Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.21-24

Jo 8.21

"De outra feita, lhes falou, dizendo: Vou retirar-me, e vós me procurareis, mas perecereis no vosso pecado; para onde eu vou vós não podeis ir." (Jo 8.21). Até aqui Jesus argumentava sobre sua vinda dos céus. Aliás, o evangelho de João começa reportando este fato de que, Jesus Cristo, antes de se fazer carne e habitar entre nós estava com Deus, o Pai eterno, sendo Ele, Jesus Cristo, o Verbo, o próprio Deus. Por ter vindo dos céus, da parte de Deus, Jesus Cristo se tornou como o grande luzeiro, o sol da justiça, a luz que guia todos os homens. Por ter escolhido esvaziar de sua divindade para se tornar servo em semelhança de homem, Jesus Cristo assumiu para si passar pela restrição humana, qual seja, nascer, crescer e morrer. É por esta razão que Jesus desloca o seu discurso para o fim de sua trajetória terrena. Este é o sentido de manifestar sua intenção de se retirar, isto é, de voltar a ter a mesma glória que tivera antes de tabernacular como homem na terra. Em outro lugar Jesus foi mais específico a este respeito: "Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai." (Jo 10.17,18). Por que é tão importante sabermos deste posicionamento de Jesus Cristo? Porque Ele dá exemplo de como devemos viver neste mundo. Temos de ter consciência de nossa origem: somos filhos de Deus e do nosso destino: vamos viver eternamente com Deus. O problema está em que, ao declarar que vai voltar para a glória Jesus demonstrou que viver sem Deus é estar condenado a morte eterna. Por isso acrescentou que os judeus não só não podiam ir para o lugar da habitação de Deus, como também salientou que eles estavam condenados por causa de seus pecados a morte.

Jo 8.22

"Então, diziam os judeus: Terá ele, acaso, a intenção de suicidar-se? Porque diz: Para onde eu vou vós não podeis ir." (Jo 8.22). Esta é uma passagem notável porque há de se perguntar: como os judeus chegaram a conclusão que este lugar para onde Jesus iria teria de passar pela experiência de morte? A questão que eles tinham em mente era: para onde vão os mortos? Jesus contou certa feita uma parábola para esclarecer esta questão. Ele disse que havia um homem rico e, na sua porta, outro pobre, mendigando. Morto ambos, primeiro o mendigo, depois o rico, eles se viram em lugares distintos. O rico foi para o inferno e o mendigo para o seio de Abraão (Lc 16.22,23). Na mentalidade dos religiosos se um homem se suicidasse iria direto para o inferno. Então eles criam que eles iriam para o seio de Abraão e, se Jesus iria para lugar diferente, só poderia ser para o inferno, por isso a menção da possibilidade de Jesus suicidar-se. Os religiosos não concebiam outro lugar. Mal sabiam eles que Jesus iria descer ao mundo dos mortos, contudo não permaneceria neste lugar. É difícil determinar como se deu este evento. Pedro fez menção que Jesus foi e pregou aos espíritos em prisão (I Pd 3.19). O Apóstolo Paulo declarou que antes de retornar para a direita de Deus, Jesus desceu até as regiões inferiores da terra (Ef 4.9). João relatou em sua visão que Jesus tem as chaves da morte e do inferno. Neste particular, retornando ao comentário de Paulo, Jesus desceu ao mundo dos mortos para libertar o cativo do cativeiro (Ef 4.8). Isto significa que Jesus retirou todos os que estavam no seio de Abraão e os transportou com ele para o terceiro céu, onde estão agora todos os que morrem em Cristo Jesus. Não houve conversão no mundo dos mortos, pois toda a decisão que repercute por toda a eternidade é tomada em vida. Jesus desceu ao mundo dos mortos, declarou sua vitória a todos que morreram na esperança de herdar a promessa (Hb 6.12), para subir com estes para a presença de Deus, nos céus.

Jo 8.23

"E prosseguiu: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou." (Jo 8.23). Como os judeus não compreenderam as palavras de Jesus, Ele passa a desenhar o contexto. Há uma diferença entre o mundo natural e o celestial e, para percebermos esta distinção precisamos mudar nossa perspectiva. A tendência das pessoas é se ocupar com as coisas terrenas. A criança só quer saber de brincar; o adolescente busca distanciar-se de seus pais para achar seu próprio caminho; o jovem está atrás de sua cara metade e aproveitar a vida; o adulto luta por sua sobrevivência, procurando como mudar sua sorte; o idoso passa o dia trazendo a memória as coisas antigas. O que todas as faixas etárias têm em comum é que elas orbitam em torno desta existência. Jesus, ao contrario, veio de cima, do Pai eterno. Ele acompanha o universo desde sua criação, há 13,5 bilhões de anos atrás. Jesus articulou com Abraão uma aliança para abençoar todas as gerações. Por meio dos profetas sinalizou sua vinda e, ao chegar, cumpriu todas as profecias que lhe eram devidas. Por isso Jesus é a luz dos homens, porque Ele veio para anunciar o reino de Deus. Desde que ouvimos Jesus falar temos de considerar a distinção entre o reino de Deus e o deste mundo. O reino deste mundo jaz no maligno (I Jo 5.19). Isto significa que ele está impregnado da morte. É por isso que neste mundo campeia o motim, a rebelião, a desordem, a guerra, as revoluções. Jesus, ao contrário, não pertence a este mundo, antes é homem celestial. O reino de Deus não tem morte, nem tristeza, nem limitações. Antes é pleno de abundância, alegria, paz e justiça. Paulo, contrastando estes dois reinos declarou que o reino de Deus não consiste de comida, nem de bebida, mas de justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Portanto o reino de Deus não é secular, nem materialista, antes é celestial, espiritual e eterno. E por ter estas características o reino de Deus domina sobre tudo o mais.

Jo 8.24

"Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados." (Jo 8.24). Em síntese Jesus diz respeito ao fato do homem natural não compreender as coisas de Deus. Vamos por um instante comparar o nascido de mulher a um animal qualquer. O Brasil é um grande criador de gado. As fazendas são especializadas, umas criam o gado, outras engordam para o abate. A vida de um boi se resume nisso: ele nasce sob os cuidados de um, engorda nas mãos de outro, segue para o matadouro e morre. Este é o ciclo do animal. Ele não tem perspectiva nenhuma a não ser este, pois sua descendência percorre este ciclo recorrente. O homem natural também percorre o mesmo ciclo: ele nasce e é criado por seus pais, depois assume o controle de sua vida até chegar na terceira idade, então morre, caindo no esquecimento. A maioria percorre este ciclo acomodado na sua condição social, outros buscam significância e, mesmo, deixar um legado. No entanto estes últimos podem, no máximo, ter a esperança que alguém se lembre de seus feitos, caso contrário também cairá no esquecimento. Lembramos, por exemplo, de Alexandre, o grande, mas não sabemos quem foram seus pais. Assim vive o homem natural, sem perspectiva de eternidade. Ou ele está lutando para dar significado para sua vida ou morre e cai no esquecimento. Por isso Jesus disse destes: – Morrereis nos vossos pecados. O homem natural se vai sem perspectiva porque tudo quanto faz gira em torno de si mesmo. Por mais significado que dê a sua vida, persiste em ser um miserável destinado ao esquecimento. Para que este quadro mude é preciso que Jesus seja reconhecido como o EU SOU, o Deus eterno. Jesus é o único que pode dar sentido a vida de alguém, o único que pode abrir as portas para a vida eterna, o único que pode trazer significância para a existência humana, o único que pode livrar da morte e do pecado, libertando das trevas e transportando o ser humano para o reino dos céus. Você crê?

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