Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.3-5

Jo 8.3

"Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos," (Jo 8.3). Se esta cena acontecesse nos dias atuais se poderia dizer que esta mulher estava praticando sexo virtual, no entanto isto não era possível naquela época. Isto significa que se esta mulher foi surpreendida em adultério, ela não estava sozinha quando a encontraram. Por que então não trouxeram o homem e a mulher conforme manda a lei de Moisés? Eis o que diz a lei: "Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera." (Lv 20.10). O que se observa nesta cena é o dito popular: "a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco". E assim procede o religioso: ele é tendencioso em suas avaliações, não busca a justiça, mas a manutenção das aparências. O profeta retratou este tipo de líder religioso: "A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza." (Ez 34.4). Nesta exortação encontramos os cinco tipo de pessoas que precisam de cuidados especiais: quem está fraco, doente, quebrado, desgarrado ou perdido. Estas pessoas precisam de um tipo de ajuda que toca o mais profundo da alma, onde ela sangra, ferida, confusa e com medo. O religioso, quando encontra alguém nestas condições, ao invés de derramar o balsamo curativo, quer salvar as aparências das coisas. E, por não compreender a pessoa, a expõe aos olhos dos outros, sem a menor consideração pelos sentimentos dela. Por agir deste modo, ao invés de trazer cura, aprofunda ainda mais a dor, o trauma e o sofrimento.

Jo 8.4

"disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério." (Jo 8.4). Jesus ensinava no templo quando vieram a ele os escribas e os fariseus. Compare estes dois grupos como peixe dentro do aquário. Estavam em seu habitat natural, pois os escribas ensinavam a lei de Moisés e os fariseus eram seus devotos. Os fariseus se achavam espirituais. Eles eram alimentados pelo zelo dos escribas, contudo iam em busca das minúcias da lei. Eles tinham quantificado os mandamentos da lei, estendendo seu alcance para além de sua finalidade, impondo pesado carga a seus seguidores. Se você tivesse diante de um fariseu, ele iria medir você no detalhe. Provável você teria de ser consumidor das mercadorias ofertadas por este fariseu: só poderia vestir a moda deles; só poderia comer o alimento deles; só poderia ir nos lugares permitidos por eles; só poderia usar os palavreados autorizados por eles; só poderia pensar em conformidade com a filosofia deles; só poderia se relacionar com pessoas aprovadas por eles; só poderia exercer profissões ou trabalhar se desse parte de sua renda a eles. Em suma o fariseu é aquele tipo de pessoa que controla sua vida no detalhe, tirando totalmente sua liberdade, em troca, manipulando você por meio de uma filosofia opressora. Escribas e fariseus são aqueles tipos de pessoas que se colocam na porta dos céus para obstruir o caminho dos que querem entrar. Isto porque eles se colocam como modelos indesejáveis por servirem ao deus deles, um deus legalista, sem misericórdia, que mede as pessoas por suas atitudes. Para escribas e fariseus você só é bom se atender as expectativas deles, se os frustrar você é o pior tipo de gente que existe. Os escribas e fariseus nunca vão na presença de Deus sozinhos, eles precisam levar alguém para o acusar, pois o deus deles é um ser duro e impiedoso. Os escribas e fariseus são seus conhecidos, eles moram na sua consciência crítica e impiedosa, por isso você nunca consegue se ver livre deste tipo de gente.

Os escribas e fariseus acusaram a mulher diante de Jesus. Talvez você tenha se surpreendido em saber que o equivalente destes dois grupos de pessoas é a sua consciência. Pare e pense um pouco: quantas vezes você fez algo errado e, de imediato, não ouviu palavras acusatórias dentro de sua mente? Algo do tipo: – Por que eu fui fazer isso? – Sou incorrigível? – Quando penso que estou indo bem, faço uma desta? – Sou um inútil! – Nunca faço nada certo? Este tipo de questionamento interior é promovido por sua consciência. Paulo faz menção deste papel da consciência ao instruir os romanos: "Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se" (Rm 2.15). Vamos entender o papel da consciência. Todo nascido de mulher tem em sua consciência a lei divina gravada. A consciência é como o sistema operacional do computador, tem por objetivo processar tudo quanto pensamos, sentimos, ouvimos, tocamos ou fazemos. A consciência atua como nosso filtro interior. Quando a consciência faz este papel acusatório, sem exercitar a graça, ela costuma ser impiedosa. Ela faz o mesmo que estes escribas e fariseus: nos acusa diante de Deus. Pense você, fechando seus olhos para orar e, neste exato instante surgindo em sua mente um milhão de acusações. Imediatamente você abre os olhos, se retirando da presença de Deus por se considerar a mais indigna das pessoas. Você se sente tão exposto como foi aquela mulher acusada de adultério. Esta mulher, caída aos pés de Jesus devia estar sentindo o mais desprezível ser da face da terra. Ela devia estar pedindo para abrir um buraco debaixo dela e desaparecer. Ao mesmo tempo ela devia estar sentindo terrivelmente injustiçada, pois não estava sozinha quando adulterou.

Jo 8.5

"E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?" (Jo 8.5). Os fariseus apresentaram a mulher diante de Jesus, relataram o caso e citaram a lei. Vamos tentar entender esta situação, pois a primeira impressão que temos é que há uma injustiça na cena. Uma pergunta não quer calar: – Como pode uma mulher ser pega em adultério e o homem não, visto ter sido um flagrante? Para dar base no pleito os religiosos citaram a lei de Moisés. Talvez você, mesmo sem consultar o livro do Levítico responderia de bate pronto: – Injustiça, pois a lei diz que não é só a mulher que deve ser apedrejada, mas o homem também. Quem exclama assim parte do pressuposto que a lei não cita somente a mulher, mas o casal. Façamos a verificação: "Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera." (Lv 20.10). De fato está havendo uma grande injustiça nesta cena, a leitura da lei deixa isso claro. Vamos recapitular: – Houve um evento, ele foi considerado com base na lei de Moisés, a conclusão foi distorcida com intenção de induzir Jesus a erro. Este é um caso que o erro é evidente, mas eu pergunto a você: – Quantas mensagens você ouve, tendo por base a palavra de Deus e, depois de ter ouvido, você lê na Bíblia o texto para validar a pregação? Nós precisamos manter consistência em nossas reflexões, caso contrário também podemos ser induzidos a erro. E por que estamos fazendo esta consideração? Por estamos em peregrinação nesta terra e precisamos ter bem assinalado a direção para onde caminhamos, caso contrário seremos levados por toda sorte de vento e doutrina.

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