Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 9.33,34

Jo 9.33

"Se este homem não fosse de Deus, nada poderia ter feito." (Jo 9.33). O ex-cego concluiu o óbvio: Jesus era de Deus senão jamais poderia ter curado ele. Nós precisamos ponderar com muito cuidado esta afirmação. A primeira coisa a observar é a referência. Se popularizou no mundo dos negócios a ênfase na qualidade. Esta ênfase só existe porque a arte de administrar identificou as melhores práticas organizacionais e, com base nestas práticas uma empresa pode aperfeiçoar seu ambiente produtivo. Se não houvesse este padrão, não haveria porque medir o processo, não haveria como aumentar a performance produtiva. Ocorre que, no âmbito espiritual, por desconhecimento da Bíblia, a palavra de Deus, muitos estão assemelhando seu comportamento com práticas mundanas, sem conexão com os princípios bíblicos. Tome este caso da cura. O cego de nascença foi curado. Este homem atribuiu a cura a Jesus, tomando-o como homem de Deus. Ocorre que a cura de uma enfermidade pode ocorrer por diferentes mecanismos. Por exemplo: alguém com câncer ser curado por tratamento médico; outro com azia curado por medicina homeopática; outro tem câncer de abdômen e é curada por intervenção espiritualista; outro é curado de alguma enfermidade sem nenhuma ajuda medicinal, só por ação própria do seu corpo com anticorpos. Com isso queremos dizer que atribuir a cura a alguém ou alguma coisa não é tarefa simples. Muitos falam do medicamento placebo, cuja eficácia é cientificamente nula, contudo a ele é atribuído certas curas. Então como entender este ex-cego atribuir cura a Jesus? Por qual parâmetro podemos atribuir cura segundo a ótica da Bíblia? O certo é que não podemos atribuir indiscriminadamente a cura a alguém ou alguma coisa. Precisamos ser criteriosos neste processo, pois alguém que é curado tem tanta alegria que pouco lhe importa como a cura se deu e quais suas implicações.

Se é possível atribuir a cura a distintas fontes, como a capacidade do corpo produzir anticorpos, a medicina, a curas espiritualistas e a Jesus, dentre outras possibilidades, como discernir a atribuição feita pelo ex-cego a Jesus? Moisés deu instruções a este respeito: "Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o Senhor, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o Senhor, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma." (Dt 13.1-3). Moisés reconhece que um sinal ou prodígio, portanto um milagre de cura, pode acontecer. Contudo Moisés salienta que nem todo milagre tem sua origem em Deus. Isto significa que os poderes das trevas exercem relativo poder de curar alguém de alguma enfermidade. Tanto é deste modo que João adverte no Apocalipse que a besta do mar será aceita no mundo por causa de sinais e prodígios feitos pela besta da terra (Ap 13.13). O modo como se pode discernir a origem do milagre é quando ele exalta a glória de Deus. Isto porque os milagres feitos por Deus levam o indivíduo a adorar e servir a Deus. Foi o que aconteceu com o ex-cego. O milagre feito por Jesus trouxe o cego de volta a Jesus, ainda que um milagre feito por Jesus pode levar o beneficiário a se esquecer de Jesus, como aconteceu com os nove leprosos (Lc 17.17). O que é preciso entender esta nisso: a cura promovida por Deus se dá no contexto do evangelho. Aqueles que buscam a cura a qualquer preço precisam entender que podem ser curados, mas um dia hão de deparar com a morte. Nesta hora só os que conhecem Jesus e entregam sua vida a Ele tem a vida eterna.

Jo 9.34

"Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram." (Jo 9.34). Como podemos compreender o clímax desta discussão? Os fariseus expulsaram o ex-cego do templo, desligando-o da religião de Israel. Jesus certa feita disse que os fariseus se achavam no direito de serem os porteiros do reino de Deus, selecionando quem devia entrar, quem não. O pior é que Jesus disse que estes fariseus também não entravam, se constituindo em obstáculo para a salvação de seu povo (Mt 23.13). Este é o terrível drama da religião: os sacerdotes têm consigo a consciência de estarem reconectando o homem a Deus. Por exercerem esta função dedicam suas vidas nesta missão. Por outro lado quem não tem conhecimento de causa, por estarem ocupados com suas atividades, confiam que estes sacerdotes sabem o que estão fazendo. Se este sacerdote avalia que o homem é digno de salvação, ele fica em paz com sua consciência, se, por outro lado o sacerdote exclui este indivíduo, ele se percebe o mais maldito dos homens. Ocorre que Jesus Cristo se apresentou como única porta apta a abrir caminho de restauração do homem para com Deus. E aquele ex-cego tivera encontro com Jesus, portanto encontrando a porta que os fariseus fingiam serem responsáveis. Considere está cena com duas portas, uma diante da outra. Os fariseus estavam obstruindo uma porta, do lado oposto a outra estava aberta. Portanto ao expulsarem o ex-cego, eles estavam ajudando este crente a decidir qual era a porta por meio da qual ele devia entrar. Este ex-cego tinha de escolher se ia insistir batalhar pela porta da tradição e da religiosidade, ou aceitaria perder contato com estes falsos pastores para seguir a Jesus. Uma coisa é certa, todo aquele que ocupa o lugar do fariseu passa o tempo todo julgando o outro como mais ou menos pecador, tendo como parâmetro a pretensa pureza do fariseu. Isto porque o fariseu se achava vara de medir por meio da qual todo homem era submetido a escrutínio.

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