Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 7.14-15

Jo 7.14

"Corria já em meio a festa, e Jesus subiu ao templo e ensinava." (Jo 7.14). Jesus tinha vindo em oculto para a festa. Em dado momento ele se dirigiu ao templo com o propósito de ensinar. A contraposição de ensinar é aprender, ou seja, temos aqui dois personagens em posições extremas. Nos dias atuais estas duas figuras praticamente desapareceram para se mesclar em uma só pessoa. Na percepção moderna todos temos algo a ensinar, todos podemos aprender. E como era antigamente? Um professor subia em um tablado, os alunos a sua frente. Por determinado tempo este professor fazia sua exposição, os alunos procuravam assimilar o conteúdo. Hoje a figura do tablado sumiu, o professor anda em meio aos alunos atuando como provocador, para extrair de dentro deles o conhecimento. O conhecimento se relativizou, cada um tem sua própria verdade, a opinião de todos são igualmente válidas. Neste cenário o conhecimento tem de emergir do meio como uma fonte de água. Este tipo de mentalidade faz com que o instruidor rejeite a posição de autoridade, sua primeira atitude é descer do palco para ficar no mesmo nível dos demais. Este aparente gesto de humildade nada mais é senão o reconhecimento da relativização da verdade. Considere por um instante o que seja ciência: é um corpo de conhecimento sistematizado sobre algo que foi objeto de estudo. Quando este conhecimento é fundamentado em evidências, postulados e axiomas se converte em teoria. Esta teoria se sobrepõe a todo conhecimento empírico até que se descortine o objeto de análise com mais profundidade, podendo haver uma revisão da teoria ou mesmo, surgir outra teoria ainda mais avançada que explique a realidade. Sob esta ótica o conhecimento humano é um processo de revisão contínua, razão porque se pode asseverar de sua relatividade. Nesta lógica não há absoluto no ensino mas apenas uma troca de experiência para que cada um crie sua própria verdade. Nesta perspectiva Jesus não tem algo a ensinar, mas sim, compartilhar.

Devemos nos perguntar o significado do termo "ensinar", pois Jesus é visto como Mestre. Por ensinar entenda-se como sendo a transmissão de conhecimento sobre alguma coisa a alguém. Neste caso quem está a ensinar? Jesus Cristo. Quem é Ele? O Criador dos céus e da terra. O que têm Jesus a ensinar? "… todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento…" (Cl 2.3). Portanto o ensino que Jesus tem a transmitir é algo inédito, inigualável, profundo, exato e verdadeiro. Este ensino está além de nossa compreensão, exigindo que nos posicionemos diante dele em humildade, com inteira disposição de absorver o conhecimento, reprocessando nossa forma de pensar. É por esta razão que o Senhor disse pela boca do profeta: "… assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos" (Is 55.9). Aprender de Jesus é um processo que demanda contínua conversão, exige a disposição de entrar de um jeito e sair transformado pelo poder de Deus. Aprender de Jesus exige a habilidade de andar sobre as águas como fez Pedro. Enquanto nos dispomos a olhar para Jesus o mar parece uma estrada, mas se nos voltarmos para as circunstâncias ou termos a sabedoria deste mundo por referencial, o mar se torna como um pântano traiçoeiro, nos fazendo submergir temerosos por perder nossa vida. Portanto aprender de Jesus demanda a consciente escolha de abrir mão de nossa posição para incorporar a forma divina de pensar no processo de tomada de decisão que adotamos para seguir o caminho de Deus em detrimento de nossa própria forma de agir. A pergunta que devemos nos fazer é esta: – Em que aspecto do nosso viver estamos sendo moldados pela palavra de Deus? Temos evidência de mudança na nossa forma de pensar, de se portar, de nos relacionar, de enxergar o mundo que nos cerca? Estamos procurando por Jesus igual os irmãos dele, apenas para ser visto pelos outros; ou como os judeus, para polemizar; ou como a multidão, para suprir suas necessidades vitais; ou como discípulos, para sermos verdadeiramente guiados por Deus?

Jesus estava ensinando no meio da festa dos Tabernáculos, evento este que teve início a mais de 1.400 anos antes. Considere o seguinte: um professor usa do recurso do quadro negro para ensinar. Jesus usou de um evento que ele preparou antecipadamente 1.400 anos antes de sentar-se naquele lugar para ensinar. Sob a ótica divina o passado se reconcilia com o presente e projeta o futuro. Muitas vezes olhamos nosso passado como fora de esquadro. Refletindo nele muitos gostariam de o apagar, ou reescrever, ou recomeçar tudo de novo. Esta impressão que carregamos dentro de nós decorre de não pararmos diante de Jesus para, por meio do nosso passado, extrair lições da provisão divina existente em todo o curso de nossa existência. E o que a festa dos Tabernáculos nos ensina? Não importa de quantas coisas materiais nos cercamos, continuamos sujeitos a todo tipo de fragilidade. Este é o significado para os judeus nesta época. Eles abriam mão de suas luxuosas residências para morar em tendas feitas de ramos. Por sete dias eles tinham de considerar quão sujeito as intempéries eles estavam. Mas este não era o aspecto mais importante da festa. Quando eles conscientemente armavam a tenda, tinham de reconhecer que, apesar de tudo, Deus cuidou deles, provendo, inclusive, o material para a tenda ser erguida e o suprimento para permanecerem sete dias na presença de Deus. O que se evidenciava não era a fragilidade em si, mas o poder sustentador de Deus em qualquer circunstância. E esta devia ter sido a temática de Jesus. Ele ressaltou a redenção de Israel das mãos opressora do Egito. Ele fez o povo ver o poder divino submergindo o exército de Faraó. Ele relembrou a provisão divina com o maná e as codornizes. Ele fez o povo lembrar da nuvem e coluna de fogo guiando-os mesmo em meio ao árido deserto. Por fim ele os fez lembrar que Israel chegou a terra prometida conforme Deus prometera. Jesus deve ter finalizado seu ensino dizendo ser Deus fiel, portanto podemos confiar em Deus em toda e qualquer circunstância.

Jo 7.15

"Então, os judeus se maravilhavam e diziam: Como sabe este letras, sem ter estudado?" (Jo 7.15). Jesus se apresentou como um mestre inigualável. Sua habilidade de expor o Antigo Testamento com propriedade, sua capacidade de sintetizar verdades em parábolas, sua forma de fazer aplicações práticas com base na natureza, tudo isso impressionava seus ouvintes. Eles sabiam que Jesus nasceu em Belém e viveu até a fase adulta em Nazaré. Ele não foi aluno de nenhuma escola rabínica, no entanto ensinava com autoridade. Certa feita, com doze anos, Jesus foi no templo de Jerusalém, assentando-se com os doutores. Vamos ler como se deu este evento: "Três dias depois, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas." (Lc 2.46,47). Observe com atenção que o texto diz que Jesus fazia perguntas aos doutores, no entanto estes doutores ficaram admirados com as respostas de Jesus. Aqui está retratado um dos segredos do aprendizado de Jesus: ele tinha especial habilidade para perguntar. Pode parecer simples, mas saber perguntar exige perspicácia e atenção. Se alguém fizer uma pergunta fechada, a resposta será sim ou não, deixando de exigir qualquer reflexão. No entanto se a resposta for aberta quem responde precisa pensar no assunto com profundidade. As perguntas que Jesus fazia aos doutores extraiam deles mesmo as respostas. Uma boa técnica é perguntar o por quê determinada coisa deve ser feita e, a medida que as respostas são dadas, continuar perguntando o por quê até chegar na raiz do problema. Isto só é possível em ambiente de aprendizado mútuo. Uma boa pergunta abre o canal do diálogo, permite revisar as ideias, aprofunda as percepções, faz considerar o contexto com maior propriedade. Jesus, para nascer homem abriu mão de sua divindade, portanto o instrumento de seu aprendizado na terra foram as perguntas que fazia nos textos do Antigo Testamento. Uma observação: se você fizer uma pergunta para si mesmo e, de imediato entregar a resposta é grande a possibilidade desta resposta não ser a solução da pergunta, mas uma forma de auto engano. Portanto aprenda a perguntar rejeitando respostas prontas até estar seguro da verdadeira resposta. Você saberá quando ela chegar, pois esta resposta resolve definitivamente o problema apresentado.

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