Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.39-43

Jo 8.39

"Então, lhe responderam: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão." (Jo 8.39). Jesus havia marcado uma linha deliminatória. Ou alguém é filho de Deus, ou não é. Os judeus se defenderam alegando serem filhos de Abraão. Jesus contra argumenta que o filho é semelhante ao seu pai, portanto se a alegação deles estava certa, deviam praticar as obras de Abraão. E quais seriam estas obras? A primeira de todas as obras de Abraão foi crer na palavra de Deus, sair de Ur dos Caldeus em direção a Canaã. Dando um salto na história, depois de Abraão veio Moisés, quem esteve cara a cara com Deus, para apontar a vinda de um profeta maior que ele, profeta este que deveria ser ouvido. E ali estava Jesus, diante dos judeus, proclamando a palavra de Deus, no entanto eles estavam refratários a tudo quanto Jesus dizia. Quão grande foi a fé de Abraão, pois morando em meio a um povo idólatra, discerniu a voz de Deus. Não só discerniu como também obedeceu, retirando-se do meio daquele povo, partindo em direção a terra prometida. Quando Abraão iniciou esta jornada, ele não sabia que a terra seria Canaã. Deus havia lhe dito que devia caminhar até o Senhor lhe declarar que já estava na terra. Tendo chego em Canaã Abraão edificou um altar. Abraão estava cônscio que a terra lhe fora prometida, ainda que nela habitasse os cananeus. Assim também caminhamos nós pela fé em um mundo hostil, sabendo que o Senhor nos tem preparado a nova Jerusalém, que desce do céu como uma noiva adornada para o seu Senhor. A jornada da fé faz-nos praticar as mesmas obras de Abraão porque a fonte também é a mesma. Os judeus, contudo, se comportavam como filhos que não ouviam seu pai, atitude própria do homem caído. A consequência desta escolha era manifestar a incontrolável apetite da carne ao ponto de querer matar Jesus, a fonte da palavra viva.

Jo 8.40

"Mas agora procurais matar-me, a mim que vos tenho falado a verdade que ouvi de Deus; assim não procedeu Abraão." (Jo 8.40). Nós somos privilegiados ao participarmos desta conversa entre Jesus e os judeus. E por que temos este privilégio? Traga a sua mente, por um instante, qualquer pessoa que você conheça e já tenha morrido. A expectativa natural que temos desta pessoa é que ela morreu e sua história terminou, ficando só as lembranças que temos dela. Agora note Abraão. Ele também morreu, no entanto temos de observar muitas diferenças entre ele e este que também está morto. Abraão tem sua história registrada na Bíblia e serve de exemplo sobre como devemos andar com Deus. Abraão ouviu a voz de Deus em Ur dos Caldeus e decidiu-se guiar por esta voz, saindo de sua terra e indo para Canaã. Quando lemos Gn 12.1-3 encontramos o relato da promessa que Deus fez a Abraão, fazendo-o dar os primeiros passos em sua fé com Deus. Então nós, que queremos também andar com Deus, ficamos a imaginar como seria ouvir a voz de Deus, pois queremos ter a mesma experiência de Jesus. E, quando ouvimos Jesus conversar com os judeus descobrimos que foi o próprio Jesus quem fez a promessa a Abraão. Isto porque Jesus está dizendo que Abraão ouviu o que Jesus disse a ele da parte de Deus, o Pai. E que os judeus agiam de modo oposto, querendo matar a fonte que habilitou a fé de Abraão. Ou seja, Jesus reforçou o que o autor aos Hebreus disse: Deus nos fala por meio de Jesus Cristo (Hb 1.1,2) e quem se recusa a ouvir Jesus está, na verdade, querendo matá-lo porque a presença de Jesus, ainda que seja silente, incomoda. Por outro lado descobrimos que se queremos seguir os passos de Abraão devemos fazer como ele, ouvir o que Jesus tem a dizer. Ele é o profeta que Moisés fez referencia, por ser maior que o próprio Moisés, visto ter ouvido diretamente de Deus o que nos é destinado a ouvir. Vamos então nos esforçar para aprender tudo quanto Jesus tem a nos ensinar.

Jo 8.41

"Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe eles: Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus." (Jo 8.41). Jesus havia exposto a intenção dos judeus em o matar, associando esta intenção ao pai deles. Quem seria esse Pai? Na visão dos judeus eles só podiam ter dois pais distintos: ou o pai deles seria Abraão (Jo 8.39) ou seria Deus (Jo 8.41). E como eles chegaram a esta conclusão? Eles basearam no princípio da descendência, da árvore genealógica (Jo 8.33). Os judeus tinham grande cuidado em anotar a descendência deles. Por exemplo, só podiam servir no templo quem fosse da tribo de Levi. O rei esperado vinha da tribo de Judá. As terras de Canaã foram repartidas segundo as tribos dos filhos de Jacó. Tanto o Evangelho de Mateus quando o de Lucas traçam a árvore genealógica de Jesus Cristo. A de Lucas é a mais impressionante, pois começa em José, pai adotivo de Jesus, e vai até Adão para concluir em Deus. Se extrairmos Abraão da equação, toda a humanidade chega em Adão, depois em Deus. Esta é a razão das pessoas naturalmente se dizerem filhas de Deus. Israel tem o direito de afunilar: filho de Jacó, de Isaque, de Abraão, de Deus. Quem advoga sua genealogia para chegar em Deus entende que basta nascer neste mundo para fazer parte desta grande família divina. Qual o erro desta proposição? O indivíduo não leva a queda do homem no pecado em conta. Ele não discerne que o pecado faz separação entre Deus e o homem de forma irreparável. Ele não compreende que o salário do pecado é a morte. Então ele faz uma leitura rasa da história que lhe favorece e retira de sua mente qualquer senso de condenação. No entanto suas atitudes, o comportamento deles atestam que, de fato, nem eles são filhos de Abraão, muito menos de Deus. Por isso no íntimo queriam matar Jesus, pois era o único modo de fazer calar a consciência deles.

Jo 8.42

"Replicou-lhes Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou." (Jo 8.42). Como os judeus insistiam dizer-se filhos de Deus, Jesus contra argumenta demonstrando uma evidência óbvia: o filho para se demonstrar verdadeiro filho precisa ter a mesma natureza de seu pai, não só o DNA, mas também o comportamento. O livro de Levítico diz que a vida está no sangue (Lv 17.11), observando aqui sua fluidez, sua circulação, não suas propriedades físico-químicas. Sob este aspecto o corpo é vivo enquanto o sangue circular, do mesmo modo, podemos dizer que somos filhos de Deus quando nosso comportamento se assemelha ao de Deus. Por certo alguém vai alegar que a identidade prevalece sobre o comportamento. Este argumento salienta o fato da prevalência da identidade sobre o comportamento porque não precisamos ser performáticos para sermos amados por Deus. De fato a identidade é primordial. Considere sua identidade como o fundamento de uma casa. O fundamento é parte da construção que não aparece, mas está lá. A pergunta é: o que será construído em cima deste fundamento? É nesta lógica que se insere o comportamento, por isso Jesus disse: – Se Deus é o Pai então por certo quem tem esta identidade de filho de Deus ama a Jesus, o enviado de Deus (Jo 8.42). Portanto aquilo que externamos tem de estar ajustado com quem somos. Por esta declaração cai por terra a tese que Deus só se importa com o coração, as atitudes não importam. Quem pensa que o comportamento está dissociado da identidade é semelhante ao homem que, tendo um fundamento de concreto, constrói ainda assim sua casa sobre a areia. Portanto agir em contradição a quem de fato é equivale a negar sua natureza primordial. Uma pessoa não pode, por exemplo, proceder de acordo com o curso deste mundo e alegar, ao mesmo tempo, que é filho de Deus. As fontes motivacionais são distintas, com resultados diametralmente opostos.

Jo 8.43

"Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra." (Jo 8.43). O que distingue compreender algo de simplesmente ouvir o que é dito? Jesus fez duas afirmações sobre a índole dos judeus: a primeira foi revelar que eles eram escravos do pecado, a outra foi apontar a origem do comportamento deles, qual seja, a inclinação natural para fazer a obra do pai deles. Tendo dito estas coisas Jesus mostrou que os judeus estavam impossibilitados de compreender a linguagem de Jesus, pois eram levados por muitas distrações, incapacitados, portanto, em ouvir as palavras de Jesus. Devemos nos perguntar: – Por que o homem natural não consegue ouvir as palavras de Deus? Para entender este grau de dificuldade vamos considerar a cena que temos diante de nós. Um grupo de judeus estavam discutindo com Jesus. Podemos fazer um paralelo com qualquer conversa que temos com quem quer que seja. Ou seja, uma pessoa fala, a outra ouve, contra argumenta e, nestes molde, a conversa prossegue. Se Jesus diz: – Eu vim do céu! A pessoa que ouviu esta afirmação pode pensar consigo: – Ninguém pode descer do céu, todos nascem do útero de uma mulher. Neste ponto do diálogo surge um impasse, visto ser a afirmação de Jesus impossível de ser verificada. No entanto o que torna a afirmação de Jesus crível é o conjunto da obra de sua fala. Ele não só contou das realidades celestiais, como também agiu em conformidade com estas realidades. Para compreender o conjunto da fala de Jesus precisamos retornar na origem do ser humano. Ele foi criado por Deus, tornando alma vivente por causa do sopro divino. Este sopro é a voz de Deus, que fala ao coração, não a mente humana e, se o coração estiver endurecido pelo pecado, a pessoa não ouve. Em síntese, Jesus fala primariamente ao coração, não a mente, portanto para o indivíduo estar apto a ouvir o que Jesus tem a dizer e compreender, este precisa de um novo coração e um novo espírito.

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