Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.44-47

Jo 8.44

"Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." (Jo 8.44). Este é um dos mais difíceis textos para ser comentado. Jesus declarou que o pai dos que arguiam com Ele era o diabo. Quem são estes com quem Jesus conversava? Eram os judeus (Jo 8.22,31). João acrescenta um comentário, o de que os alguns judeus haviam crido em Jesus (Jo 8.31), no entanto eram estes mesmos judeus que prosseguiram conversando com Jesus. Quem são estes judeus? Eles se consideravam filhos de Abraão, filhos de Deus em função da descendência natural. Assim como eles chegavam a filiação divina por Abraão, todo e qualquer indivíduo não judeu poderia chegar a mesma conclusão de ser filho de Deus recuando sua descendência até Adão. Estaria Jesus dizendo que todo homem natural, sem uma experiência de salvação seria filho do diabo? É uma resposta difícil de ser dada. E por que é complicado declarar que todo homem natural é filho do diabo? Por que este tipo de filiação só pode ser feita por ato consciente. Assim como só podemos ser filhos de Deus recebendo Jesus como Senhor e Salvador, também um homem natural só pode ser filho do diabo se ele fizer algo que gere esta filiação. Em outras palavras, é provável que aqueles judeus eram judeus ocultistas, não eram judeus comuns. Devemos nos lembrar que Deus havia dito a Adão que a serpente teria uma descendência assim como a mulher teria outra descendência. Assim como a linhagem de Abraão é consciente de serem herdeiros da promessa, assim também é preciso ter homens na terra que busquem o reino das trevas como fonte de poder e comprometimento. Com isso queremos dizer que o mundo caído é influenciado pelo diabo, contudo somente aqueles que conscientemente adotam algum tipo de pacto com o mundo das trevas podem ser identificados como filhos do diabo.

Jo 8.45

"Mas, porque eu digo a verdade, não me credes." (Jo 8.45). A verdadeira crença tem origem na verdade e a fonte da verdade é Jesus Cristo. Então qual é o dilema de crer na verdade? Por verdade, no grego, "aletheia", entenda como sendo aquilo que está em conformidade com a realidade; o que não é ilusório; o revelado, exposto. Considere tudo que você enxerga em seu derredor, uma mesa, por exemplo. Este é um objeto feito de madeira com quatro pernas, um tampão, com a finalidade de dar suporte para sustentar algo sobre ele. Se observamos microscopicamente veremos que a mesa é formada por átomos e, se formos ainda mais a fundo, por prótons e nêutrons em constante movimento. No entanto, se formos ainda mais a fundo descobriremos que esta mesa feita de madeira veio da árvore, que foi originalmente criado por Deus por meio de sua palavra. Portanto a mesa que está diante de nós veio a existir à partir do invisível (Hb 11.3). Por que nos é tão difícil entender esta verdade? Por termos sido ensinado desde nosso nascimento que tudo a nossa volta se constitui naquilo que é: mesa é mesa e cadeira é cadeira, todos eles são objetos concretos que se pode apalpar. Assim, desde que nascemos somos ensinados a definir a verdade a partir do que vemos, daquilo que vem a partir de nossos cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato. Jesus, por outro lado, veio nos ensinar do mundo invisível aos nossos olhos, sobre as realidades celestiais. Como não podemos usar de nenhum dos nossos sentidos naturais para entender estas verdades, temos necessariamente de exercer fé para crer no que não vemos. Assim, mesmo Jesus desvendando diante de nossos olhos a verdade, a maioria tende a rejeitar por não estar ajustado a sua cosmovisão. Ademais, não só somos habituados a ter por regra do conhecimento o que nossos cinco sentidos apreende, como o deus deste século também contribui para manter o homem na ignorância, cegando-o para não aceitar o Evangelho (II Co 4.4).

Jo 8.46

"Quem dentre vós me convence de pecado? Se vos digo a verdade, por que razão não me credes?" (Jo 8.46). Quem convence o ser humano do pecado é o Espírito Santo. Quanto a Jesus, Ele nasceu e viveu em santidade, jamais cometeu um único pecado sequer. Jesus agradou a Deus em toda sua existência na Terra. E em que termos Jesus agradou a Deus? Ele foi obediente até a morte de cruz o alcançar Assim, para convencer Jesus de pecado os judeus teriam de provar a desobediência de Jesus a qualquer mandamento divino que fosse. Aliás, este foi um dos motivos para Jesus ter o ministério terreno. Ele precisava ser provado se permaneceria na lei de Moisés para se qualificar como Cordeiro de Deus. Por isso lemos que Jesus, cheio do Espírito Santo, foi levado pelo próprio Espírito Santo para ser tentado pelo diabo no deserto. E, em sendo tentado, Jesus citou a palavra de Deus com conhecimento de causa para repreender Satanás e se mostrar vitorioso em cada uma de suas provas. Como Jesus era sem pecado, por que os judeus ainda assim não criam na verdade dita por Ele? Porque o homem natural não compreende as coisas de Deus por lhes parecer completa loucura. O homem natural só cogita nas coisas humanas, afetos aos seus cinco sentidos. No caso dos judeus eles tinham a expectativa da vinda do Messias como o libertador do império Romano, do mesmo modo como Deus libertou o povo do Egito. Por conta desta expectativa eles criam que o Messias reivindicaria o trono de Davi e reinaria de imediato ao seu aparecimento. Toda visão dos judeus eram triunfalista, eles não se percebiam pecadores. O senso de justiça própria deles o faziam crer que eram filhos de Abraão, filhos de Deus, portanto sem pecado. Na visão dos judeus quem precisava ser salvo eram os gentios. Este tipo de percepção é chamado nas escrituras de justiça própria.

Jo 8.47

"Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus." (Jo 8.47). Esta afirmação de Jesus é uma radical linha deliminatória entre o reino das trevas e o reino de Deus. Grande parte dos diálogos de Jesus até este momento no evangelho de João segue este posicionamento. Vamos recapitular um pouco esta trajetória. João Batista apresentou Jesus como sendo o Cordeiro de Deus e alguns judeus se colocaram como discípulos de Jesus, seguindo-o. Jesus, depois foi à festa de casamento tornando a água em vinho, dando início a manifestação de sua glória. Em seguida foi até o templo, purificando-o, fazendo referência a sua morte e ressurreição. Todos estes eventos apresentaram a identidade de Jesus, delimitou as fronteiras do reino de Deus. Então veio Nicodemos e Jesus evidenciou a condição para entrar neste reino, nascendo de novo. À mulher samaritana Jesus salientou que os cidadãos do reino de Deus são os adoradores procurados pelo Pai para estarem na sua presença. Em seguida Jesus curou o filho de um oficial do rei e um paralítico. Com este pano de fundo Jesus explicou sua missão que é a de dar vida aos mortos, trazendo-os para o seu reino eterno. Diante de uma multidão Jesus multiplicou os pães, em seguida andou sobre as águas. Nesta esteira Jesus se revelou como sendo o pão da vida. Para surpresa, diferente do que seria esperado, muitos discípulos consideraram o discurso de Jesus complicado e o abandonaram, inclusive seus próprios irmãos se mostrando incrédulos. Na sequência Jesus se apresentou como sendo a fonte de água viva e, diante da mulher adúltera, como a luz do mundo. É neste contexto que Jesus tem sua identidade questionada pelos judeus, então ele traça a linha divisória, quem o ouve é de Deus, quem não ouve está no reino das trevas. Este é o primeiro discernimento necessário para compreender o reino de Deus, reconhecer que existe uma linha demarcatória, colocando gente dentro e gente fora.

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