Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 7.16,17

Jo 7.16

"Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou." (Jo 7.16). Jesus teve sua autoridade de expositor da palavra de Deus questionada. Antes os judeus já tinham questionado sua deidade (Jo 6.42). Não entrava na mente dos Judeus que Jesus era o profeta prometido por Moisés, muito menos ser Ele o Cordeiro de Deus. Os judeus tinham sua própria agenda e Jesus não se enquadrava nela. Vamos fazer uma comparação com um evento ocorrido logo no nascimento de Jesus. Próximo a Belém, no campo, alguns pastores cuidavam de ovelhas (Lc 2.8). Era madrugada, eles tinham obrigações com seu trabalho. Noite após noite esta rotina se repetia. Não foi diferente do que está acontecendo nos dias atuais em nível global. Nunca jamais alguém imaginou que seríamos obrigado a ficar em quarentena, quebrando a rotina de trabalho. No entanto aqueles pastores receberam subitamente a visita de seres celestiais comunicando o nascimento de Jesus e, sutilmente os convidando a irem até a manjedoura (Lc 2.12). Desde aquele dia em diante aqueles pastores tinham a opção de continuarem sua rotina ou abrirem espaço em sua agenda para Jesus. O mesmo se passava com os judeus. Jesus fez a distinção entre sua autoridade e a dos rabinos. Ele veio do céu como mensageiro de Deus, instruído por Deus, para ensinar a palavra de Deus e, por meio do seu sacrifício na cruz, libertar o homem do pecado e da morte. Isto é uma intervenção na agenda humana. Naturalmente ninguém pensa ir para o céu, antes toda energia humana visa a perpetuação da espécie. A quarentena trabalha nesta lógica: para trabalhar é preciso ter saúde. Para ter saúde é preciso ficar em casa. Na força deste argumento as pessoas obedecem o governo, alterando sua rotina, mesmo com graves prejuízos financeiros. Jesus também tem uma mensagem que, se crida, interfere em nossa rotina. Os pastores poderiam esperar a troca de turno para irem a Belém, no entanto foram apressadamente a manjedoura ver Jesus (Lc 2.16). E nós? O que temos feito para absorver a verdade? Considere o seguinte cenário: se o governo proibir a posse da Bíblia, se prender quem se rebelar contra sua ordem, se você for preso por causa da sua fé, o estoque de palavra de Deus na sua mente e no seu coração será suficiente para permanecer preso por dez anos?

Os pastores ouviram a convocação dos anjos e apressadamente foram até Belém. Eles viram Jesus deitado na manjedoura. Desde então eles se tornaram testemunhas da glória de Deus (Lc 2.17). Jesus é a personificação da palavra de Deus (Ap 19.13). Nunca é demais ressaltar este ponto, pois o evangelho de João tem início revelando que Jesus estava no princípio com Deus, portanto Ele é o único e abalizado Ser capaz de nos revelar a vontade de Deus. Foi nestes termos que Jesus se contrapôs aos ensinos rabínicos. Ele enfaticamente declarou que o conteúdo de suas palavras procedem de Deus, o Pai eterno. Mas os rabinos não tinham por texto base o Antigo Testamento? Os pastores não pregam em conformidade com a Bíblia? Por que é preciso fazer distinção entre a verdade dita por Jesus daquela transmitida pelos líderes religiosos? Vamos considerar o embate entre Jesus e Satanás quando Ele foi tentado no deserto. no segundo embate Satanás tentou Jesus citando o Salmo 91.1. Que loucura! A Bíblia sendo usada como instrumento de tentação! Que coisa  terrível! Você pode entrar em um templo, observar uma Bíblia aberta no púlpito, ouvir a leitura do texto da palavra de Deus e este texto estar sendo usado para tentar você. Que realidade dramática. No entanto observe a advertência do apóstolo Paulo: "Acautelai-vos dos cães!  Acautelai-vos dos maus obreiros! Acautelai-vos da falsa circuncisão! (Fl 3.2). Portanto a Bíblia pode ser usada como instrumento de tentação quando o mensageiro não está alinhado com a revelação da palavra de Deus. Nesta mesma tentação Jesus rebateu a palavra retirada da Bíblia e citada por Satanás com outra palavra também extraída das escrituras. Jesus citou Dt .16. Precisamos ter claro esta primeira distinção entre Jesus e os rabinos. O que Jesus ensina é a genuína palavra de Deus, mas o homem que tem a Bíblia como texto base pode desviar-se radicalmente de seu conteúdo.

Jo 7.17

"Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo." (Jo 7.17). Depois de expor ser seu ensino procedente de Deus, o Pai, Jesus fornece o verdadeiro critério do aprendizado. Este critério exige três atitudes: a primeira é conhecer a vontade Deus, a segunda é a disposição em fazer a vontade de Deus, a terceira é agir em obediência a vontade de Deus. E o que há em comum em todas estas três atitudes? Ter consciência da prevalência da vontade divina sobre o arbítrio humano. E o contrário, como é? Em um dia de 24 h, passamos em média 8 h dormindo, temos 16 h despertos. Contabilize quanto deste tempo você intencionalmente lembrou-se de Deus e sua bendita vontade? Paulo retrata o homem natural nestes termos: "entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais." (Ef 2.3). Note o contraste: o homem natural faz o que quer, sem se importar com a vontade de Deus. Ao longo do dia a pessoa assume diferentes papeis: empreendedor ou trabalhador; conjugue ou pai ou mãe; filho ou filha ou amigo ou amiga; e assim por diante. Paulo explica que a tendência natural do ser humano é de agir sem pensar em Deus. A pessoa traduz este comportamento dizendo para si e para os outros:  – Nasci assim, cresci assim, este sou eu e você tem de me aceitar do meu jeito. Paulo traduz este tipo de perspectiva como filhos da ira. O homem natural tende a fazer suas vontades de acordo com seus pensamentos, agindo como acha melhor. O homem espiritual é oposto deste personagem. Ele é grato a Deus por lhe conceder a vida e busca, por todos os meios, conhecer e fazer a vontade divina. O espiritual não se deixa dominar por suas emoções nem toma decisão com base em seus atributos e interestações naturais. Antes ele busca em toda ocasião discernir o propósito divino. Ele toma esta atitude conscientemente Ele está o tempo todo mantendo uma conversa interna com Deus mediado pela palavra de Deus. Sua principal indagação é: – Senhor que devo fazer? Dá-me sabedoria e discernimento. Então, depois desta oração age em conformidade com a orientação divina.

Como transitar do homem natural para o homem espiritual? Do ponto de vista humana ser espiritual exige disposição de vontade em mudar a chave interna. Por isso Jesus abriu esta opção:  – Se alguém decidir… Andar com Deus exige alto grau de consciência. E por que é preciso ter consciência? Geralmente associamos a consciência com nossa capacidade em discernir o certo do errado, o bem do mal. De fato este é um dos grandes papéis da consciência. Contudo a mais relevante função da consciência é fazer interface entre o espírito humano e sua alma. O espírito tem por função receber insights divinos porquanto Deus é Espírito. A alma, por sua vez, está conectada com este mundo físico, fazendo a conexão deste mundo com o espiritual. Um ser humano em sintonia com as prerrogativas de sua criação devia operar da seguinte forma: o espírito humano em permanente comunhão com o Espírito de Deus traduz este relacionamento em forma de insight. O discernimento captado nesta esfera é retransmitido para a alma mediante o crivo da consciência. A alma, submissa a esta realidade superior move o corpo em direção a vontade divina captada pelo espírito humano. Como resultado o indivíduo experimenta a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Neste processo a consciência tem o vital papel de fazer a conexão do espírito com a alma. Quando não temos clareza da atuação da consciência somos enganados por ela. Isto porque ela continua atuando neste portal divino, só que ao invés de trazer luz de Deus para os dilemas humanos, ela deixa o indivíduo no escuro para tomar decisões erradas. Depois do indivíduo se enveredar em suas vontades e pensamentos a consciência passsa a condenar a atitude gerando sentimento de culpa insuportável. Este é o resultado na existência daquele que não reconhece o papel da consciência nem se dispõe fazer a vontade de Deus com conhecimento de causa.

Vimos que fazer a vontade de Deus exige ativar a consciência para, por meio dela, discernir a presença de Deus e agir em conformidade com sua luz. Geralmente associamos a vontade de Deus com o fazer. Vamos dar um exemplo: amar os inimigos e os abençoar é uma orientação divina. Em dado momento seu inimigo se apresenta diante de você e o agride fazendo bulling com você. Neste instante você pode reagir ou agir. Se reagir vai responder na mesma moeda ou levar seu inimigo na justiça por danos morais. Se agir vai orar por seu inimigo, oferecendo a outra face e o abençoando. Reagindo você agiu em conformidade com sua carne, sua vontade e seus pensamentos. Agindo você colocou em execução a vontade de Deus. Do ponto de vista de quem testemunha sua atitude, somente no segundo caso esta pessoa atestou que você executou a vontade de Deus. Agora voltemos a palavra de Deus para avaliar esta mesma cena. Paulo ensinou que se fizermos a vontade de Deus, isto é, amar o inimigo e o abençoar, vamos experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2). Portanto agir amando e abençoando o inimigo é só um gomo da vontade de Deus, mas não expressa ela na sua totalidade. Esta atitude externa é apenas uma chave para experimentar a vontade de Deus. Neste sentido esta vontade é como uma moeda de duas faces. A face externa, a que expressou um testemunho público, foi a primeira metade da vontade de Deus. E qual é a segunda parte? É como você agiu, nesta mesma cena, na presença de Deus. Enquanto seu inimigo batia em sua face, fazia bulling, humilhando-o, neste mesmo instante você conversou com Deus? Você expôs a situação diante de Deus enquanto sofria o maltrato? Afinal, em toda e qualquer situação qual é a vontade de Deus? Eis o cerne desta vontade: "Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração" (Jr 29.13).

Geralmente entendemos fazer a vontade de Deus como sendo executar algo baseado em uma orientação bíblica. No entanto externar uma atitude é metade da história. Se fazer algo fosse o cerne do comentário de Jesus muitos estariam experimentando a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. No entanto quanto mais a pessoa tenta ser bom cristão, mais ela se frustra e, subitamente, desaba crendo ser hipócrita. Ser cristão é muito mais que externar boas obras, antes é ser um canal da graça divina. Esta é a perspectiva de Jesus, compreender como executar esta vontade. Vamos desenhar este processo. Todo nascido de novo recebeu no ato um novo coração e um novo espírito (Ez 36.26). O espírito humano foi unido de forma indissolúvel com o Espírito de Deus (I Co 6.17). Desde então ele se tornou uma conexão direta com os céus. Assim a energia vital vem do Senhor. É por isso que João declarou ser Jesus a luz dos homens (Jo 1.4). Entenda esta verdade: a vida está em você e sua manifestação se transforma em testemunho para o eventual observador a sua volta. Portanto o cristão é o meio pelo qual a luz se manifesta a partir da energia vital que procede de Cristo Jesus. Quando somos orientados a fazer a vontade de Deus, por ela ser uma instrução elevadíssima, se a pessoa for sincera consigo mesmo e capaz de discernir a integridade e pureza da palavra de Deus, este crente vai sentir incapaz de expressar por seus atos o propósito divino. Como este cristão em consciência da presença do Espírito de Deus dentro de si, a Ele se socorre clamando por sabedoria, conhecimento, habilidade e orientação. Isto ele faz em tempo de execução, enquanto está agindo em direção a instrução bíblica. No exemplo citado ele age amando o seu inimigo e, ao mesmo tempo, intercedendo para que o Senhor flua através dele a graça divina. O crente age em sinceridade amando porque está ligado com Deus.

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