Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 6.56-59

Jo 6.56

"Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele." (Jo 6.56) Jesus continuou dando ênfase no exercício da fé para o que recebe sua carne e seu sangue como alimento e bebida verdadeiros. Com isso Ele contrastou sua carne e seu sangue com todos os demais tipos de alimentos deste mundo, cujo propósito é de fazer manutenção da vida física, mas incapazes de dar vida eterna. Isto nos faz lembrar outra importante declaração de Jesus acerca deste contraste: "… Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." (Mt 4.4). No grego este contraste se evidencia com mais força, porquanto a vida se apresenta com dois tipos de qualidades distintos: a vida psique, vida da alma e a vida zoe, vida divina. A primeira circunscreve a este mundo e todo aquele que depende deste tipo de vida se depara depois da morte com o juízo (Hb 9.7). O outro tipo é a vida zoe, vida de Deus, com durabilidade eterna dada a todo aquele que crê em Jesus Cristo (Jo 6.47). Seja um tipo de vida ou outro, ambas enfatizam o aspecto de continuidade, ainda que a primeira tem um limite extremamente curto, já a vida zoe se identifica com o atributo divino de eternidade futura. Temos aqui outro conceito importante acerca da vida eterna, ela não só perdura para sempre, como também tem sua intensidade expressa no dia chamado Hoje como podemos ler: "Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação." (Hb 3.15). Foi por causa deste dia de Hoje que Jesus evidenciou o papel que sua carne e seu sangue ocupa. Isto porque o ato de comer se processa diariamente para manutenção da vida física, do mesmo modo devemos cuidar de nossa nutrição espiritual. Assim comer da carne de Jesus e beber do sangue de Jesus deve ser um ato diário de fé. Com isso Jesus faz a conexão entre o dia chamado Hoje com a continua permanência nele com reflexo dele próprio se tornar presente neste dia a dia do crente. Jesus expressa esta realidade ao declarar: – Quem comer e beber… permanece em mim, e eu, nele (Jo 6.56). Este convite é verdadeiramente um chamado a comunhão diária. Podemos concluir, portanto, que crer na vida eterna intensifica a significância do momento presente, do dia de Hoje.

Jo 6.57

"Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá." (Jo 6.57). Jesus continuou enfatizando seu chamado a comunhão com Deus. Este chamado tem duplo sentido, por um lado ele faz parte da promessa de vida eterna, por outro ele pressupõe o desejo voluntário do crente em se relacionar com Deus no dia chamado Hoje. Jesus enfatizou este anseio na oração do Pai nosso, ao inserir nesta oração a petição diária: – O pão nosso de cada dia dá-nos hoje (Mt 6.11). Considere a bússola. O planeta Terra tem um Norte magnético para o qual a bússola sempre se voltará, não importa para o lado que ela seja virada. Do mesmo modo todo aquele que reconhece ser Jesus o pão do céu, o pão de Deus, o pão da vida, o pão que desceu do céu, necessariamente precisa ter o anseio de alimentar-se deste pão diariamente. Se não houver este anseio então a aproximação que este crente faz de Deus é utilitarista, Neste  caso cabe a advertência inicial feita por Jesus ao iniciar este diálogo com os judeus: "… Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes" (Jo 6.26). Precisamos pesar profundamente nosso coração diante de Deus: – Estamos na sua presença para resolver nossos problemas ou para buscar a sua glória? Jesus, o enviado de Deus, colocou a si mesmo como exemplo do verdadeiro relacionamento com o Pai celestial. Disse Jesus: – Eu vivo pelo Pai (Jo 1.57). Considere a seguinte cena: – Você mora em uma casa com alguém, seja seu pai ou mãe ou seu conjugue ou seu filho ou sua filha ou outra pessoa qualquer. Este outro prepara o almoço, dispõe a mesa para a refeição e chama você para comer. Você serve seu prato com o celular nas mãos conversando pelo Whatsapp. Qual a mensagem que você está transmitindo para esta pessoa sentada na mesa com você? Que a única pessoa que importa não é ela que o alimenta, mas a outra distante, contudo conectada virtualmente com você. Por outro lado, Jesus, mesmo enviado por Deus para estar neste mundo, em tempo algum deixou de manter comunhão com seu Pai celestial como tinha na eternidade passada. Por isso Jesus disse ser seu Pai celestial o seu verdadeiro Norte, com quem mantém íntima comunhão. E é para este nível de relacionamento que Ele convida o crente.

Jo 6.58

"Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente." (Jo 6.58). Jesus fechou o raciocínio de sua extensa argumentação. Os judeus tinham vindo até Jesus por causa do milagre da multiplicação dos pães. Jesus havia mostrado a eles que o buscavam unicamente para satisfazer seus anseios e necessidades. Jesus havia os exortados a trabalhar pela comida que subsiste para a vida eterna. Então, para crer, eles pediram um sinal semelhante aquele dado por Moisés na travessia do deserto no Êxodo. Na perspectiva dos judeus o maná recebido a cada manhã era o pão do céu. Jesus contrapôs dizendo ser Ele próprio o pão de Deus, pão que dá vida. Isto porque Jesus desceu do céu como enviado de Deus para dar vida ao mundo (Jo 6.33). Foi nesta perspectiva que Jesus fechou seu argumento, fazendo um contraste entre este pão divino com o maná do deserto. Jesus trouxe a memória dos judeus que aquela geração que saiu do Egito morreu no deserto. Diferente acontece com quem crê em Jesus e come deste pão do céu, este viverá eternamente. Alguém poderá questionar: – Não entendi, se quem comeu o maná morreu, como naturalmente acontece com todo ser humano, isto significa que ninguém de Israel será ressuscitado? Só haverá ressurreição para quem ouviu de Jesus, isto é, o povo que veio depois do Novo Testamento, a igreja? Para compreendermos a argumentação de Jesus temos de recapitular a história do Êxodo. Israel foi liberto da escravidão do Egito e, passando pelo mar Vermelho, foi levado ao monte Sinai para receber as tábuas da lei, os dez mandamentos. Depois deviam seguir viagem até Canaã, a terra prometida que mana leite e mel. Portanto os judeus deviam sair do Egito e chegar a terra prometida, sendo esta a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Todo este percurso poderia ter sido feito em 15 dias (Ex 13.17), talvez um pouco mais, pois se tratou do deslocamento de uma multidão perto de três milhões de pessoas, visto ter sido contado no censo cerca de 600.000 homens (Ex 12.37). O que deu errado?

Para entendermos o que deu errado no Êxodo precisamos identificar os três principais atores daquele período histórico. Temos Moisés, que liderou Israel, mas não entrou na terra prometida por ter falhado em representar Deus (Dt 3.26,27). Temos o povo, que receberam o relato dos espias com incredulidade, sendo sentenciados por Deus a não entrar na terra prometida (Nm 14.22,23). Temos Calebe e Josué, por ter outro espírito distinto do povo, perseverando em seguir a Deus, sendo-lhes prometidos entrar na terra prometida (Nm 14.24,30). Como os espias percorreram a terra prometida por 40 dias, Israel peregrinaria no deserto por 40 anos, expressando todo o desagrado divino quanto a atitude incrédulas deles (Nm  14.34). Foi considerando todas estas circunstâncias que Jesus contrastou sua oferta do pão da vida com o maná dado àquela geração incrédula. Aquele povo, depois de receber esta terrível sentença ainda tentou agir na força da carne. Fez um superficial reconhecimento de seu pecado e avançou militarmente contra Amaleque, mesmo Moisés alertando que o Senhor Jeová não estaria com eles naquela peleja. Resultado: o povo caiu diante da espada dos amalequitas (Nm 14.45). Esta batalha contra Amaleque é de grande significância histórica para Israel. Isto porque depois de Deus enviar o maná para Israel (Ex 16.15), Israel tentou a Deus em Refidim (Ex 17.7). Esta tentação foi retratada pelo autor aos Hebreus como o atestado da recusa de Israel em entrar no descanso de Deus (Hb 3.7-11). Na sequência Josué liderou a peleja contra Amaleque com ajuda da intercessão de Moisés e venceu (Ex 17.8-16). Foi quando Deus declarou ser a batalha contra Amaleque um tipo de guerra que se perpetuaria de geração em geração, até Amaleque ser riscado de debaixo do céu (Ex 17.14). Este é o retrato da batalha entre a carne e o Espírito e só quem se submete a liderança do Espírito Santo vence esta guerra. O que Jesus demonstrou no diálogo com os judeus é que comer de sua carne e beber de seu sangue é a única forma de vencer a batalha entre a carne e o Espírito, quem assim não se alimentar morre em sua incredulidade.

Jo 6.59

"Estas coisas disse Jesus, quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum." (Jo 6.59). Depois da multiplicação dos pães perto de Tiberíades (Jo 6.1) a multidão saiu em busca de Jesus. O encontrou em Cafarnaum (Jo 6.4). Ao final do diálogos que tiveram, somos informados que provavelmente este diálogo se deu na sinagoga nesta cidade. Esta sinagoga tinha sido construída graças a generosa oferta de um centurião romano, o mesmo que tivera seu servo curado por Jesus (Lc 7.5,10). Israel tinha como ponto de referência para o culto a Deus o templo de Jerusalém. Todo judeu devia ir pelo menos uma vez ao ano a esta cidade para comemoração da páscoa do Senhor. No entanto, como parte dos judeus não voltaram para Israel depois do exílio na Babilônia, sinagogas foram construídas em territórios estrangeiros para Israel fazer suas orações, leitura do Antigo Testamento e aprender do Torá. Os cristãos estabeleceram seus lugares de cultos, em parte, inspirados nestas sinagogas, portanto podemos dizer que do mesmo modo como Jesus esteve presente naquela sinagoga de Cafarnaum para ensinar, também o faz por meio do Espírito Santo nos templos cristãos. Submeter-se ao ensino da palavra de Deus é fundamental para adorar, cultuar e servir a Deus com base na verdade. É impossível se relacionar com Deus de forma empírica, por tentativa e erro. Quem assim procede fatalmente incorrerá em algum tipo de idolatria. Isto porque a Bíblia é a palavra de Deus e só quem se expõe a esta palavra conhece a verdade libertadora (Jo 8.32) e, por meio desta verdade tem experiência pessoal com Jesus Cristo (Jo 8.36). O apóstolo Paulo reforça este vínculo entre o ensino e as atitudes do Cristão em sua instrução a Timóteo: "Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade." (I Tm 3.14,15). E foi por intermédio do ensino que os judeus puderam aprender de Jesus que só há intimidade com Deus para aquele que se alimenta do pão vindo do céu, isto é, comer da carne e beber do sangue de Jesus.

Leave a Comment