Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 6.52-55

Jo 6.52

"Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode este dar-nos a comer a sua própria carne?" (Jo 6.52). A resposta de Jesus pegou os judeus de surpresa. Eles estavam dispostos a considerar a analogia em comparar Jesus com o maná descido do céu. Por isso não tiveram nenhuma dificuldade em aceitar Jesus como sendo o pão da vida. Na perspectiva deles Jesus, ao se declarar o pão descido do céu, estava apenas se colocando como a fonte de toda provisão. Comparando com o Êxodo, o que os judeus esperavam é que Jesus continuasse realizando o milagre da multiplicação dos pães. Não importava para eles se Jesus se apresentava como sendo o próprio pão desde que o maná fosse dados a todos. Agora, quando Jesus muda a figura de linguagem tudo se torna muito mais complicado. Jesus é o Verbo encarnado. Certa vez Ele disse aos discípulos: "Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. "(Lc 24.39). Assim, ao dizer da necessidade de comer de sua carne, os judeus entenderam que Jesus falava de seu corpo físico. De pão multiplicados eles entendiam, mas de comer a carne de Jesus era algo absurdo, que não cabia no entendimento deles. No entanto, se eles trouxessem a lembrança a apresentação que João Batista fez de Jesus, a afirmação lhes faria mais sentido. Jesus é o Cordeiro de Deus (Jo 1.29), portanto, comer da carne de Jesus equivaleria a participar da ceia da páscoa, quando cada família compartilhava consigo um cordeiro em lembrança a libertação do Egito nos dias do Êxodo. Ademais, para compreender a fala de Jesus eles teriam também de aceitar que a profecia de Isaías acerca do cordeiro indo ao matadouro se referia a Jesus (Is 53.7). No entanto os rabinos interpretavam esta profecia não como uma alusão ao Messias, mas ao próprio Estado de Israel por conta de todas as perseguições que sofreram ao longo da história. Assim, a verdadeira natureza da missão de Jesus como sendo o Messias a caminho da cruz estava oculta aos olhos dos judeus.

Jo 6.53

"Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos." (Jo 6.53). Jesus retomou seu argumento de ser Ele não só o pão de Deus (Jo 6.33), como também deste pão ser a sua própria carne (Jo 6.51). E circunscreveu seu argumento salientando que esta é a carne do Filho do Homem, fazendo referência a sua encarnação. Só que agora acrescentou outro ponto: não basta comer de sua carne, é preciso beber de seu sangue para que o crente possa ter vida em si mesmo. Estes argumentos ficam extremamente difíceis de entender se não levarmos em conta que a principal apresentação acerca de Jesus está na sua condição de ser Ele o Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Voltemos ao Antigo Testamento para entendermos todas estas conexões. Nas instruções dadas a Arão e a seus filhos, eles tinham de trazer um bezerro e um bode por ofertas pelo pecado; um bezerro e um carneiro para holocaustos; e um boi e um carneiro para ofertas pacíficas (Lv 9.2,4). Estes animais precisavam ser de um ano e sem defeito (Lv 9.2). Esta alusão a condição física dos animais remete a concepção de Jesus Cristo pelo Espírito Santo no ventre de Maria. Deus lhe preparou um corpo absolutamente santo, sendo Jesus Cristo, portanto, o Filho do Homem. Assim todos estes animais remetem figuradamente a Jesus Cristo como sendo Ele o Cordeiro de Deus. Em dado momento o sangue do bezerro era posto tanto nos chifres do altar quanto em sua base e em seu derredor (Lv 9.9,12,18). Feitos todos estes sacrifícios a glória do Senhor aparecia diante de todo o povo, vindo fogo do céu para consumir aqueles sacrifícios, trazendo alegria ao povo, fazendo-os prostrar diante de Deus (Lv 9.23,24). Por fim Arão e seus filhos deviam se alimentar das ofertas e manjares, bem como do peito da oferta movida, comendo da carne dos animais (Lv 10.12,14). Portanto os sacerdotes se alimentavam com parte dos sacrifícios que eram levados ao fogo diante do Senhor, sendo eles orientados a não beberem vinho enquanto realizam estas cerimônias sagradas para nunca perderem a consciência e o discernimento do propósito último de todos estes sacrifícios (Lv 10.9).

Jo 6.54

"Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia." (Jo 6.54). Vimos a conexão entre a carne de Jesus e o cordeiro sacrificial do culto no tabernáculo de Moisés. Em certas circunstâncias o sacerdote podia se alimentar da carne, mas o sangue era derramado sobre o altar. Aliás, o judeu não podia comer de carne com sangue, se o fizesse seria eliminado da congregação, pois a vida da carne está no sangue (Lv 17.10,11). A primeira coisa que precisamos compreender é que sem derramamento de sangue não há remissão de pecados (Hb 9.22), portanto qualquer que seja o modo como Jesus dará de sua carne e do sangue, Ele precisa morrer para fazer isso. E por quê? Por ser este o único jeito de ter seu sangue derramado. E como era feito este procedimento? O israelita que desejasse fazer uma oferta do Senhor devia levar um cordeiro ao sacerdote. Este cordeiro não podia ter nenhum defeito. Antes da oferta ser apresentada o israelita devia colocar sua mão na cabeça do cordeiro. Este é um ato de identificação com o sacrifício, prenunciando uma morte substitutiva. E por que esta morte é necessária? Porque o salário da morte é o pecado (Rm 6.23) e só um cordeiro pode substituir o homem pecador aos olhos de Deus. Feita a identificação e entregue ao sacerdote, este deveria imolar o cordeiro, colher o sangue em uma vasilha e derramar sobre o altar. Então a carne é queimada sobre o altar. Quando se consumar a oferta a palavra de Deus atesta que os pecados do ofertante estão perdoados (Lv 4.26). De algum modo, sendo até aquele momento desconhecido, a oferta de Jesus era sua carne e sangue, mas em dimensão muito superior ao culto sacerdotal. Ele propunha primeiro, morrer em lugar do pecador. Em sua morte Ele derramaria o seu sangue, oferecendo voluntariamente sua carne. Consumado o sacrifício Ele perdoaria todos os pecados do ofertante desde que este se identificasse com Ele. E, para demonstrar que este seria um sacrifício eterno, Jesus propunha ao ofertante se alimentar dele, entranhando em seu ser a carne e o sangue de Jesus. Em tomando está atitude a vida que estava no sangue de Jesus seria transferida para o ofertante, passando a ter vida eterna. E, se morrer fisicamente, este ofertante será ressuscitado no último dia. Assim Jesus assegurou a certeza de salvação ao ofertante que nele cresse, comendo de sua carne, bebendo de seu sangue.

Jo 6.55

"Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida." (Jo 6.55). A ênfase dada por Jesus em sua carne e seu sangue demonstra o âmago do propósito divino para com o ser humano. O homem não só foi criado à imagem e semelhança de Deus, não só foi posto na terra para a lavrar e guardá-la, como também para ter profunda comunhão com Deus. É por esta razão que na viração do dia vinha Deus visitar o primeiro casal. E a forma divina desta expressão de comunhão é a convivência em torno de um bom prato de comida, regado por boa bebida. Dai decorre a ênfase dada por Jesus na importância do crente comer de sua carne e beber de seu sangue. Sabemos da importância física da alimentação. Tanto hoje quanto no jardim do Éden o homem alimenta-se das árvores frutíferas, mas no Éden havia ainda a árvore da vida. Alimentar-se daquela árvore é comer da carne e do sangue de Jesus porque "a vida estava nele e a vida era a luz dos homens" (Jo 1.4). Talvez alguém continue se perguntando: – Como é possível alimentar-se de Jesus? Lembra que os sacerdotes, ao ofertar ao Senhor no templo não podiam beber do vinho para jamais perder a consciência de sua atitude? (Lv 10.9). Aqueles sacerdotes não só tinham de fazer distinção entre o santo e o profano, entre o imundo e o limpo, como também tinham de ensinar seus filhos todas estas coisas (Lv 10.10,11). Lembra quando falávamos de diariamente buscar o pão na padaria divina, como uma figura da necessidade diária de alimentar-se de Jesus? Todas estas ilustrações no âmbito físico são para demonstrar que temos de alimentar nosso espírito assim como tratamos do nosso corpo. Acerca deste tipo de fome Jesus fez a seguinte declaração: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos." (Mt 5.6). A justiça é o alimento do espírito e só podemos ativar este tipo de fome por meio da conscientização desta necessidade, caso contrário a opção alimentar não será a árvore da vida, mas todas as demais árvores frutíferas, sem poder algum de conceder vida eterna.

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