Comentários no Evangelho de João, Sem categoria

Comentários em João 8.48-51

Jo 8.48

"Responderam, pois, os judeus e lhe disseram: Porventura, não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio?" (Jo 8.48). Os judeus fizeram graves acusações contra Jesus para demonstrar o inconformismo deles com o ministério de Jesus. Isto porque eles se julgavam os legítimos herdeiros da fé de Abraão. Por qual paralelo podemos comparar esta visão dos judeus com os dias atuais? Qualquer indivíduo que presume ter aliança com Deus por pertencer a uma ramificação religiosa pode estar enganando a si mesmo. Os judeus se consideravam povo puro de origem, legítimos filhos de Abraão, portanto salvos pela simples razão de serem descendentes diretos de Abraão. Como explicar, portanto, que eles tinham esta visão distorcida de Jesus? Jesus era filho de Maria. Sua história era conhecida, mas quem iria crer que Jesus fora concebido pelo Espírito Santo? Ao chamar Jesus de samaritano eles podiam estar acusando Jesus de ser filho ilegítimo. Acusavam-no apontando-o como samaritano porque na visão dos judeus os samaritanos eram indignos do ar que respiravam. Se eles se consideravam puros judeus, viam os samaritanos como a escória por causa do sincretismo religioso daquele povo. Dai a segunda acusação contra Jesus, chamando-o de endemoniado. Quando alguém perde o argumento tende a se comportar deste modo, desqualificando a pessoa portadora do argumento.

Jo 8.49

"Replicou Jesus: Eu não tenho demônio; pelo contrário, honro a meu Pai, e vós me desonrais." (Jo 8.49). Jesus recebeu duas acusações: de ser samaritano e de ter demônios. Jesus só deu resposta a segunda acusação. Por que Jesus ficou em silêncio sobre o ser samaritano ou não? Porque os judeus usaram o termo pejorativamente. Para eles os samaritanos eram a escória do mundo e, neste caso, se Jesus dissesse: — Não sou samaritano, em princípio estaria concordando com os argumentos dos judeus que os samaritanos eram um povo indigno. Jesus jamais reduziria a dignidade de quem quer que fosse. Quanto a segunda acusação, Jesus simplesmente afirmou não ter demônio. Isto é tudo que precisa ser feito quando alguém nos denigre. Quando uma ofensa nos é dirigida precisamos tão somente ter convicção de quem somos para negar quem não somos. Assim, se alguém diz algo a nosso respeito e ele estiver certo, precisamos nos consertar; agora se ele diz algo que condiz com nosso comportamento, talvez tenhamos e nos corrigir. Agora o que não podemos fazer é contra argumentar xingando o outro, pagando o mal com o mal. Jesus deu o exemplo desta atitude reafirmando sua identidade como sendo Filho de Deus. Se soubermos quem somos então todas as ofensas caem por terra. Ademais o salmista expõe a perspectiva de Jesus: "Pois tenho suportado afrontas por amor de ti, e o rosto se me encobre de vexame". (Sl 69.7). Precisamos entender este ponto: uma afronta machuca, contudo somos capazes de suportar a agressão que se levanta contra nós porque somos filhos de Deus e como somos instruídos a nunca pagar o mal com o mal, nossa preferência sempre deve ser a de esperarmos em Deus a manifestação de sua justiça. É por isso que basta tão somente negarmos a agressão que nos é feita em reconhecimento a identidade que temos.

Jo 8.50

"Eu não procuro a minha própria glória; há quem a busque e julgue." (Jo 8.50). A conversa entre Jesus e os judeus é um embate argumentativo. Para não perdermos o fio da meada precisamos retornar o contexto deste embate. Todo este discurso tem como pano de fundo a mulher adultera que fora trazida a Jesus. Na mentalidade judaica a mulher tinha de ser apedrejada porque era esta a penalidade prescrita na lei de Moisés. Jesus deu um único critério para o apedrejamento: – Quem não tem pecado atire a primeira pedra. Não ficou nenhum para contar a história. Então Jesus fala de sua missão e explica que o pecado escraviza a pessoa (Jo 8.4). E qual é a essência do pecado? A essência do pecado é viver para si mesmo e não para Deus. Em contraposição Jesus, neste ponto da controvérsia com os judeus, demonstra a distinção entre Ele e os judeus. Jesus busca a glória de Deus e não a sua própria. Isto significa que Jesus viveu nesta Terra em obediência ao seu Pai celestial. E, por este motivo, Jesus deixou claro aos seus interlocutores que quem haveria de exaltar a Jesus seria o seu próprio Pai celestial, sendo Deus, o Pai o Juiz de toda a terra. Aqui Jesus invocou o princípio da oração: – Entre no seu quarto, fehe a porta, ore no secreto e Deus te recompensará publicamente. Do mesmo modo Jesus falava a verdade que Ele ouviu do próprio Deus e entregava esta mensagem com toda fidelidade, convicto que no tempo certo Deus, o Pai o exaltaria. E como se deu esta exaltação: por meio da ressurreição dentre os mortos. E como Jesus fez para chegar nesta hora? Jesus foi ultrajado, humilhado, crucificado. Em outras palavras Jesus não resistiu ao mal, por isso foi exaltado por Deus com a ressurreição. Neste mundo este é o critério divino para atestar se a obra é de Deus ou não – a morte e a ressurreição.

Jo 8.51

"Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte, eternamente." (Jo 8.51). Jesus continua trançando a linha divisória entre o reino das trevas e o reino de Deus. Neste caso ele não só está apontando que o caminho natural termina com a morte, como também depois desta vem o juízo final e, com ele a segunda morte, de duração eterna, dada a todos quantos rejeitaram Jesus Cristo como Salvador e Senhor. O autor aos Hebreus fez menção deste evento: "E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo" (Hb 9.27). Alguns conceitos aqui são relevantes. Primeiro que o homem foi feito para existir eternamente porquanto foi criado por Deus para ser conforme sua imagem e semelhança. Esta é a marca do divino colocada no ser humano. O pregador retratou esta marca divina ao escrever: "Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim." (Ec 3.11). O segundo aspecto a salientar é que esta duração eterna pode existir em dois estados: ou vida eterna ou morte eterna. Alguém pode pensar consigo que o rigor da penalidade excede em muito o feito. Quem assim considera não percebe que todo pecado é contra a divindade cuja proposição inicial foi dar ao homem a vida eterna. A contrapartida não poderia ter menor duração, pois se o salário do pecado é a morte, esta penalidade precisa ser tão extensa quanto a vida potencialmente perdida. O terceiro aspecto a salientar é que a morte eterna já é o destino de todo ímpio porquanto ela decorre da escolha do representante legal dos seres humanos, Adão, o primeiro homem criado à imagem e semelhança de Deus. O aspecto positivo desta condicionante é que se houve um representante legal para a morte, Jesus Cristo pode se apresentar como o representante legal para a vida.

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