Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.33-35

Jo 8.33

"Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?" (Jo 8.33). Sabe aquela história que todas as religiões conduzem a Deus? É mais ou menos este o argumento dos judeus com Jesus. A lógica deles é simplista: é reconhecido que Abraão foi chamado por Deus para ir morar em Canaã. Deus prometeu abençoar a descendência de Abraão. Os judeus descendem de Abraão. Logo os judeus são o povo de Deus na face da terra. Hoje o argumento seria este: – Eu fui criado por Deus, logo sou filho de Deus. Claro que se isso for verdadeiro, esta crença é consequente e precisa se comprovar. Então os judeus argumentaram: – Somos livres, nunca fomos escravos de ninguém. Nesta afirmação está assentado o orgulho de ser judeu. No entanto, do ponto de vista político, os judeus eram dominados pelos romanos. Pessoalmente eles eram portadores de contradições internas, pois proclamavam os valores do reino de Deus, mas se comportavam conforme o ditame dos corações deles. E Jesus diagnosticou: "Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias." (Mt 15.19). Quem discerne esta contradição diante de si logo perceberá que a única forma do homem natural se considerar apto a ter vida eterna sem ser transformado por Deus é crendo na visão utópica que tem de si, sem perceber-se dominado pelo pecado em direção a morte eterna. Este comportamento é tipificado como justiça própria, um tipo de avaliação que o indivíduo faz de si mesmo considerando somente a parte do seu ser que julga agradar a Deus, jogando para baixo do tapete todo o resto. Os judeus se surpreenderam com o dito de Jesus sobre serem livres. Achavam-se livres, mesmo pecando. Esta é a dona do homem. Nesta perspectiva Deus é bom, Deus é Pai, logo todo mundo é seu filho, apto a serem salvos por suas próprias obras.

Jo 8.34

"Replicou-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado." (Jo 8.34). Jesus estava falando de escravidão e os judeus não entenderam o que Jesus dizia. Eles alegaram ser filhos de Abraão, por isso eram livres, nunca escravos. Então Jesus colocou o dedo na ferida. Ele demonstrou que o tipo de escravidão que mencionou era a do pecado. Jesus foi incisivo em seu diagnóstico, não amenizou o conhecimento que ele tinha da natureza humana. Os judeus tinham conhecimento teológico suficiente para saber do Jesus tratou. Era parte essencial do culto no tabernáculo trazer um cordeiro sem defeito a Deus. Antes deste cordeiro ser morto o judeu ofertante tinha de colocar suas mãos sobre o cordeiro. É por isso que João Batista apresentou Jesus como sendo o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Quem se identificasse pecador e chegasse a Jesus por meio da fé, teria seus pecados perdoados e esquecidos da parte de Deus, vindo a se tornar filho de Deus. A noção de pecado é eminentemente religiosa. O homem natural não tem como entender esta terminologia. Considere a morte em si. Para o homem natural a morte é mera cessação de vida, no entanto as escrituras revelam que a morte é personificada, ela é um ser com vontade própria inesgotável. Desde a queda a morte tem engolido cada indivíduo nascido de mulher. Este quadro só vai terminar quando todos os inimigos forem colocados debaixo dos pés de Jesus, sendo a morte o último a se encontrar nesta situação. Jesus, ao fazer seu diagnóstico fez a íntima conexão entre o pecado e a perda da liberdade. Por exemplo, uma pessoa entregue as drogas não consegue parar e, se tentar, tem crises de abstinência. Do mesmo modo o homem natural quer fazer o bem, mas na prática é o mal que lhe impulsiona. Só Jesus tem o poder para lidar com esta perda de liberdade e libertar o homem, fazendo-o pelo conhecimento da verdade.

Jo 8.35

"O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre." Jesus traçou uma linha divisória entre o pecado e a liberdade, demonstrando que o pecado aprisiona o indivíduo, assim como a liberdade o coloca para fora desta prisão. Vamos entender o texto parte a parte. O ponto de referência é a casa. De que casa se trata? Permita-me dizer o óbvio: – Nós somos seres humanos. O que distingue um ser humano de tudo o resto é o seu corpo. Se não tivéssemos o corpo físico não seríamos humanos, mas anjos. Se não tivéssemos a forma de corpo humano que temos poderíamos não ser humanos, mas leões, hipopótamos ou seja lá que animal for. O que quero salientar é que, seja nesta dispensação, seja na eternidade, nós sempre teremos um corpo físico nos moldes do corpo atual. Se pudéssemos viajar no tempo da eternidade futura e encontrássemo-nos mesmos glorificados, a exceção da glória, seríamos no formato exato do que somos agora. Com isso não quero dizer que nosso corpo glorificado será exatamente igual ao atual na altura e no peso, mas será o mesmo na forma. É por isso que Jesus disse que este corpo é a casa, isto por ser o lugar onde habita nossa alma e nosso espírito humano. Compreendido o corpo humano como referente  todo homem natural habita nele como escravo do pecado e todo homem espiritual habita neste mesmo corpo como libertos do pecado. Como o segundo é superior ao primeiro, o pecador ocupa provisoriamente o corpo, mas o justo permanece para sempre com seu corpo. O pecador tem seu tempo de uso do corpo contado, termina com a morte. O filho, pelo contrário, poderá utilizar-se eternamente de seu corpo para gozar da presença de Deus. O autor aos Hebreus demonstrou esta verdade nestes termos: "Cristo, porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardarmos firme, até ao fim, a ousadia e a exultação da esperança." (Hb 3.6). Assim, quem determina se vamos ocupar esta casa, que é nosso corpo, para sempre, é o Filho de Deus estando conosco neste corpo.

Vimos que nosso corpo humano é o referente. Nossa alma habita em nosso corpo, podendo estar sendo energizada com dois tipos de vidas: a vida psique ou a vida zoe. A primeira decorre do fruto natural da existência, a segunda proveniente do novo nascimento. A primeira incorrendo na morte, a segunda tendo consigo a vida eterna. A vida natural não permanece para sempre no corpo, pois ao fim de sua existência o corpo vai ao pó e a alma é obrigada a submeter ao escrutínio divino. Se o indivíduo recebeu Jesus este escrutínio é para o galardoar, se não creu em Cristo, então será julgado por suas obras e lançado ao fogo eterno. Para termos percepção de quão real é esta dinâmica entre o escravo e o liberto, Paulo compara a sorte dos filhos de Abraão. Ismael nasceu da escrava e Isaque da esposa. Como Ismael nasceu primeiro, ele representa nossa vida natural. Sendo Isaque o filho da promessa, ele aponta para os filhos de Deus de todas as eras. Por isso Paulo conclui: "Vós, porém, irmãos, sois filhos da promessa, como Isaque." (Gl 4.28). Ao final Paulo conclui que o filho da escrava, isto é, nossa antiga natureza, precisa ser lançada fora, pois não serve aos propósitos divinos por estar impossibitada ao recebimento da herança. Paulo também associa o filho da escrava ao monte Sinai, portanto a lei e o filho da livre ao evangelho da graça. Ou seja, o filho da escrava vive baseado em um modelo obrigacional, pois para alcançar sua salvação ele precisa esmerar-se em cumprir com todos os requisitos da lei. No entanto como isso é impossível ao homem natural, e se obriga a vestir-se de justiça própria, criando com esta atitude a ilusão que será salvo mediante seus esforços naturais. Por outro lado o filho da livre precisa de tutor até aprender a andar com Deus por si mesmo. Ou seja, a lei o conduziu a Cristo, recebendo-o como Senhor e Salvador e se tornando filho amado de Deus.

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