesus atribuiu a permissão para curar no sábado por ser Deus tanto quanto seu Pai celestial o é. Firmado esta verdade, Jesus ressaltou que aprendeu a dar vida vendo seu Pai celestial fazer o mesmo. Este aprendizado Jesus adquiriu estudando o Antigo Testamento, pois ali é relatada a cura de Naamã de sua lepra, como também a ressurreição do filho da viúva, nos dias de Elias. Lembre-se que Jesus foi protagonista nestes eventos do Antigo Testamento, mas quando assumiu a condição de Filho do Homem, se esvaziou de suas memórias divinas, tendo reaprendido tudo novamente a partir das escrituras. Como a cura do paralítico não foi estendido indistintamente a todos homens, Jesus, em seguida fez questão de ressaltar estar na sua prerrogativa escolher quem recebe a cura, por inferência, quem não recebe esta graça. E, ao fazer este adendo, Jesus demonstra que só podemos entender este tipo de escolha à luz da perspectiva eterna.

Para entender esta frase, precisamos trazer a mente outro dito de Jesus: "Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo." (Jo 8.15). Parece uma contradição, por um lado Jesus declara ser dele a prerrogativa de julgar, por outro diz não julgar ninguém. Vamos entender estas falas. Primeiro responder por que Deus, o Pai, abriu mão de julgar e transferiu esta incumbência a Jesus? Basicamente por uma questão de competência, pois Deus, o Pai celestial, reconheceu o sacrifício de Jesus como condicionante para estabelecer a justiça por experiência própria. É preciso explicar que esta competência não decorre de uma restrição em Deus, mas em uma satisfação e respeito a criatura. Se alguém alegar que Deus não foi submetido a tentação, por isso não conhece o drama da queda, Jesus prova por sua obediência irrestrita que esta alegação não procede. Mesmo porque acerca dele está escrito: "embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem" (Hb 5.8,9). Se, por um lado, o ministério terreno de Jesus o qualificou para salvar, por outro, o habilita a julgar os homens, porquanto se fez ele próprio Homem. Agora cabe a pergunta: em que aspecto os homens serão julgados? No cotidiano dos incrédulos, eles não têm perspectiva de vida eterna, muito menos que terão de prestar conta de seus atos a Deus. Antes, como diz o Salmista: "… que não há Deus são todas as suas cogitações." (Sl 10.4). Mesmo assim a situação em que cada ser humano vive sem Cristo já é de condenação eterna. O ser humano natural nada precisa fazer para entrar nesta situação, já nasce com a ira de Deus sobre ele. O julgamento não é para determinar condenação ao perdido, mas a graduação da penalidade como podemos ler: "Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros." (Ap 20.12)

É preciso entender que mesmo os crentes em Jesus Cristo passarão por juízo. A diferença é que estes serão julgados segundo suas obras para galardões, enquanto que os descrentes para perdição eterna. E o que coloca o indivíduo em um grupo ou outro é sua relação com Jesus Cristo. Quem o recebeu como Senhor e Salvador está salvo, pois depende tão somente do sacrifício de Jesus na cruz, quando foi pago o preço de nosso resgate. E como este preço foi pago? Por Jesus receber sobre si toda a ira de Deus que era destinada ao crente em Jesus. Como ninguém pode ser condenado pelo mesmo crime duas vezes, o crente é salvo tão somente por sua fé. Foi baseado nesta perspectiva que Paulo exortou os atenienses: "Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam, porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos." (At 17.30,31). Isto porque o arrependimento é o único meio não só de escapar da condenação eterna, como também para entrar no reino de Deus. Em outro lugar Paulo reafirma que todos, indistintamente, crentes ou não, hão de ser submetidos ao juízo de Deus, diferenciando tão somente o destino eterno: "Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem ou mal.” (II Co 5.10). Aliás é a perspectiva do julgamento divino que fortalece em nós o senso do temor de Deus. E é por causa deste julgamento que deve cada um de nós abster de julgar nosso próximo, como Paulo bem colocou: "Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor. Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá de Deus o louvor." (I Co 4.4,5).

Jo 5.23

"a fim de que todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou." (Jo 5.23). O Senhor nos deu a principal razão porque a autoridade de julgar lhe foi concedida. Ainda que houve indícios no Antigo Testamento da existência da Trindade em todo o Antigo Testamento a principal revelação acerca da divindade é que só há um único Deus e fora dele nenhum outro (Dt 6.4). Esta verdade se mantém no Novo Testamento, mas nos é revelado com mais detalhe que em Deus, uma única substância, coabitam três Pessoas. O grande mistério está no fato de uma das Pessoas ter se humilhado, se esvaziando de sua divindade (Fl 2.7) conforme podemos ler: "Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória." (I Tm 3.16). E, para complicar ainda mais, este esvaziamento obrigou Jesus se tornar menor que os anjos por se fazer Homem (Hb 2.9). Como entender que uma criatura, ainda que Jesus fosse perfeitamente Deus, possa ser Deus, recebendo igual direito de ser adorado e honrado? Como entender que o Filho do Homem vai dividir o trono de Deus, em igual posição, sendo responsável pelo juízo final, assumindo o papel de Juiz de toda Terra? (Gn 18.25). Somente aquele indivíduo dotado de discernimento e temor de Deus pode entender esta verdade na atual dispensação e, naquele dia toda a humanidade, de todas as eras, bem como todos os anjos, mesmo os caídos terão de dobrar seus joelhos e confessar que Jesus é o Senhor para glória de Deus Pai (Fl 2.11). O que Jesus ressaltou nesta revelação de receber honra igual aquela dada ao seu Pai celestial é que nesta era todo indivíduo demonstra seu posicionamento em favor ou oposição a Jesus, sendo esta atitude indício de seu lugar no juízo final, se honrar Jesus vai estar no julgamento dos galardões para vida eterna, se não no julgamento das obras para condenação eterna.

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