Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 7.45,46

Jo 7.45

"Voltaram, pois, os guardas à presença dos principais sacerdotes e fariseus, e estes lhes perguntaram: Por que não o trouxestes?" (Jo 7.45). Mesmo tendo ordem para prender Jesus, os guardas tiveram de voltar sem cumprir seu intento. Então eles foram questionados pelos sacerdotes e fariseus porque não cumpriram a ordem dada. Como podemos analisar esta cena? Vamos trazer a tona um verso do salmista: "É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel." (Sl 121.4). Deus é o verdadeiro guarda de Israel. Esta proteção divina é factual e se estende a todo o povo. Na época de Davi tínhamos duas figuras principais: o rei e o sumo sacerdote. Quem se ocupava da segurança do Estado de Israel era o rei, portanto ele tinha consigo um poderoso exército. Este direito de fazer a guarda do povo decorre da ordem divina dada logo depois do dilúvio, quando foi instituído pelo Senhor a responsabilidade do homem responder por seus atos a outro homem (Gn 9.6). Portanto nada mais natural que o rei ter a sua disposição o poder de polícia. Agora qual o sentido dos sacerdotes e fariseus terem sua própria guarda pessoal? Por certo esta é uma demonstração que a religião da época perdera sua característica espiritual para centrar suas atenções nos interesses mundanos. Estes religiosos se comportavam como partido politico, buscando exercer influência junto ao governo romano. Modernamente os grandes líderes das igrejas instituídas também atuam na mesma lógica, pois entendem que para manter seu poder religioso precisam da proteção do Estado em forma de influência política mediante a instituição de partidos políticos, de nomeação de candidatos vinculados a suas igrejas e coisas deste tipo. Não seria de estranhar que estes religiosos também tenham sua guarda pessoal para proteger seus interesses. Para estes a guarda divina não é mais suficiente, ela precisa do reforço humano. Foi nesta lógica que os sacerdotes e fariseus podiam contar com uma guarda pessoal.

Jo 7.46

"Responderam eles: Jamais alguém falou como este homem." (Jo 7.46). Guarda é gente também, assim como todo funcionário de empresa e servidor público. Permita-me explicar esta afirmação. Todos nós estamos debaixo de algum tipo de autoridade. Quando esta autoridade tem sobre nós o poder de nos pagar salário, ela exige em contrapartida entrega de resultados. Contudo grande parte das autoridades não conseguem discernir com clareza onde começa a relação de trabalho, onde termina. É por faltar este tipo de discernimento, por exemplo, que a lei impõe horário de trabalho, para que o individuo, fora daquele tempo, possa dispor da folga como bem lhe convier. Todavia, ainda assim, alguns empregadores exigem hora extra; e, indiretamente, que o indivíduo leve trabalho para casa por exigir resultado logo na primeira hora da manhã. Algumas destas autoridades regulam o tempo de ida ao banheiro; de lanche no expediente; de vestimenta no ambiente. Outros impõe a necessidade de manter certo estado de espírito; tonalidade de voz; esforço laboral. Alguns ainda obrigam a abrir ou fechar a boca no momento que ele acha que o servidor deve falar. Se fizermos comparativo, em alguns casos, há pouca diferença com os senhores de senzala. Tudo isso para dizer que estes soldados, ao não trazerem Jesus preso, mas defender a autoridade de Jesus, correram o risco de serem decapitados ou crucificados. E por que este poderia ser o fim deles? Por que tiveram o desplante de pensar por conta própria. Agora, faça uma reflexão: você pensa por conta própria ou submete sua atividade mental ao que o seu meio declara ser certo ou ao que pensa que dizem a seu respeito? Quantos não ousam tomar atitude, do tipo, vou ser mais manso, porque pensam consigo: – Se eu agir deste modo o que vão dizer de mim depois? Estar debaixo de autoridade e, ainda assim, ter sua própria autonomia é uma arte, pois muitos que tentaram foram demitidos. Outros tiveram de se enquadrar nas exigências de seus superiores.

Estes guardas estavam sob autoridade. Receberam ordem para prender Jesus. Em não cumprindo a missão deles, eles poderiam ser crucificados por desobediência. Contudo, ainda assim tiveram a ousadia de declarar sua admiração por Jesus. Os guardas ficaram impressionados com a autoridade de Jesus. Mesmo tendo oportunidade de acompanhar o dia a dia dos sacerdotes e fariseus, nunca tinham visto um homem como Jesus. A afirmação deles diante dos religiosos atestava a falência do culto sacerdotal daquela época. A fala de Jesus não só fez este prodígio, como também inspirou subordinados a reconhecerem a grandeza. Isto porque estes guardas não só serviam sacerdotes e fariseus, mas também estavam diante das maiores autoridades religiosas de sua época. Seria hoje como alguém andar ao lado do Papa, ou dos pregadores celebridades e, depois de ouvir estes homens, se deparar com alguém com maior autoridade e propriedade. Por certo esta é uma situação profundamente desnorteadora. Coloque-se no lugar deles: – Você seria capaz de contrariar a opinião de todos que você reputa ter autoridade por encontrar alguém com autoridade superior? Você seria capaz de sustentar sua opinião contra todas as vozes do meio que você está inserida? O que faz alguém ter esta atitude? Primeiro é preciso distinguir os indivíduos. Enquanto você se alimentar de uma única fonte, sem nenhuma análise crítica, não poderá descobrir novas fontes de saber. Certas coisas não são iguais melhoradas, mas são contrastantes. E, nestas condições, as duas não podem estar certas ao mesmo tempo. Para ter algo novo é preciso descartar o velho. Segundo, é preciso ter convicção do que ouviu. Jesus falou com autoridade porque seus argumentos tinham consistência e conteúdo. Ele falou de coisas que viu e ouviu da parte de Deus. E, como testemunha fiel, retransmitiu a todos seus ouvintes.

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