Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 9.37-39

Jo 9.37

"E Jesus lhe disse: Já o tens visto, e é o que fala contigo." (Jo 9.37). O ex-cego perguntou: "… Quem é [o Filho do Homem], Senhor, para que eu nele creia?" (Jo 9.36). E Jesus Cristo respondeu de duas formas distintas: primeiro o ex-cego já tinha visto o Filho do Homem, nada mais precisaria ser acrescentado. Contudo o Senhor acrescentou mais uma resposta: declarou que o Filho do Homem era o mesmo que agora se apresentava diante do ex-cego. A resposta de Jesus é enigmática e não usual. Ele poderia ter sido mais direto, ter dito: – Sou eu, mas Jesus não respondeu deste modo. Isto significa que Jesus, na sua resposta, focou em fortalecer a fé do ex-cego, portanto a fala de Jesus é plena de significado espiritual. Vamos considerar a primeira resposta, para isto, resgatando como se deu o evento. O ex-cego nunca viu Jesus, senão neste encontro. No entanto Jesus disse que o ex-cego já tinha visto o Filho do Homem. Como alguém pode ver sem ver? Lembra de Tomé? Para crer na ressurreição ele queria tocar fisicamente em Jesus. Jesus se apresentou a Tomé e deu-lhe oportunidade de tocar em Jesus, contudo acrescentando, em seguida: "… Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram." (Jo 20.20). A luz desta fala de Jesus podemos entender que o ex-cego foi curado por exercer fé. Nesta acepção podemos definir fé como sendo a capacidade de ver o invisível, de crer na palavra de Deus antes mesmo de evidenciar o cumprimento das promessas de Deus. Isto significa que, mesmo se evidenciando que foi Jesus quem se dirigiu ao cego de nascença, dentro de si o cego já conhecia as profecias do Filho do Homem. Portanto crer antes de se realizar o evento é o padrão divino. O autor aos Hebreus retratou esta verdade: "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam." (Hb 11.6). A fé é condição "si ne qua non" para Deus operar milagres.

Primeiro Jesus destacou a fé do ex-cego. Antes de ver Jesus pessoalmente, o ex-cego já tinha visto Jesus pelos olhos da fé. Então Jesus enfatizou aquilo que o ex-cego estava ouvindo. Jesus podia ter dito: – Eu sou o Filho do Homem, este que você está vendo com seus olhos físicos. Se Jesus tivesse falado deste modo como nós poderíamos ver Jesus hoje? Note que coisa curiosa: a fé vê para o ouvido ouvir. Por isso lemos no Apocalipse: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas…" (Ap 2.7). E por que é tão importante ouvir? A ênfase no ouvir decorre do apreço divino em se comunicar com seu povo para ter comunhão com ele. Podemos nos perguntar: – Se É tão importante ouvir por que temos esta dificuldade? Por causa dos ruídos em nossa mente. O ser humano é tão focado em si mesmo que sua mente não cessa de pensar em si mesmo. O profeta Isaías distingue o pensamento divino dos nossos pensamentos (Is 55.8,9). Digamos que alguém leia a Bíblia para você em voz alta. Você vai ouvir no primeiro momento algo do tipo – dez por cento do que foi dito. O restante do tempo sua mente vagou para outros lugares. Então surge a pergunta: – Quantas vezes você precisará ouvir o texto recitado para ouvi-lo completo? No mínimo dez vezes. E por que no mínimo? Porque você pode desconectar a audição sempre no mesmo ponto. Note o ex-cego. Ele está diante de Jesus fisicamente. Jesus esta falando com ele, mas dentro de si o ex-cego podia estar se questionando como faria depois de ter sido expulso da sinagoga. Ou se perguntando porque seus pais o rejeitaram mais uma vez. Ou se questionando como faria para alimentar-se se não podia mais pedir esmola como cego. Todos estes pensamentos podiam estar distraindo o ex-cego da voz de Jesus. Portanto ouvir Deus falar é um grande desafio, pois concorre com todos nossos pensamentos, angústias, preocupações, ansiedades e coisas deste tipo.

Jo 9.38

"Então, afirmou ele: Creio, Senhor; e o adorou." (Jo 9.38). Vamos recapitular a pergunta: – Crês tu no Filho do Homem? (Jo 9.39). Note que houve uma distância entre a pergunta e a resposta. O ex-cego poderia ter respondido de imediato: – Creio, Senhor! No entanto primeiro ele procurou se cientificar quem era o Filho do Homem para ele crer. Podemos fazer um paralelo a outra pergunta muito comum. Alguém chega a você e pergunta: – Você crê em Deus? Geralmente o indivíduo responde de bate pronto: – Eu creio em Deus. Só que antes de responder a esta pergunta é preciso se certificar quem é o Deus que o emissor da pergunta está se referenciando. Este Deus pode ser um ser incognoscível, uma força, uma forma de poder. Este Deus pode ser o Criador e se resumir a este papel. Este Deus pode ser o Deus dos céus, sem nenhuma relação direta com a terra. Se, a luz da Bíblia este Deus fosse indicado, Ele seria representado como sendo o Deus Criador dos céus e da Terra; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó; o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Uma vez identificado quem é o Deus mencionado, então a reposta poderia ser dada. Do mesmo modo, ao Jesus perguntar se o ex-cego cria no Filho do Homem, este procurou certificar-se quem era o Filho do Homem. Também neste caso podemos errar se não observarmos como este personagem foi apresentado. Em princípio o Filho do Homem era o próprio Jesus Cristo diante do ex-cego, mas não foi esta a ênfase que Jesus deu a si mesmo. Jesus não destacou a sua presença física como condicionante para o ex-cego crer, mas enfatizou a fé do ex-cego no poder do Filho do Homem e na capacidade auditiva dele em reconhecer a voz de Deus na voz de Jesus. Foi com base nestas condicionantes que o ex-cego creu e estas mesmas condições é que nos são exigidas para crermos no Filho do Homem. Portanto nesta resposta do ex-cego encontramos um importante princípio espiritual: só podemos crer naquele que identificamos e, portanto, conhecemos.

Jo 9.39

"Prosseguiu Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos." (Jo 9.39). Jesus encontrou um cego de nascença e o curou fisicamente. Depois o encontrou segunda vez, depois do ex-cego ter sido expulso da sinagoga. Nesta oportunidade Jesus perguntou se o ex-cego cria no Filho do Homem, ao que o ex-cego respondeu afirmativamente. Todo processo de cura e crença foram realizados com base no conhecimento prévio que este ex-cego tinha sobre a missão do Filho do Homem, portanto foi antecedido pela pregação da palavra de Deus feita por Jesus. Por que é preciso fazer esta distinção? Porque diariamente o homem é beneficiado pela provisão divina, contudo ele naturalmente não reconhece que esta provisão vem de Deus. Alguém pode questionar: – As pessoas não declaram graças a Deus com certa frequência? Não é está declaração reconhecimento? Pode parecer que sim, pois é uma expressão dos lábios, no entanto pode não ter conexão alguma com o coração. Jesus afirmou: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." (Mt 15.8). Como podemos saber se os lábios confere com o coração? Quando aquele que é favorecido por Deus confessa Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Lembra dos dez leprosos? Todos foram curados, mas só um voltou para dar glória a Deus. É por isso que Jesus se tornou pedra de tropeço para a humanidade. Todos, indistintamente recebemos da providencia divina, o sol nasce sobre o justo e sobre o ímpio. Todos somos expostos a palavra de Deus, pois o evangelho tem sido levado a todos os povos, raças, línguas e nações, contudo só alguns poucos crêem. Assim, por causa da pregação do evangelho, quem era cego passou a ver e quem achava que via se mostrou cego. É por isso que precisamos refletir sobre quem Jesus é de fato para nós. O verdadeiro crente não é o que é agraciado por Deus, mas o que se rende a Jesus por meio da fé para segui-lo como seus discípulos.

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