Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 7.10-13

Jo 7.10

"Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, então, subiu ele também, não publicamente, mas em oculto." (Jo 7.10). Quem anda guiado pelo Espírito de Deus é uma incógnita para o mundo. Jesus foi convidado por seus irmãos para ir a Jerusalém. Ele foi enfático em dizer que não iria, pois não havia chego sua hora. Tendo seus irmãos saídos para a Festa dos Tabernáculos, o Senhor saiu em seguida para o mesmo lugar que outrora dissera que não iria. Por que esta contradição? A chave para entender a decisão de Jesus está na expressão "o meu tempo ainda não chegou" (Jo 7.6). Quanto tempo levou para esta mudança de direção? Talvez menos que um dia ou uma hora ou, mesmo um segundo. O que fez Jesus dizer não, em seguida ir? Sua disposição interior de consultar a Deus, seu Pai celestial. Por que Jesus fez esta consulta? Por entender que Deus, o Pai eterno é o supremo governante do universo. Em que situações devemos agir da mesma forma que Jesus? Em toda e qualquer situação como se pode ler: "Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens" (Cl 3.23). Não há nenhuma atividade humana que não esteja debaixo do senhorio divino, seja o trabalho, mesmo o lazer, seja uma conversa de esquina, mesmo as rotinas familiares. Nossa conduta e nossos pensamentos, tudo deve ser feito como ao Senhor e, neste sentido, "tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai" (Cl 3.17). Uma vez que compreendemos que a totalidade de nosso viver está debaixo desta soberania, então a disposição de fazer deve ser antecedida pela oração que busca a aprovação do Senhor naquilo que fazemos. É por isso que Paulo nos instrui a orar sem cessar, porquanto andar com Deus implica em trazer conscientemente o Senhor para a totalidade de nossa existência. Simplificamos podemos dizer que tudo neste mundo nos é proibido até termos o consentimento divino em fazer. E esta proibição é apenas uma forma de nos fazer entender que o Senhor quer participar diretamente de nosso viver em comunhão conosco. Quantos erros não teriam sido evitados se tão somente tivéssemos o hábito de consultar o Senhor em tudo quanto fazemos! Deus não proibiu Jesus de ir a Jerusalém, apenas queria lhe fazer companhia, por isso entre o convite de seus irmãos e a ida de Jesus houve um colóquio entre Jesus e seu Pai celestial, então Jesus sentiu-se livre para fazer o que antes lhe parecia um impedimento.

Jo 7.11

"Ora, os judeus o procuravam na festa e perguntavam: Onde estará ele?" (Jo 7.11). Os irmãos de Jesus o queriam presente na Festa dos Tabernáculos e os judeus procuravam por Jesus durante a festa. No entanto um e outro eram incrédulos, rejeitavam as reivindicações de Jesus como sendo o Messias de Israel. Isto nos faz lembrar quando da multiplicação dos pães, a multidão que presenciou este milagre extraordinário queria fazer de Jesus Rei, no entanto o Senhor se afastou deles. Identificaram em Jesus o Profeta que havia de vir, também destes o Senhor se afastou. Queriam o Senhor na Festa, contudo o Senhor não foi no instante da solicitação. Por que o Senhor havia se ocultado? Por que quem buscava o Senhor não o podia encontrá-lo? Não é isso que acontece muitas vezes conosco? Conhecemos Jesus, sabemos do que Ele é capaz de fazer, reconhecemos nossa dependência dele, contudo quando o buscamos, não o encontramos do modo como o procuramos. Deus havia dito pelo profeta Jeremias: "Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração" (Jr 29.13). Mesmo Jesus estando por perto, disposto a nos atender, para o encontrar temos de procurá-lo nos termos de Deus. Jesus só pode ser encontrado se for buscado de todo o coração. Nos dias atuais vivemos a maior crise desde a segunda guerra mundial. Um vírus mortal está paralisando o sistema mundial no âmbito da economia, da política e da sociedade. Igrejas institucionais tiveram de fechar suas portas para evitar contaminação. O vírus mortal está a espreita, procurando quem possa tratar, uma figura de Satanás que ruge contra as vidas preciosas. Assim foi nos dias de Jeremias. O profeta havia anunciado o exílio para a Babilônia com duração de 70 anos. Este espaço temporal profético é um alento: todo mal tem seus dias contados, uma hora termina, mas os propósitos eternos de Deus perduram. Em meio aquela notícia de desterro e pobreza, de escravidão e perda de nacionalidade, Deus fez soar seu plano eterno: "Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais" (Jr 29.11).  Mesmo em meio a tribulação Deus não mudou em sua intenção de abençoar, contudo permitiu tempo como estes para aferir nossa verdadeira intenção em relação a Ele, por isso deixou determinado que só seria encontrado se nós fizermos a busca de todo o coração.

Os judeus procuravam Jesus onde? Em Jerusalém? Em que momento? Na Festas dos Tabernáculos? Quem instituiu esta festa? O Deus dos céus. Em que termos esta festa foi instituída? "Fala aos filhos de Israel, dizendo: Aos quinze dias deste mês sétimo, será a Festa dos Tabernáculos ao Senhor, por sete dias.' (Lv 23.34). Israel tinha o dever de comparecer em Jerusalém para, por sete dias, comemorar a colheita realizada (Lv 23.39). Note que coisa extraordinária: Deus instituiu a semana de sete dias. Nela o homem deveria trabalhar por seis dias, descansar no sétimo para dedicar este dia a adoração ao Senhor. Este ciclo se repetiria por 51 semanas no ano. Na última semana do ciclo agrícola Israel deveria dedicar sete dias ao Senhor, os seis que seriam reservados ao seu trabalho com o sétimo que já pertencia ao Senhor. Com isso Israel estaria reconhecendo que todos os dias, mesmos aqueles dedicados ao seu próprio esforço, pertenciam ao Senhor que dá a cada homem a inteligência, o conhecimento e  sabedoria para lidar com a produção do fruto do seu trabalho. Era neste contexto que os judeus procuravam por Jesus. Este Jesus é o mesmo que criou todas as coisas e para quem todas as coisas criadas se convergem. Os irmãos de Jesus queriam que Ele fosse para a festa desde o primeiro dia. Se ele fosse um homem comum deveria ter ido, mas como Ele era o Senhor da festa, a razão para a qual a festa existia, então sua ida teria de se desdobrar em duas etapas: primeiro Jesus teria de se apresentar na festa em oculto para tudo observar; depois Jesus faria sua manifestação pública para centrar em si todo sentido da Festa dos Tabernáculos. Assim Deus age entre os homens: primeiro sonda os corações, depois manifesta sua presença. Primeiro verifica se quem se faz presente na festa foi a ela para buscar a Deus de todo o coração, para só então manifestar-se a este adorador. É por esta razão que uma multidão pode estar no mesmo local com Jesus, mas só seus discípulos conseguem compartilhar da comunhão com Ele.

Os judeus procuravam Jesus na Festa dos Tabernáculo. Esta era uma festa que durava sete dias. Uma das exigências divinas era de erguerem uma tenda de ramos para nela acamparem por sete dias. E por que eles precisavam tabernacular por sete dias? Leia por você mesmo: "para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus." (Lv 23.43). O Êxodo foi um evento ocorrido mais de 1400 anos antes de Jesus, no entanto era ainda lembrado  por meio desta extraordinária Festa, como também pela Páscoa. O principal objetivo desta lembrança era o de mostrar que, mesmo diante da fragilidade da vida, Deus conduz seu povo e o protege, pois é o seu Redentor. Note que os judeus procuravam por Jesus e não o encontravam porque não buscavam Jesus como o Messias. Esta dificuldade dos judeus em aceitar Jesus como sendo o Messias perdura até hoje. Aliás, Jesus fez uma declaração profética da única condição por meio da qual Jesus seria encontrado por Israel: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!" (Mt 23.37-39). Observe quão terrível foi para os judeus a rejeição do papel exercido por Jesus em sua primeira vinda enquanto Redentor. Por causa desta rejeição Jerusalém foi destruída pelos romanos, juntamente com o templo, no ano 70 d.C., os judeus foram espalhados entre as nações até 1948 e, mesmo voltando a sua terra, só vão reconhecer Jesus na batalha de Armageddon. Os judeus que se converteram antes disso se tornaram membros do corpo de Cristo, da igreja, porque a redenção propiciada por Jesus fez dos dois povos: judeus e gentios, um novo homem (Ef 2.15). Portanto já se passaram mais de dois mil anos em que os judeus buscam Jesus pelos motivos errados.

Como dissemos: os judeus buscam Jesus até hoje pelos motivos errados. Nesta atual dispensação Jesus só se deixa encontrar no seu papel enquanto Redentor. Alias, certa vez sua própria família o perdeu. José e Maria tinham ido até Jerusalém com Jesus. Findo os dias da Páscoa, voltaram para Nazaré. Um dia depois perceberam que Jesus não estava com eles e só no terceiro dia encontram Jesus no templo. Questionado porque não seguira viagem com eles, Jesus respondeu: "… Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?" (Lc 1.49). É por ter esta índole de perder a consciência e o foco na obra e nos propósitos divinos que a Festa dos Tabernáculos era comemorada ano a ano. Também nós, enquanto igreja do Senhor, membros do corpo de Cristo, somos exortados a não esquecermos de onde viemos quando encontramos a Cristo. O apóstolo Paulo, instruindo Tito sobre a importância de estar sujeito as autoridades e prontos para toda boa obra, dando prova de cortesia com todos os homens, fez Tito lembrar que "… nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros" (Tt 3.3). O que fez mudar esta condição de vida foi a manifestação da "… benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos…" (Tt 3.4). A consciência do novo nascimento desenvolve em nós a gratidão a Deus por tão grande salvação, como também a misericórdia para com todos os homens, indistintamente. Devemos entender que Jesus é o Senhor; também é o grande Rei; também é o Profeta prometido; também é o Sumo sacerdote da nova aliança; mas, acima de todas estas qualificações, Ele é o Messias, o Redentor, o Cristo. Qualquer que exaltar os demais papeis de Jesus sem conexão com a redenção, perde-o, mesmo que esteja procurando como fizeram os judeus. É por isso que a cruz de Cristo é o eixo por meio do qual se desenvolve nosso relacionamento com Jesus enquanto Senhor, Rei, Profeta e Sumo sacerdote.

Jo 7.12

"E havia grande murmuração a seu respeito entre as multidões. Uns diziam: Ele é bom. E outros: Não, antes, engana o povo." (Jo 7.12). Se por um lado os judeus polêmicos buscavam por Jesus com o propósito de combater sua mensagem, por outro a multidão discutia entre si, questionando a idoneidade de Jesus. Muitos entendem o diálogo como uma partida de futebol onde cada torcida tem de defender seu time com unhas e dentes, não importa a qualidade do jogo. Neste cenário os judeus se julgavam portadores da verdade, medindo tudo pela regra do conhecimento deles. Já a multidão só podiam aceitar a fé proposta por Jesus se ela passasse pelo validador social, por isso se colocavam em polos opostos. Uns eram partidários dos discípulos de Jesus, outros dos judeus. Sem ter como argumentar com Jesus quanto ao conteúdo apresentado por Ele, julgavam seu caráter. Para uns Jesus era bom, para outros enganador. Geralmente é isso que acontece quando o argumento é curto, entendimento precário e a verdade não está sendo buscada, a pessoa deixa de prestar atenção na mensagem para atacar a idoneidade do pregador. Este ambiente é o oposto das condicionantes adequadas para o aprendizado. Como devemos dispor nosso coração para aprender de Deus? A primeira coisa é disposição de buscar a infalível verdade divina, depois confrontar esta verdade com a nossa forma de pensar, por fim render-se ao veredito da palavra de Deus, concordando com Deus, crendo em sua palavra. Digamos que você esteja em um templo ouvindo o pastor pregar. A primeira coisa a observar é qual o texto base de sua mensagem. A medida que ouve a explanação do pastor, deve ser examinado a fidelidade dele ao texto base de sua mensagem. Então é obrigação do ouvinte se questionar o que Deus quer lhe revelar através daquela pregação. Por fim se dispor a obedecer a direção dada por Deus naquela mensagem. E como a pessoa geralmente ouve um pregador? Primeiro examina quem é a pessoa, se boa ou tolerável. Depois questiona a tonalidade de sua voz, se agradável ou agressiva. Então se pergunta para quem aquela mensagem está sendo direcionada, se para os líderes ou algum membro em particular. Por fim vai embora questionando se o pastor tinha ou não autoridade para ministrar aquela palavra. No primeiro grupo estão os discípulos, no outro a multidão.

Jo 7.13

"Entretanto, ninguém falava dele abertamente, por ter medo dos judeus." (Jo 7.13). Jesus estava nos últimos meses de seu ministério. Era crescente a oposição à sua pregação. Todo o sistema religioso de Israel estava ouriçado, nervoso, perturbado com a presença de Jesus. Qualquer pessoa que ousasse tomar partido a favor de Jesus seria excluído da comunidade, seria expulso do templo. Ninguém ousava contrariar seus líderes religiosos porque foram ensinados serem estes mediadores entre Deus e os homens. Cortar vínculo com seus líderes seria o mesmo que se excluir da vida eterna. Certa feita Jesus criticou severamente os fariseus e, em dado momento os exortou dizendo: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!" (Mt 23.13). Estes religiosos tinham por função ensinar as palavras de Moisés, registradas nos primeiros cinco livros da Bíblia.  Isto porque o método divino para se manifestar perante os homens é o de constituir testemunhas na terra das realidades celestiais. Neste prisma os escribas e fariseus tinham a incumbência de ensinar a palavra de Deus, razão porque Jesus os designou como assentados na cadeira de Moisés. Ocorre que, com o passar do tempo, estes líderes afastaram-se da verdade para impor suas próprias tradições. Como o povo não tinha acesso a fonte original, a única forma de conhecer a palavra de Deus era por aquilo que ouviam dos judeus. Usando da prerrogativa que tinham, os judeus patrulhavam ideologicamente o povo de sua época. Qualquer que pensasse diferente deles eram excluídos do meio, inclusive com perda de bens e direitos. Qualquer pessoa que cresse em Jesus naquela época deveria estar preparada para ser duramente perseguida, despojada de seus bens, segregada de seus familiares e obrigada a mendigar seu pão. Se por um lado viver em meio a este nível de opressão era terrível, por outro esta tirania servia de filtro para destacar os verdadeiros seguidores de Jesus. Ainda no Sermão do Monte Jesus havia alertado que fazia parte das bem-aventuranças ser perseguido por causa da justiça. Esta perseguição evidencia a verdadeira natureza deste mundo caído, onde aqueles que andam em trevas estão governados pelo príncipe deste mundo. Quando a luz divina se manifesta, os que são trazidos ao reino de Deus tendem a sofrer feroz oposição.

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