Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 9.2

Jo 9.2

"E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (Jo 9.2). É importante notar quem pergunta a Jesus. São os discípulos! Eles demonstram profundo desejo de compreender experiências existenciais. Na percepção deles a justiça divina é retributiva: cada um colhe o fruto de seus atos, portanto as consequências são manifestas na qualidade de vida do indivíduo. Assim, se aquele homem nasceu cego, alguém foi responsável, seja ele próprio ou seus pais. Os amigos de Jó passaram a maior parte do tempo tentando convencê-lo que ele era o único responsável por seu infortúnio, recebendo a paga por seus pecados. Todo aquele que entra neste labirinto existencial maximiza a culpa, querendo se fazer responsável pela má sorte que vive. Os marinheiros ficaram com medo da tempestade, procurando a quem culpar pelo infortúnio deles. Concluíram ser Jonas o responsável por estar desobedecendo a Deus, lançando-o no mar para aplacar a ira de Deus. Muitos de nós naturalmente nos culpamos por tudo que nos acontece, achando por merecedor de toda desgraça que se abate sobre nossa existência. Uma doutrina corolário deste tipo de percepção é a dos pecados hereditários. Pela leitura simplista da lei divina deduz que o mal é consequência da visitação divina até a terceira ou quarta geração por terem pecado contra Deus (Ex 34.6,7). É nesta lógica que surgiu a pergunta dos discípulos: quem pecou para explicar o mal que abate sobre aquele cego de nascença. Podemos identificar nesta pergunta o complexo do Éden, quando diante da pergunta divina Adão culpou a mulher que, por sua vez, culpou a serpente, cada um deles eximindo-se da responsabilidade por seus atos. A pergunta: "quem pecou?" é terrivelmente traiçoeira, pois coloca o homem juiz de seus próprios atos, apequenando sua visão da realidade que o cerca.

Por outro lado Paulo ensina: "Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará." (Gl 6.7). Para compreender esta instrução em contraste com o que Jesus ensinou, precisamos ampliar nossa visão acerca dos eventos. Deus criou a terra perfeitamente ajustada para o homem viver feliz e próspero, em relacionamento permanente com Deus. O primeiro homem, nosso representante legal diante de Deus, desobedeceu a ordenança divina, comeu do fruto proibido e transformou a jornada na terra em sendas de morte. Desde então a Terra se tornou ambiente hostil e a degradação do caráter uma sina. Do mesmo modo como a influência positiva pode levar o homem a Deus, a negativa pode agravar a separação entre Deus e o homem. Assim, em um lar onde prevalece a falta de caráter, a tendência é que todos, de algum modo, agem de forma semelhante. É por isso que, por exemplo, família onde pais são alcoólatras tendem a terem filhos participantes deste mesmo sórdido hábito. Sob esta perspectiva parece que os pais são causa da infelicidade dos filhos porquanto estes, em recebendo influência negativa, seguem o mesma e triste destino. Se Deus permitisse que este nível de influência negativa fosse por tempo indefinido, geração após geração a humanidade se deteriora de tal modo que muito rápido ela estaria similar aos dias que antecederam o dilúvio. Sabendo da natureza corrupta do ser humano Deus estabeleceu um limite para este tipo de influência negativa: o pai só consegue influenciar, por seu comportamento, sua descendência até a terceira e quarta geração (Ex 34.6,7). De algum modo, além deste tempo é uma nova geração que traça novo roteiro de deterioração ou melhoria do caráter de sua descendência. Aqui uma ressalva: não existe o chamado "pecado hereditário", mas sim, influência hereditária. Logo mais este ponto será explicado.

Não podemos confundir pecado hereditário com influência. Todos nós somos influenciáveis por conta de termos sido criados a imagem e semelhança de Deus. Neste aspecto podemos ver crianças se assemelhando, em comportamento aos de seus pais ou daqueles que maior influência exerce sobre elas. Portanto um tio pode influenciar o sobrinho tanto ou mais que seus pais, por exemplo. Quando os discípulos fizeram a pergunta para Jesus estavam refletindo sobre este tipo de influência que pode, inclusive, ser verificado pelo DNA, nas chamadas doenças de cunho hereditário. Quem olha a realidade humana, excluindo Deus da equação, tudo fica debaixo da inflexível lei do plantio e da colheita. Esta lei foi estabelecida em Gn 1.11, quando Deus determinou que cada árvore gere o fruto segundo suas espécies. Depois esta mesma lei foi transportada para os atos humanos quando Deus determinou em Gn 2.17 que se o homem comesse da árvore proibida haveria de morrer. Desde então a lei do plantio e da colheita foi transportada para o mundo das escolhas morais. É por isso que Salomão observou acerca de certos caminhos parecerem direitos, mas ao fim resultam em morte (Pv 14.12). Portanto a pergunta dos discípulos a Jesus reconhecia este princípio basilar da criação. A pergunta que devemos nos fazer é esta: Como Jesus enxergava o princípio do plantio e da colheita no reino de Deus? Será que existe uma dimensão em que este princípio basilar é suspenso? Se houver esta condicionante que permite a suspensão do princípio do plantio e da colheita isto significaria a plena libertação para o recomeço. Caso contrário todo ser humano estaria inexoravelmente submetido a imposição de ter de colher exatamente o que plantou, sem nenhuma misericórdia.

Nós vimos o poder da influência de um homem sobre o outro ao ponto de ser estendida até a terceira e quarta geração. Esta influência decorre do homem ter sido criado a imagem e semelhança de Deus. Assim, quando alguém olha para dada família encontra traços de similaridades nos comportamentos, mesmo os pecaminosos. Quem olha sob este angulo poderá pensar que os pais determinam os pecados dos filhos como se fossem hereditários. O que se tem neste caso é a força da influência, não a hereditariedade. E qual a diferença? Na hereditariedade o pecado é inexorável, vai acontecer, queira o indivíduo ou não. É como uma sina da qual a pessoa não consegue se ver livre. Isto ocorre, de certo modo, na condição clínica do corpo. Se um pai tem câncer de próstata, seu filho tende a ter grande probabilidade de contrair a mesma doença como se por uma falha estrutural no DNA. No entanto vamos entender Gn 1.11 com Gn 2.17. Em Gn 1.11 Deus determinou que toda árvore dê fruto conforme sua espécie. Esta é a lei da Terra. O corpo foi feito do pó da terra, portanto está submetido a mesma e inexorável lei divina. Se há uma falha no DNA, esta falha pode atingir diferentes gerações e a doença do corpo pode sim, ter certo traço de hereditariedade. Agora a lei de Gn 2.17 é a aplicação do mesmo princípio da causa – consequência, do plantio da colheita, no âmbito moral. E, neste caso, o pecado é sempre uma responsabilidade individual, não importa o nível de influência ao qual o indivíduo está submetido. Este é o ensino de Ez 18.2-4: a alma que pecar, esta morrerá, pois não é certo o ditado que os pais comem uvas verdes e é o dente dos filhos que ficam ásperas. Em síntese o ensino da Bíblia é que, no âmbito moral cada indivíduo é o próprio responsável por seu pecado, independente do nível de influência a que foi submetido.

Considerando o aspecto natural, um homem pode influenciar o comportamento de sua descendência até terceira e quarta geração. Mesmo parecendo ser o pecado hereditário, contudo não o é. Cada indivíduo é responsável por sua própria conduta, não importa o nível de influência a que seja submetido. Este foi o ensino de Ez 18.2-4: o pai não morre pelo pecado do filho, nem o filho pelo do pai, ainda que a força do complexo do Éden, o de lançar a culpa de seus pecados no outro seja a tendência natural da pessoa. Neste aspecto Tiago ensina: "Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz." (Tg 1.13,14). A primeira coisa a observar é que Deus é completamente excluído da equação. Nenhum ser humano poderá alegar que Deus o induziu a pecar, isto está fora de cogitação. A força da influência é reconhecida na expressão "é tentado" ou, em outra tradução "sendo tentado". Três são as fontes de tentações: o diabo, o mundo e a carne. Cada uma delas é capaz de induzir o individuo a partilhar do mesmo pecado de seu semelhante. Mesmo reconhecendo a força destas fontes, Tiago é cirúrgico ao dizer ser o indivíduo atraído e seduzido por sua própria cobiça. Devemos atentar bem para este ponto porque quando ouvimos alguém contar a história de sua tragédia, ele sempre enfatiza a culpa do outro, principalmente de um de seus genitores, como responsável por sua desventura, contudo os influenciadores poderiam agir de forma oposta a relatada, ainda assim a pessoa tenderia a cometer aqueles mesmos pecados porque é sua natureza pecaminosa que impõe a escolha feita pelo indivíduo. O ensino de Tiago reforça: cada um é responsável pelo seu próprio pecado, independente do nível de influência.

Como temos vistos examinar este texto sob a ótica do pecado é considerar a existência natural do ser humano. A primeira coisa que temos de ter em mente é que o pecado é influenciável, contudo, segundo Deus, limitado até a terceira e quarta geração. Portanto não há pecado hereditário e sim influência. O segundo aspecto a observar é da responsabilidade individual pelo pecado. Cada indivíduo, por maior que seja a influência sobre si, quando peca o faz por sua única e exclusiva escolha. Ele jamais poderá alegar diante de Deus que outro o induziu a pecar. Considerado estes dois aspectos temos agora de entender o papel de Satanás em relação ao pecado. Jesus declarou o caráter de Satanás salientando que ele é homicida e mentiroso, nesta ordem (Jo 8.44). Portanto é de sua natureza roubar, matar e destruir, nesta ordem (Jo 10.10). A pergunta que devemos nos fazer é como estas características se comunicam com o pecado do homem. Para entender esta relação precisamos ter em mente o ensino de Tiago sobre o desenvolvimento do pecado. Tiago descarta Deus como origem do pecado, mas reconhece o poder da influência (Tg 1.13). Esta influência procede de Satanás, do mundo e da carne. Neste aspecto a origem do pecado é o próprio Satanás, porquanto ele foi criado perfeito até ter sido encontrado iniquidade em seu coração (Ez 28.15). Assim, no jardim do Éden, na figura da serpente, o diabo se apresenta diante do homem como sendo o tentador. Foi nesta condição que ele surge diante de Jesus no deserto (Mt 4.1). Agora, note isso, é fundamental. O diabo é o tentador até o homem pecar, depois da queda este cai no território de Satanás, que é a morte (Tg 1.15). Isto significa que, enquanto o homem não pecar em uma área específica, o diabo não tem poder sobre este. Depois da queda o diabo sai da condição de tentador para ser acusador (Ap 12.10).

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