Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.31,32

Jo 8.31

"Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos;" (Jo 8.31). Os que creram em Jesus se destacaram da multidão, estes receberam instruções específicas sobre como deviam desenvolver a crença deles. Ser discípulo de Jesus responde ao mais profundo anseio de nossa alma, pois reporta a motivação divina que ensejou nossa criação. Nós fomos feitos para sermos conforme a imagem e semelhança de Deus, portanto nossa alma só encontra descanso quando este alvo é alcançado. Jesus veio para servir de modelo, para nos ensinar como fazer para andarmos com Deus. Ser discípulo, portanto, é fazer-se igual ao mestre. E como podemos nos tornar discípulo de Jesus? Jesus ensina dizendo que devemos permanecer em suas palavras. Vamos considerar a primeira de todas as suas palavras, aquela dada no início de seu ministério terreno: "Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus." (Mt 4.17). Consideremos o reino dos céus. Acerca deste reino Jesus disse em outro lugar: "A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (Jo 3.3). Resumindo: Jesus conclama-nos entrar no reino de Deus mediante o novo nascimento. E como se dá esta entrada? João ensina o passo a passo: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome;" (Jo 1.12). Portanto nós, que cremos por receber Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador, nascemos de novo e entramos no reino de Deus. Permanecer na palavra de Deus é estar consciente de sua nova condição existencial: filho(a) de Deus, cidadão do reino de Deus. Assim, contra todas as evidências físicas os crentes assumem estarem inseridos nesta nova realidade espiritual. Quanto maior for esta consciência, maior será a permanência nas palavras de Jesus.

Jo 8.32

"e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." (Jo 8.32). Existe uma conexão muito íntima entre ser discípulo de Jesus e conhecer a verdade. O discípulo é aquele indivíduo que tem profundo desejo de ser igual ao seu mestre. Isto significa que ele não só está receptivo para com as palavras de seu mestre, como também mostra disposição interior para mudar de posição. Por outro lado se ele não é discípulo de Jesus está envolvido em uma grande rede de engano, pois o deus deste século cegou o entendimento do incrédulo. Assim, o conhecimento da verdade contrasta com a relatividade, a noção de realidade construída na estreiteza da mentalidade humana. E qual é a verdade que precisa ser conhecida? Aquela que decorre do fato do homem ter sido criado por Deus com o propósito de ser a imagem e semelhança de Deus. E o que significa verdade? Basicamente a verdade é a revelação de Deus em Jesus Cristo. Podemos entender melhor este conceito se nos lembrarmos que a serpente se propôs ser o meio pelo qual o homem haveria de conhecer a Deus. A serpente propôs que se o homem comesse do conhecimento haveria de conhecer o bem e o mal, se fazendo igual a Deus. Contudo a serpente escondeu o fato do homem ser tornar incapaz de fazer o bem. Jesus veio para mostrar que a maior necessidade do homem é ser exposto a revelação divina, o evangelho. O evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que nele crer, sendo o centro do evangelho a obra da cruz feita por Jesus em obediência a vontade de Deus. É por isso que conhecer a verdade está intimamente ligada ao discipulado, porquanto em seguindo Jesus o crente vai chegar a cruz, terá conhecimento da morte de Jesus e de sua ressurreição ao terceiro dia. Na busca do significado deste evento descobrirá que Jesus morreu por causa dos seus pecados e ressuscitou para o justificar perante Deus. Esta é a essência da verdade.

Este é um dos versículos mais conhecidos das escrituras. A tendência das pessoas é refletirem nele isoladamente, fora do seu contexto. Para não incorrermos neste erro é importante lermos a luz do contexto e, no mínimo, ler os versos anteriores para não perdermos conexão com o contexto do qual o texto selecionado faz parte. Jesus associou o conhecimento da verdade ao discipulado. No sentido lato a verdade diz respeito a totalidade da revelação de Deus, que é a Bíblia. No sentido restrito a verdade tem como eixo central a obra da cruz feita por Jesus Cristo. No sentido experimental a verdade diz respeito a confrontação que fazemos de nossa existência com as escrituras. Por outro lado a verdade está em contraste com a mentira. E a mentira diz respeito a todos os ensinos e falsas crenças que foram introduzidas no nosso subconsciente por toda nossa caminhada existencial. Portanto a mentira está coberta pela ignorância, não sendo fácil identificá-la. Isto implica dizer que o conhecimento da verdade exige, necessariamente, a nossa conversão, nossa mudança de mentalidade, o voltar da direção oposta que estávamos indo. Conhecer a verdade é, portanto, um processo doloroso porque bate de frente com nosso orgulho e soberba. É preciso ter esta perspectiva bem claro na mente porque conhecer a verdade não acrescentar um novo saber na mente, antes é se deixar convencer da natureza do erro a que estávamos submetido. Por exemplo: conforme a verdade da Bíblia a salvação é alcançada por meio da fé, pela graça de Deus. Com isso se quer dizer que ninguém é salvo por suas boas obras. Como a tendência das pessoas é se relacionar com Deus mediante um processo de troca de favores, mudar a forma de pensar exige a compreensão da doutrina da salvação. Caso contrário ela continuará se relacionando com Deus mediante critérios meritórios, como penitências e boas obras.

Vimos que o conhecimento da verdade se dá em três dimensões: no sentido amplo conhecendo a Bíblia; no sentido restrito conhecendo a obra da cruz em Cristo Jesus; no sentido experimental confrontando sua vida com as escrituras. Precisamos agora definir o sentido da palavra "conhecer". Este termo significa averiguar, compreender, aprender, perceber, reconhecer, entender. Se considerarmos o conjunto destas definições, o ato de conhecer é muito mais que uma leitura casual, antes é um procedimento que demanda sair de dentro de si para ir ao encontro do objeto de estudo. Por que é tão importante ter este entendimento sobre o ato de conhecer? Porque muitas pessoas confundem conhecimento com suposição. A suposição ocorre sempre que alguém conhece por suposição, por achismo, por adivinhação. Por exemplo, se alguém diz: – Eu creio em Deus. Então você pergunta a ela: – Explique melhor quem é este Deus. E ela responde: – É uma força, um poder, um ser superior. É possível notar por estas respostas que ela está procurando encontrar dentro de si um modo de expressar o que ela acha acerca de Deus. No entanto se for perguntando a alguém que aprendeu quem Deus é a partir da Bíblia, ele vai responder: Deus é Espírito; Deus é o Criador, portanto um ser sobrenatural, existente por si mesmo, eterno, onisciente, onipotente, onipresente. Note que a primeira definição é uma suposição, a segunda é extraída da Bíblia, a palavra de Deus. Portanto conhecer a verdade implica em investigá-la, analisar no seu detalhe, comparar seu conteúdo um com o outro, até entender seu significado, apreender seu sentido, compreender seu conteúdo. Conhecer a verdade não é algo que se pode fazer ocasionalmente, mas exige diligência, dedicação, pesquisa, leitura persistente. Não há como conhecer algo sem dedicar tempo neste propósito. Aqui cabe uma pergunta: – Quanto tempo você realmente dedica para conhecer a Bíblia?

Temos demonstrado que o conhecimento da verdade é dado àqueles que são discípulos de Jesus. Que para conhecer é preciso dispor tempo neste propósito, pois envolve o ato de ler as escrituras, estudar suas minúcias, meditar em seu conteúdo, aplicar seus princípios, apropriar-se de suas promessas, e proceder desta maneira orando em Espírito. O conhecimento da palavra de Deus é adquirido por aqueles que se colocam na dependência de Deus e o temem. Se não tiverem esta postura acontece com eles o dito de Paulo: "que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade." (II Tm 3.7). Isto porque a Bíblia pode ser estudada do mesmo modo como se faz em qualquer ciência humana. Uma pessoa sem a menor intimidade com Deus poderá entrar em uma faculdade teológica e, mediante assistência de seus professores, conhecer a história e as doutrinas bíblicas em todas as suas vertentes, alcançando os mais altos graus acadêmicos. Contudo ainda que tenha se aplicado com o mesmo zelo que se faria em qualquer ciência humana, ainda assim seu conhecimento bíblico seria destituído da vida que procede de Deus. Por isso Paulo afirma poder adquirir conhecimento teológico, mas nunca chegar a apreensão do verdadeiro significado da verdade. É dentre estes que se encontram os falsos mestres, pessoas com profundo domínio da teologia bíblica, sem ter a menor experiência com Deus. E por que isto acontece? Porque o principal objetivo do estudo das escrituras é o conhecimento da verdade, não o mero conhecimento intelectual, mas este conhecimento associado a testificação do coração. A mente e o coração precisam estar alinhados e conectados à mesma verdade que procede da palavra de Deus. Este é o curto circuito da fé, quando o polo negativo e positivo se conectam na mesma e poderosa fonte do Espírito Santo, por este revelar a bendita pessoa de Jesus Cristo, a personificação da verdade, com tudo que esta revelação implica.

Somente o discípulo tem a disposição e a intenção de conhecer a verdade. Isto porque o conhecimento da verdade demanda tempo de qualidade gasto neste propósito. Cabe então perguntar: – O que é a verdade? A palavra verdade, no grego, é transliterada por "aletheia", significando o não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. Entende-se por verdade aquilo que de fato é como ele é, tanto visto pelos olhos, como também pelo espírito. Neste sentido o verdadeiro é o plenamente visível para a razão. No hebraico esta palavra é transliterada por "emunah" e traz consigo o conceito de confiança em decorrência de dois indivíduos se conhecerem e se comprometerem em jamais trair a confiança um do outro. Como a palavra grega é formada pelo prefixo "não" acrescido da palavra "esquecimento", a verdade tem conexão com lembrar-se de algo que foi esquecido e está sendo trazido a memória. Em síntese verdade é equivalente a revelação, algo que está sendo anunciado. A verdade também é associada a fé, como atestado em Isaías 7.9: – … Se vocês não tiverem uma fé firme, não poderão ficar firme. Portanto a verdade é algo digno de confiança. Conhecendo estes conceitos entendemos porque a verdade é absoluta, pois ela aponta para o propósito último de nossa existência trazendo consigo todas as suas implicações. Esta é a razão de se dizer ser a verdade transformadora necessariamente. A relativização corresponde ao movimento oposto, com o propósito de ocultar a verdade, porquanto o indivíduo assume para si que sua percepção de realidade é a única que de fato importa. Em essência esta pessoa declara ter o direito de tirar suas próprias conclusões, se colocando como juiz da realidade em que está inserida. Quanto mais a pessoa volta para dentro de si, exaltando sua individualidade, mais distante ela está da verdade, que explica sua existência.

O que é a verdade? Juntando o significado do grego e do hebraico podemos definir verdade como sendo a revelação de nossa identidade. Se eu perguntar quem você é, talvez você responda seu nome e sua filiação; a cidade onde nasceu e sua profissão; seu trabalho atual e seu currículo. Todas estas informações dizem respeito ao seu passado. Se eu insistir que diga mais a seu respeito talvez você responda acerca de suas virtudes e atitudes; de seu caráter e personalidade. Todas estas informações dizem respeito ao seu jeito de ser. Se eu insistir que diga mais a seu respeito talvez você responda sobre suas expectativas futuras, seu propósito de vida, seu legado que pretende deixar. Todas estas informações diz respeito a direção para onde caminha. Com todas estas respostas será que você disse a verdade a seu respeito? Talvez tenha dito com base no grau de conhecimento que você tenha a seu respeito. Contudo sua resposta diz respeito a sua vida natural, ao final sua história será conhecida pela data de seu nascimento e de sua morte, portanto você é o que viveu e experimentou neste intervalo de tempo. Tudo que você disse é sua história, mas não é a verdade e, mesmo que você queira dizer mais a seu respeito, ainda assim não é a verdade. E por que não é? Porque o único que pode dizer a verdade a seu respeito é Deus, que o criou. Isto significa que se você de fato deseja conhecer a verdade é preciso conhecer a Bíblia, a revelação dada por Deus sobre o verdadeiro sentido da vida. Este é o tipo de conhecimento libertador porque nos tira de uma existência passageira e fugaz e nos introduz na eternidade conectando a idealização divina a nosso respeito na eternidade passada com o propositivo divino para nossa eterna existência na presença de Deus. Em síntese: conhecer a verdade é conhecer nossa verdadeira identidade em Cristo Jesus, isto é libertador.

Conhecer a verdade é, portanto, conhecer a nossa verdadeira identidade diante de Deus. E esta identidade está profundamente conectada com a imagem e semelhança de Deus. O apóstolo João traduziu este conhecimento da verdade nas seguintes palavras: "Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro." (I Jo 3.2,3). Observe a íntima conexão entre quem somos e quem Jesus Cristo é. Esta conexão deve nortear nossa existência. Só conseguiremos entender quem realmente somos se compreendermos a obra da cruz porque ela é a chave do nosso relacionamento com Deus. A primeira consciência desta identidade é que somos filhos de Deus. Isto significa que foi implantada dentro de nós a natureza divina. Quando João conecta o entendimento desta filiação da necessidade de nos purificar demonstra que uma parte do nosso ser se recusa, terminantemente, viver em conformidade com nossa nova identidade. E o que faz toda a diferença para não darmos ouvidos ao velho homem é sabermos ou conhecermos acerca da obra divina que nos proporcionou esta nova identidade. Voltemos agora a questão principal que Jesus salientou: o conhecimento da verdade nos liberta. Isto significa que a verdade produz mudança na forma como pensamos e agimos, pois a nossa mentalidade natural está atrelada a perspectiva de escassez, limitações, medo do desconhecido, resistência a mudança, acomodamento as circunstâncias adversas. Por outro lado a nova identidade nos conecta com a abundância, a crença na realização do impossível, a confiança em Deus, a contínua disposição ao aprendizado, ao amadurecimento da fé e convicção da vitória sobre todas as nossas tribulações.

Leave a Comment