Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 8.57-59

Jo 8.57

"Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?" (Jo 8.57). Esta pergunta é profundamente reveladora. Primeiro porque os judeus compreenderam que Jesus argumentou ser Deus. Isto porque ao Jesus dizer que Abraão se alegrou por ver o dia de Jesus, passou aos judeus a impressão que estava com Abraão no dia em que ele manifestou esta alegria. Devemos nos lembrar que neste dia foi o próprio Deus que declarou que o tempo da promessa se cumprir chegara. Portanto para Jesus ter visto a alegria de Abraão, teria de ser o Deus que apareceu a Abraão. De fato nos argumentos de Jesus os judeus tinham todas as condições de o reconhecer como sendo o Messias esperado por Israel. Ocorre que os judeus tinham uma visão tão distorcida da vinda do Messias que não conseguiram reconhecê-Lo mesmo estando diante do Messias. Assim também a igreja tem sido ensinada com tantos aspectos distorcidos acerca da volta de Jesus que muitos verão tardiamente o arrebatamento, sem tomar parte dele. Outro aspecto importante a salientar nesta pergunta dos judeus é o fato deles ter dado 50 anos para Jesus. Pense por um instante: Jesus morreu com 33 anos, portanto os judeus estavam dando a Ele 17 anos a mais. Se você estivesse diante de alguém com 33 anos, você elevaria a idade desta pessoa, por sua aparência, em mais 17 anos? Geralmente erramos a idade de alguém por mais ou menos 3 a 5 anos, jamais com 17 anos de diferença. Por que os judeus deram esta idade a Jesus? Vamos deixar o profeta Isaías responder: "Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso." (Is 53.2,3). Pelo retrato dado pelo profeta Isaías Jesus tinha a aparência envelhecida.

O erro dos judeus quanto a idade de Jesus foi de 17 anos, visto ter Jesus sido morto por volta de 33 anos. Este erro só tem uma explicação: a aparência de Jesus confere com o que o profeta Isaías havia dito dele. Leia por você mesmo: "Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso." (Is 53.2,3). Esta descrição de Jesus contrasta com os que pintores retrataram de Jesus ao longo dos séculos. E a principal razão deste erro de percepção decorre da primazia do homem natural em relação a aparência física. No entanto é por Jesus ser retratado como um bem apessoado homem de 33 anos que levará muitos a aceitarem a personagem quase que magnética da besta, quando esta vier o ocupar seu lugar de destaque. Muitos ídolos são aclamados por sua aparência física, tão somente, atraindo milhões de seguidores. No entanto quando estes abrem a boca para falar revelam toda sua estultícia. Por outro lado, Jesus, tendo esta aparência envelhecida, Ele demonstrava sofrer, mesmo sendo perfeito por natureza, com as mazelas do pecado. Observe que era este um dos pontos do sofrimento de Jesus, ter de expor a beleza de sua perfeição em um mundo marcado pelo pecado. Seria como ser arrastado o tempo todo contra uma superfície áspera. As dores da humanidade recaindo sobre Jesus o envelhecia rapidamente. Quem se voltava para continuar fitando Jesus, o fazia pela fé, por causa do poder de Deus latente em Jesus, por causa das maravilhas de suas palavras, por causa de suas atitudes centradas, firmes e cheia de graça, jamais por sua aparência física.

Jo 8.58

"Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou." (Jo 8.58). Jesus declara, com letras garrafais, ser Deus. Neste momento de sua argumentação com os judeus pronuncia o nome considerado indeclinável pelos judeus, o mesmo nome usado por Deus quando do Êxodo de Israel: Eu Sou. Talvez um dos textos que mais expressam esta verdade tenha saído das penas de Moisés ao escrever: "Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus." (Sl 90.29). Por este salmo entendemos que houve um tempo, podemos chamar de eternidade passada, que só havia Deus. Sua bendita presença perpassa o tempo presente e segue adiante até adentrar na eternidade futura. Por todo este tempo Deus é Deus. O autor aos Hebreus é ainda mais incisivo ao descrever o Eu Sou: "Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre." (Hb 13.8). Este ontem se estende desde a eternidade passada, não só o ministério terreno de Jesus, porquanto Jesus é o Verbo, aquele que estava com Deus antes de se fazer carne. O próprio Senhor Jesus fez questão de ressaltar estas três dimensões temporais encontrada no Eu Sou: "Eu sou o Alfa e Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que há de vir, o Todo-Poderoso." (Ap 1.8). Jesus ao se identificar como o Deus Todo-Poderoso, se colocou nas três dimensões temporais: "aquele que é, que era e que há de vir", o Eu Sou. Um dos aspectos que este nome divino nos revela é aquele mais difícil de ser apreendido pela fé: Jesus é o Criador e o Redentor. Ele criou e tornará a recriar os céus e a Terra, bem como nos redimiu por se fazer como sendo o Cordeiro de Deus. Como Criador Ele sustenta tudo pela palavra de seu poder; como Redentor Ele nos leva para a presença de Deus. Portanto Jesus supre todas as dimensões de nossas necessidades. Foi com base nesta perspectiva que Jesus se apresentou aos judeus de seus dias, o mesmo Deus que esteve com Moisés em toda travessia do Êxodo.

Jo 8.59

"Então, pegaram em pedras para atirarem nele; mas Jesus se ocultou e saiu do templo." (Jo 8.59). Jesus se declarou Deus, como resultado de sua afirmação os judeus pegaram em pedra para atirar nele. Esta declaração de Jesus foi, inclusive, uma das causas de sua condenação quando de sua crucificação. Por que os judeus não aceitaram a declaração de Jesus? Os judeus foram instruídos acerca da unicidade de Deus. O texto que se destaca acerca desta verdade está registrado no livro de Deuteronômio: "Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor." (Dt 6.4). Esta declaração é reafirmada no Novo Testamento pelo apóstolo Paulo: "um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos" (Ef 4.6). Olhando sob a perspectiva da substância divina, de fato há um só Deus. A principal razão para o desterro na Babilônia foi porque o povo de Israel se entregou a idolatria, adorando outros deuses que não o Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Deus é único em personalidade, em vontade, em propósito. Por outro lado este mesmo Deus uno se apresenta em três Pessoas distintas: Deus, o Pai eterno; Jesus Cristo, o Senhor; e o Espírito Santo. A revelação da trindade se mostrou plena no Novo Testamento e, dentre todos os profetas do Antigo Testamento, João Batista foi considerado o maior dentre eles por ter discernido o Deus trino. Este discernimento de João Batista se evidenciou principalmente no batismo de Jesus Cristo, quando o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea de pomba e do céu se ouviu a voz de Deus, o Pai anunciando seu Filho Jesus Cristo. As duas revelações são vitais para o culto a Deus, tanto da unicidade divina do Antigo Testamento quanto para o Deus trino do Novo Testamento. O problema dos judeus da época de Jesus e, continua ainda nos dias de hoje, está no fato de Jesus ter se tornado para eles como pedra de tropeço, por se recusarem a reconhecer a divindade de Jesus Cristo, fechando a eles a porta da salvação.

Leave a Comment