Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 7.50-53

Jo 7.50

"Nicodemos, um deles, que antes fora ter com Jesus, perguntou-lhes:" (Jo 7.50). Nicodemos estava entre os fariseus. Ele participava do Sinédrio. É importante destacar a presença de Nicodemos naquele meio. Muitos acham que receber Jesus como Salvador e Senhor traz como exigência imediata deixar o local de trabalho, mudar a trajetória de vida. Alguns criticam Nicodemos por encontrar-se com Jesus de noite e ocultar sua fé no seu meio. Quem crê deste modo não conhece a estrutura interior do ser humano. Nicodemos encontrou-se com Jesus de noite e descobriu que para entrar no reino de Deus precisava nascer de novo. Por certo, diante de tão extraordinária proposta, ele deve ter reconhecido Jesus como sendo o Cordeiro de Deus e, por sua fé, entrado no reino de Deus. Qual foi a primeira coisa que mudou na vida de Nicodemos depois desta decisão? Que todo o universo e, transcendendo a ele, faz parte do reino de Deus. Não há esfera da vida que não esteja debaixo deste senhorio, inclusive o sinédrio. Portanto Nicodemos não precisava deixar o sinédrio por entrar no reino de Deus, antes tão somente tinha o compromisso de se perguntar o propósito divino para sua vida. Outra lição importante para Nicodemos é que ele, pessoalmente, entrou no reino de Deus, não os seus pares. Não é possível esperar comportamento próprio do cidadão do reino a quem nem conhece este reino. Muitos querem subverter esta hora: ele tem convicção que faz parte do reino de Deus, muda seu comportamento, ajustando as diretrizes deste reino e, por não entender os limites entre este reino e este mundo, exige que todos vivam de acordo com ele, sem ter passado pela mesma experiência pessoal que ele passou. O resultado disso é confusão, discórdia e conflito. Nicodemos não tinha de convencer seus pares entrar no reino de Deus, antes tinha apenas de ser testemunha viva de sua cidadania.

Jo 7.51

"Acaso, a nossa lei julga um homem, sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?" (Jo 7.51). Nicodemos lançou a isca, se os líderes religiosos refletissem Jesus não seria condenado. Eis a diferenças entre o discípulo e o fanático. O discípulo compartilha sua fé com paciência e sabedoria; o fanático que logo impor sua fé sem dar margem para o outro pensar. O discípulo têm argumentos para construir um diálogo; o fanático acha que ter fé é papaguear crenças dogmática. O discípulo testemunha ouvindo; o fanático despeja enxurrada de conteúdo sem dar tempo para o outro pensar. O discípulo está seguro de sua posição, pode escolher falar ou se calar; o fanático se vê obrigado a falar, mesmo que o outro não queira, nem tenha interesse em ouvir. O discipulado estuda o ambiente para encontrar o momento certo de compartilhar sua fé; o fanático se deixou cegar por sua insensatez, atropelando os outros com sua intolerância. O discípulo quer ganhar o coração do outro; o fanático quer vencer os argumentos. O discípulo têm consciência da presença do Espírito Santo; o fanático quer fazer o papel do Espírito Santo. São por estas razões que o fanático é mal visto e dificilmente convence. O discípulo, por outro lado, conversa naturalmente, não é indelicado e nem se acha senhor da verdade. Por esta razão Nicodemos fez uma pergunta inteligente. Considere o cenário. Nicodemos estava entre as altas autoridades religiosas de Israel, com poder de levar alguém no tribunal, julgar e condenar ou absorver. O mínimo que se espera de um tribunal é o direito de defesa. Se este direito for negado, aquele lugar não mais é um tribunal, senão um tribunal de inquisição, com o único objetivo de punir pessoas de quem discordam. Foi por ter a noção da distinção entre um tribunal de justiça e outro de inquisição que Nicodemos perguntou se não seria dado a Jesus o direito de defesa. Com uma única pergunta Nicodemos deu cheque mate naquele tribunal, pois resposta mostraria a verdadeira intenção deles.

Jo 7.52

"Responderam eles: Dar-se-á o caso de que também tu és da Galileia? Examina e verás que da Galileia não se levanta profeta." (Jo 7.52). Não há nada mais terrível que o preconceito, ele mata o potencial do indivíduo pela negação de sua pessoa, sua ascendência, seu sexo, sua nacionalidade. O preconceito é a negação da existência de uma pessoa. Quem traz consigo preconceito crê ser inconcebível o outro agregar valor. O preconceituoso é praticamente da adivinhação, a pior e mais maligna forma de conceber o futuro. Todos sabemos que a nuvem tem sua forma determinada, entre outros fatores, pelo vento. O adivinhador tira foto das nuvens e, por sua forma naquele instante, determina se vai chover ou não. Ele ignora todos os outros fatores e se restringe a um único requisito, aquele que determina sua avaliação. Se Jesus veio da Galiléia, se deste lugar nunca houve profeta, porque Jesus seria? Para ter certeza que nunca houve profeta na Galiléia teria de ser investigado todos os nascidos todas as épocas naquela região e analisado sua trajetória de vida, missão impossível ao ser humano. Depois, se não fosse encontrado nenhum profeta, ainda assim Jesus poderia ser profeta, pois este fim não depende do homem, senão do decreto divino. Deus usa quem quiser, no tempo que achar necessário, para o propósito que tiver em mente e nenhum ser humano pode impedir o agir divino. Considere o seguinte: em Israel o homem mais rico e poderoso era o rei. Nenhum outro ser humano chegava no nível dele em termos de requinte e glamour. Qualquer profeta que fosse enviado para falar combo rei teria necessariamente uma renda inferior. Se ele exigisse um profeta de igual para igual só poderia aceitar exortação de outro rei. Por este critério quem estaria a altura de exortar o sinédrio de Israel? Somente alguém de dentro, o resto seria ralé. Era assim que muitos do Sinédrio viam Jesus.

Jo 7.53

"[E cada um foi para sua casa.” (Jo 7.53). O sinédrio foi inconclusivo em sua reunião. Eles não sabiam o que fazer com Jesus. Foram redarguidos pelos guardas e nada responderam. Foram questionados por Nicodemos e nada responderam. Apenas deixaram o problema rolando, se refugiando em suas casas. A atitude destes religiosos é profundamente instrutiva. Para explicar este evento, vamos trazer a mente outra instrução dada pelo apóstolo Paulo: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, 27 nem deis lugar ao diabo.” (Ef 4.26). Por esta instrução Paulo ensina que toda questão aberta durante o dia precisa ser tratada neste mesmo dia, caso contrário esta questão se torna uma brecha para o diabo atuar. Como entender este tipo de brecha? Volte-se para a reunião do sinédrio. É muito comum acontecer conosco o que se passou naquele lugar: alguém apresenta uma questão, ela é deliberada, há uma discussão a respeito, nenhuma decisão é tomada e o assunto é logo esquecido. Eu lhe pergunto: será que realmente este assunto caiu no esquecimento? Dependendo do calor da discussão pode acontecer que um ou outro participante lembre diariamente do que se passou porque se sentiu ofendido. Outro, no entanto, que não tinha muito interesse no assunto talvez nem se lembre mais do que se passou naquele evento. E a vida segue seu curso. Vou perguntar diferente: – Dez anos depois daquele evento, será que todos os presentes ainda se lembram da reunião? Note que pergunto todos, sem exceção. Talvez sua resposta seja: – Não, não se lembra, talvez um ou outro sim, mas todos de modo algum. Se surpreenda: – Todos, sem exceção se lembram do ocorrido e permanecem com a brecha aberta para o diabo nadar de braçada. Agora você me pergunta, incrédulo: – Como isso é possível? Eu lhe respondo: – O subconsciente de todos os presentes na reunião jamais esquece de uma situação inconclusiva. Percebe o tamanho do problema de deixar algo inconclusivo?]

Leave a Comment