Comentários no Evangelho de João

Comentários em João 9.40,41

Jo 9.40

"Alguns dentre os fariseus que estavam perto dele perguntaram-lhe: Acaso, também nós somos cegos?" (Jo 9.40). Tem um ditado que diz: para bom entendedor meia palavra basta. Os fariseus ouviam Jesus, tinham certa compreensão do que era dito, mas se recusavam aceitar a verdade. Isto porque eles se consideravam os guias de Israel; os únicos intérpretes do Torah; os portadores da luz divina. Para eles suas tradições se sobrepunha ao conteúdo escrito do Antigo Testamento. Eles se julgavam donos da cadeira de Moisés (Mt 23.1), atuando como legisladores, determinando como o povo devia se comportar. Não havia limite para o peso da lei. Regulavam todas as esferas da vida. Jesus, em outro lugar, avaliou está índole dos fariseus: "Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los." (Mt 23.4). Os fariseus exigiam perfeição ritualista de seus seguidores, no entanto não aplicavam para si suas exigências. Para eles a justificação por meio da fé não era suficiente para salvar, precisava ser adicionado boas obras cujo escopo era definidos por eles. Isto fazia sua religião ser altamente manipulativa. O proselitismo deles produzia aridez espiritual. Neste aspecto Jesus foi incisivo acerca deles: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!" (Mt 23.15). Note o comportamento dos pais do ex-cego: eles negaram a cura do filho deles para não se indispor com os fariseus. Para permanecerem filiados a sinagoga eles negaram a verdade. Por obrigar o culto da aparência em detrimento da verdade Jesus os considerou cegos. Disse Jesus acerca deles: "Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mt 23.24). Portanto, sim, Jesus tinha os fariseus como guias cegos, incapazes de compreender a luz do evangelho.

Jo 9.41

"Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado." (Jo 9.41). Diante da resposta dos fariseus Jesus argumentou, levando-os a refletir. O pano de fundo deste diálogo é a cura do ex-cego. Este ex-cego foi duramente interrogado pelos fariseus porque o ex-cego alegou ter Jesus curando-o de sua cegueira. Para os fariseus Jesus não podia ser homem de Deus, pois havia realizado a cura no sábado. Então procuraram desqualificar Jesus tentando fazer o ex-cego negar sua cura. Vamos entender o ponto em questão. Os fariseus não eram cegos. Eles viam com seus olhos naturais. Digamos que você encontra um cego. É possível saber que este homem é cego? Por certo que sim. Não é necessário nenhum exame clínico. O deficiente visual não consegue andar sem tatear o espaço físico. Se ele não fizer este procedimento baterá com o nariz em uma parede. Quem observa a cena logo percebe se tratar de um deficiente visual. Por outro lado, se você estiver diante de uma pessoa que enxerga e ela não finge ser cego, mas age naturalmente como normal, não há como negar que a pessoa vê. Ou seja: o que você vê com os seus olhos é o que é. No entanto os fariseus estavam com dificuldade em lidar com o que viam, pois teriam de reconhecer um milagre. Para não ver o que estava vendo eles teriam de serem cegos ideologicamente falando. A única forma de proceder desta maneira é negar a existência por causa de suas crenças. Isto é uma variante da deficiência visual. Os fariseus estavam sendo caracterizados como cegos espiritualmente falando. Por isso Jesus chamou atenção para a escolha dos fariseus em como tratar a realidade. Negar a evidência da cura só porque Jesus havia curado fazia dos fariseus incrédulos. E este é um pecado terrível diante de Deus, pois negam a obra de Deus para não dar glória a Deus. O que é incredulidade? É o produto da incapacidade humana em reconhecer a obra de Deus. Este era o pecado dos fariseus.

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