Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.56

Jo 8.56

"Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se." (Jo 8.56). Em que momento da história de Abraão ele poderia ter visto o dia de Jesus Cristo e se alegrado com o que viu? Recapitulemos a história de Abraão para entendermos este momento. Abraão foi chamado por Deus no seio de uma família idólatra para ir até a terra prometida para se tornar uma grande nação. Clarificando, Abraão foi chamado para ter, no mínimo, um filho e, por meio deste, uma descendência numerosa. Alguém pode dizer para si: – É normal ter um lugar para morar e filhos, no entanto vivemos uma época que os casais adiam o nascimento de seus filhos o mais que podem. Isto porque não querem ter filhos atrapalhando a jornada de sucesso deles. Neste sentido estes casais pensam ter filhos como uma contingência da vida, se pudessem, evitariam. Abraão não agiu deste modo. Antes, quando ouviu Deus lhe dizer que teria filho e, com este uma descendência e, por ela uma nação, Abraão foi refletir a palavra que recebeu de Deus. A primeira pergunta que ele deve ter feito para si foi esta: – Por que Deus estava tão interessado em Abraão ter um filho? Em que isso haveria de contribuir com o plano de Deus? Pelo menos três palavras de Deus lançavam luz ao pleito divino: a expectativa divina do homem ser a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26); a ordem de crescer e multiplicar (Gn 1.28); e, depois da queda, a promessa da semente da mulher que pisaria a cabeça da serpente, portanto a promessa do nascimento do Redentor (Gn 3.15). Abraão conhecia estas passagens bíblicas porque a palavra de Deus era transmitida oralmente, de geração em geração. Estas passagens não só foram relevantes para a reflexão de Abraão, como também deveria ser definidora do destino compartilhado por todo casal que contrai núpcias diante de Deus. O fato de muitos casais recusarem ter filhos demonstra por esta atitude o quão distante eles estão se colocando do plano divino para suas vidas.

Abraão, tendo recebido a promessa de Deus acerca de sua descendência se viu obrigado a refletir. Ele tinha por volta de 75 anos quando foi chamado por Deus, sua esposa era estéril, portanto não tinham filhos. Como naturalmente era impossível a promessa de Deus se cumprir na vida do casal, Abraão teve de meditar em como Deus faria para realizar o impossível na vida do casal. Não só isso, mas Abraão teve também de refletir em como a visão dada por Deus sobre o futuro impactava na vida dele. Note que o contexto existencial de Abraão era extremamente complicado. Como membro de uma família patriarcal Abraão não se viu na condição de simplesmente deixar a casa de seus pais. Como eles estavam em Ur dos Caldeus quando Deus o chamou, Abraão viu na decisão de seu pai em viajar para Harã, parte do cumprimento do plano de Deus. Abraão ficou em Harã até a morte de seu pai e, depois, prosseguiu a jornada até chegar na terra indicada por Deus. Em Canaã Abraão levanta um altar ao Senhor e tem a promessa da herança da terra confirmada por Deus (Gn 12.7). No entanto nesta mesma confirmação da promessa Deus lhe promete filho. Entenda que ter um filho pertencendo a linhagem da descendência santa, isto é, estando em linha com Adão, Sete, Enoque, Noé, Abraão, significa estar traçando o caminho para a vinda do Messias prometido em Gn 3.15 – a semente da mulher que pisaria a cabeça da serpente. Abraão sabia de sua responsabilidade, no entanto convivia com a esterilidade de sua esposa. Aos 99 anos Deus confirmou não só a promessa, como deu prazo para seu cumprimento: dentro de um ano (Gn 17.21). Foi nesta manifestação divina que Abraão prostrou-se diante de Deus em adoração, rindo consigo da situação impossível que se encontrava. Considerava consigo que tinha 100 anos e Sara 90 (Gn 17.17). Por Abraão riu?

Jesus, ao fazer menção a este momento da alegria de Abraão, provável estava fazendo referência a seguinte passagem: "Então, se prostrou Abraão, rosto em terra, e se riu, e disse consigo: A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará à luz Sara com seus noventa anos?" (Gn 17.17). Vamos considerar em perspectiva este momento da vida de Abraão. O sonho de todo esposo é ter um filho, não seria diferente com Abraão. O que Abraão fez de diferente foi conectar seu propósito de vida com a palavra de Deus em duas dimensões. Na primeira ele aplicou a palavra ao seu momento existencial. Se Deus disse que todo homem deveria ter herdeiros, a idade avançada deste casal não seria nenhum impedimento, mesmo a esterilidade do casal. No entanto a alegria de Abraão foi mais profunda que meramente o desejo de ter um herdeiro. Na perspectiva de Jesus a alegria de Abraão transcendeu a casa dele para conectar-se com o plano divino de fazer o Verbo tornar-se carne. Abraão se percebeu conectado neste eterno plano divino pela compreensão que na sua descendência Jesus, o Messias prometido em Gn 3.15, iria nascer. Considere por um momento sua existência. Se você é crente e dá apoio a outro cristão, você está contribuindo para com a volta de Jesus por causa do efeito borboleta. Explicando, você fortalece este irmão, que faz o mesmo por outro, e por outro. Com isso queremos dizer que a ação particular de um crente tem reflexo no grande plano divino de fazer Jesus voltar como o Rei dos reis. Foi mais ou menos assim que Abraão viu o nascimento de seu filho, foi como estender seus olhos para todas as gerações futuras até chegar em Jesus Cristo, o Filho de Deus. Por conseguinte, seja qual for o ponto que nossos dons, talentos e atitudes se manifestam, a singularidade desta ação se soma a todas as outras de todos os crentes de todas as épocas, trazendo Jesus para a consumação dos tempos.

Nesta passagem temos dois princípios importantes, que é preciso ser enfatizado. Abraão recebeu a promessa de ter um filho e, por ele, uma descendência. Já demonstramos que a promessa específica dada a Abraão está alinhada a promessa genérica feita a humanidade. Isto é, fomos postos neste mundo para gerar filhos e, com eles, uma descendência. Isto significa que podemos conectar qualquer atividade que desenvolvemos a uma promessa genérica dada por Deus nas escrituras. O problema é que muitos cristãos sequer se dão a este trabalho e, ao procederem desta maneira, rejeitam a pedra de esquina, que é Cristo Jesus. O segundo princípio é decorrente deste, uma vez estabelecido o referencial divino no que fazemos podemos projetar este referencial a consumação de todas as coisas. Isto é, do mesmo modo que Abraão viu no descendente do seu descendente o nascimento de Jesus Cristo e sua obra na terra, podemos também discernir que o nosso momento existencial tem reflexo em toda a eternidade. Podemos facilmente compreender como se dará este processo se termos em mente os galardões divinos que haveremos de receber por nossas obras. Consideremos o galardão da justiça. Há duas maneiras de alcançarmos este galardão. A primeira, mais requintada, está em generosamente ajudarmos nossos irmãos que estão passando por necessidades financeiras e materiais. Cada vez que estendemos nossas mãos a estes irmãos, ao Senhor estamos fazendo, um galardão nos é acrescentado. O outro modo de recebermos este galardão é de suportarmos a provação buscando a aprovação divina em meio a ela. Portanto todo e qualquer crente em Jesus Cristo pode receber seu galardão, pois provação é um elemento comum a experiência de todos os crentes em todas as eras. Por estes princípios podemos ter a mesma experiência de Abraão de tudo convergir em Cristo Jesus.

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