Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.15,16

Jo 8.15.

"Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo." (Jo 8.15). Depois de Jesus explicar sua consciência de onde veio e para onde vai, fez questão de salientar o modo como enxergava a pessoa humana. Quando Ele entrava em contato com alguém não emitia nenhum juízo de valor. O que isso significa? Existe uma tendência inata na pessoa de fazer previsibilidade acerca de tudo que a cerca. Este é o seu jeito de sentir-se seguro, se todas as coisas funcionarem dentro de certo script. Digamos que um indivíduo vá conversar com outro. Ele pergunta: – Será que vai chover hoje? E olha para as nuvens. Faz sua própria avaliação e conclui que não vai chover, sendo esta a resposta que ele espera receber. Então o outro responde: – Não vai chover. Quando quem perguntou ouve o oposto que ele esperava, sua mente entra em pane. Ele está diante de uma pessoa que não se submete ao seu controle. Passo imediato será tentar convencer o outro por a mais b que ele está certo. Daquele ponto em diante ele se tornou incapaz de ouvir argumentos que contrariem sua tese. Esta tendência humana produz moldes em praticamente todos os assuntos. Estes moldes são formados por paradigmas, crenças profundas do coração. O que se conclui que um indivíduo não conversa com outra pessoa, mas consigo mesmo a maior parte do tempo. Ele espera que os outros sejam validadores daquilo que ele acredita. Quanto mais consciência ele tem de suas crenças, mais complicado se torna a conversa. Jesus mostrou não fazer deste modo. Quando a pessoa chegava até Ele para conversar, toda sua atenção era voltada para compreender a fala desta pessoa. Jesus não emitia nenhum juízo de valor a priori. Em outras palavras, Jesus aceitava a pessoa como ela era sem tentar mudar o jeito de ser deste indivíduo. Por isso as pessoas sentiam-se a vontade para abrir o coração com Jesus, eram ouvidas.

Outro aspecto a considerar diz respeito ao nivelamento do juízo humano. Ao tomar a si mesmo como parâmetro, a pessoa tende a ver as outras melhores ou piores que ela. Nesta perspectiva alguns ícones são endeusados por causa de suas virtudes elevados, no extremo oposto, outros são desprezados, por tê-los como indignos. Uma pergunta cabe neste momento: – O que todas estas pessoas têm em comum? Elas igualmente vão morrer tanto o mais virtuoso, quanto o mediano, como também o desprezível. E por que todos são passíveis deste terrível destino? Porque o parâmetro por meio do qual os homens devem ser avaliados é o padrão divino. E, diante deste padrão nenhuma alma se qualifica. E qual a implicação desta verdade no dia a dia? Todo e qualquer ser humano tem direito a ser quem ele é, a fazer o que ele deseja. Esta é a essência do livre arbítrio. Por outro lado todo indivíduo responde pessoalmente diante de Deus por suas escolhas, decisões e atitudes. Isto significa que as interações humanas são imprevisíveis. Se eu me dirijo ao outro expondo meus paradigmas e ele faz o mesmo, a tendência sempre será a divergência. Se ambos tiverem o coração aberto para ouvir e o propósito comum de buscar a verdade de Deus, então a conversa entre eles se torna oportunidade para o mútuo crescimento. Se acrescentarmos a esta percepção o fato de todos sermos pecadores, então não deveria ser objeto de surpresa quando este outro faz algo próprio do homem caído. Digamos que ele fale uma mentira, foi opção dele, pois sua natureza é corrompida. Este que mentiu vai ter de responder diante de Deus por seus atos. Quem ouviu a mentira tem de aprender a lidar com ela, primeiro reconhecendo-a, depois expondo a mentira à verdade. Se o outro se render a verdade terá mudado de opinião, se não, é preciso ter paciência. O que não pode é dar lugar a intolerância, pois se quem tem a verdade agir deste modo, o convívio se torna belicoso.

Jo 8.16

"Se eu julgo, o meu juízo é verdadeiro, porque não sou eu só, porém eu e aquele que me enviou." (Jo 8.16). Jesus enfatizou que Ele não veio para julgar, antes resgatar o homem caído. Se fosse julgar o panorama mudaria radicalmente porque Ele julgaria junto com Deus, o Pai eterno. Como podemos traduzir estas palavras de Jesus para nosso entendimento? O homem natural tem tendência inata para emissão de juízo de valor, geralmente preconceituoso. Isto significa que o indivíduo intui o peso do julgamento. Por exemplo, o pai nutre uma expectativa pelo futuro de seu filho. Esta expectativa, se não for bem administrada pelo filho, traz sobre ele um peso terrível, porque ele fará de tudo para não envergonhar seu pai. O problema está em que nada é suficiente para atender esta expectativa. No seu íntimo este filho vai ponderar consigo dizendo: – Meu pai não me apoia! – Ele não me entende! – Ele não me ama! – Ele não me dá valor! O que são estes pensamentos senão emissão de juízo por perceber ter frustrado expectativas? Qual é a bílis? O pai criou um padrão que o filho não alcançou. O que dizer quando estamos diante do padrão divino: os dez mandamentos? Qualquer indivíduo que aferir sua vida por este padrão logo perceberá que quebrou todos os mandamentos. Tiago foi mais enérgico nesta avaliação: ele disse que basta quebrar um mandamento para ter quebrado todos, pois o mesmo Deus escreveu cada um deles com o seu dedo. Se a lei veio para revelar o nosso pecado, como fazer para fugirmos da condenação que ela traz consigo? Nós escapamos desta condenação quando entendemos a morte de Jesus Cristo e sua ressurreição. É por isso que Paulo revela que a lei serve como um mestre para nos conduzir a Cristo. Basicamente a lei de Deus diz isto: – Você falhou em cumprir a vontade de Deus, agora é digno de morte. Então veio Jesus e disse: – Eu sou o Cordeiro de Deus; se você crer em mim, que eu morri em seu lugar para dar-lhe salvação será salvo desta ira divina.

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